Amaranto

Olhava pela janela do metrô aquele cenário tão antagônico ao dos filmes antigos:

Na paleta de cores, azul desbotado e cinza frio. Arvorezinhas perdidas em meio ao solo de concreto, respirando com dificuldade o ar pesado que entra pelas narinas mais sugando do que dando vida. Casinhas perdidas em lugares onde não deveriam está, recheadas de crianças com as pernas tão acinzentadas quanto os muros e as britas.

Tudo era daquela cor que não tinha cor: Cinza.

Ferrugem dos trilhos para combinar: Vermelho.

No peito, guardava muita coisa que não deveria guardar: Lembranças cinzentas que lhe eram como fumaça que invade os pulmões e polui aquela cidade que existe dentro da gente, sentimentos avermelhados que chocam-se contra o sol e fazem arder os olhos, tons vulcânicos, e tão quentes quanto, que descem pela garganta rasgando e queimando.

“Não há cura” – disse em voz baixa para a sua plateia indistinta que se amontoava como pinguins de terra de corações gelados e clima tropical.

“Não há” – respondeu um senhor que estava sentado ao seu lado.

Não se surpreendeu por ter recebido uma resposta, era óbvia a veracidade da informação. Não há cura para aquela cidade em que ela nem via como habitação, e nem para ela mesma.

Andava pelas ruas como turista, empurrando a bagagem toda com a barriga e fotografando o que todo mundo já estava cansado de vê.

“Deixei uma bagagem para trás” – disse.

O senhor ao lado a olhou, coçou o bigode alvo desfavorecido e voltou os olhos para baixo novamente.

“Talvez ela nunca volte, mas o meu pensamento está sempre nela… então é como se ela ainda estivesse aqui” – ela falou olhando para a janela.

“A bagagem?” – perguntou o senhor.

“Ela” — respondeu

O senhor entrelaçou as mãos apoiadas nas pernas, olhou-a sem que ela o visse e meneou a cabeça para cima e para baixo, para cima e para baixo mais uma vez.

Afirmativo. Ninguém sai assim, sem deixar ao menos confusão, incerteza, mentiras ou verdades.

“Dentro da bagagem havia coisas suas que você mesma colocou, você não quer a bagagem, você quer as suas coisas de volta” – afirmou o senhor balançando a cabeça e retornando o olhar para os sapatos.

Ela se virou assustada com olhos que demonstravam medo, tanto que a fez segurar firme a bolsa e olha-lo com indiferença, transferindo o pavor do abstrato para o concreto. Cinza.

Não queria ouvir verdades, mas o que ele disse era uma certeza.

A bagagem de nada a valia se ali não tivesse posto um pouco de sentimento e expectativa.

“Deixa pra lá! O que você precisa é de sopa de amaranto com legumes, e chá de camomila…” – ele disse com os olhos ainda voltados para baixo.

“Amaranto?” – ela disse puxando a bolsa para mais perto de si. Vermelho intenso.

“Para consertar um coração partido” – O idoso lhe disse direcionando os olhos para os dela. Olhos nos olhos. Vermelho – “É que bagagens perdidas, ou deixadas tem o costume de voltar sem tudo o que tinham dentro. Às vezes voltam sujas, às vezes você percebe que a bagagem não era tão boa, que não tinha tanta coisa dentro como pensou, ou que essas coisas já lhe perderam o valor e que então não lhe serviu de nada o estresse que sofreu pelo extravio. Ai você se lembra que bagagem é sinônimo de “mala” —Ele concluiu sorrindo, retornando os olhos para baixo.

Aquietou-se. Preto e branco.

Agora ela pensava em amaranto, amar tanto. As ideias tentavam se organizar em sua mente, cores surgiam formando novas paletas. Não compreendia: Naquele dia só queria falar sozinha, mas sentia-se bem com as respostas.

“Está tudo bem” – Ela lhe disse sorrindo de canto voltando os olhos para a janela. Verde. Azul.

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