O homem que queria deixar de existir

Era terça-feira, havia chegado em casa depois do longo dia – entre uma fila e outra resolvendo burocracias. Sentou-se à beira da cama e ficou a observar a cidade. Chovia naquela noite. A cidade estava escura, dentro dele também havia escuridão. A chuva o deixara pensativo. Antes de entrar em casa ouvira os vizinhos falarem da tentativa de suicídio. O homem do prédio da frente havia tentado deixar de existir. Pensou na cena, pensou nas viaturas de policia, bombeiros chegando. Pensou na agonia da pessoa que havia ingerido dezenas e dezenas de comprimidos.

Saiu da cama e foi tomar. Embaixo do chuveiro continuou a pensar no homem que queria deixar de existir. Nunca o cumprimentara. Já o tinha observado algumas vezes pela janela do apartamento, ao entrar e sair do prédio, mas nunca trocaram uma palavra sequer. Não sabia se tinha família, animal de estimação ou um amor platônico. Pensou em como seria a vida do homem a partir de ali. Como as pessoas o veriam? Como ele próprio iria passar a se enxergar? Será que iria continuar a morar ali? E pensou também que pensar em todas essas coisas era besteira. Pensou em todas essas coisas e enquanto pensava pegou no sono.

Ao acordar ela manhã, a rua estava quieta. Pairava um ar tranqüilo. Coisa que nunca acontecia naquela rua movimentada. Fez um café. Tomou banho, vestiu-se e saiu. Caminhou a pé. Pegou dois ônibus. Passou o dia a resolver burocracias. Foi ao café no centro. Andou pelo parque. Na volta para casa pegou dois ônibus lotados e enfim, chegou em casa. Não parou de pensar no homem que queria deixar de existir. Um sentimento de tristeza o tomou. Era tristeza e era também medo. Era algo que não sabia explicar. Sentia-se incapaz diante de tantas situações. E o sentimento de incapacidade o atormentava. Tomou banho, abriu a garrafa de vinho barato que havia comprado há um ano e pôs-se a ler um livro.

Parou a leitura e começo a pensar em como era sua vida há alguns meses. Evitava sair de casa para não se deparar com tanto sofrimento pelas ruas. Evitava abrir a janela do quarto. Evitava criar laços com qualquer pessoa que fosse. Era medo que ele sentia. Um medo tolo talvez. Pensava que assim as dores do mundo não chegariam a ele. Estava a ser covarde também. O vinho já estava a acabar e ele começou a pensar no quanto de vida já havia perdido. Lá fora havia dor e sofrimento, mas a vida também estava lá fora. Do lado de fora de si mesmo e do seu mundo quadrado. Havia se deixado sufocar pelo medo e pelo sentimento de incapacidade; pelo medo de enxergar e ver o que não queria. Saiu da caverna e não enxergou apenas escuridão ou sombras, havia luz também. Vez ou outra sentia vontade de voltar para a sua caverna, mas estava a tentar proteger a si mesmo apenas, mas e os outros que ele pensava se importar? Esconder-se da vida não iria fazer com que a dor e o sofrimento do mundo se escondessem também. Voltou a si e parou de martirizar-se, talvez fosse preciso ter vivenciado aquilo, não sabia direito mas estava a tentar ser melhor, estava a tentar enxergar além da própria dor.

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