O caos do estúpido

Pela janela avisto uma só estrela. O céu está pálido, pensativo. Nada de concreto, as nuvens cobertas pelo breu a qualquer momento podem se desmanchar. Depois de duas taças de vinho começo a divagar. “Tolice criar edificações” – penso. Arquiteto as minhas ideias sem planejamento, assim como criei expectativas sobre fumaça de cigarros, não meus, eu não fumo. Nem bebo. Só hoje estou tomando vinho porque perdi o meu emprego e fui gastar o pouco de dinheiro que me resta. Irônico.

Na verdade, não é a primeira vez que bebo, confesso, e os preços dos vinhos que compro crescem na medida das tentativas de que um mais caro tenha um gosto melhor. Outra tolice. Não consigo gostar. Mas finjo que gosto, já sou chata demais para não gostar de vinho.

O certo é que todos me parecem iguais: têm gosto de decepção que para na garganta e impede os movimentos peristálticos, gosto de lembrança ruim que impede a diástole, gosto de coisas mal resolvidas. De fracasso. É isso. FRA-CAS-SO.

Como o fracasso da última construção, é que de sentimentos não sou boa engenheira, às vezes derrubo edifícios, às vezes eles se desmoronam sobre mim. Dito e feito: Demoliu-se, e eu fiquei sob. A queda foi feia, e eu me machuquei, mas não se preocupe, estou bem. Olha eu aqui sorrindo boba sob o efeito do álcool. Brincadeira, não estou sorrindo.

Ouvi os estrondos que alertaram que o prédio iria se derrubar, mas fiquei. É que sou viciada em sensações e queria sentir, então tudo que fiz foi ficar parada olhando para cima pensando “Vai doer pra caramba”. E doeu, mas está passando. Feridas não saram do dia para noite, nem se podem cura-las com beijinhos como a minha mãe fazia comigo na minha infância.

Eu sei que às vezes tem que se permitir sentir. Deixar que a última lágrima se desprenda e siga o seu rumo. Permitir a última batida fraca e sonolenta do coração até que ele se recupere. Paciência até que os ouvidos se acostumem novamente a ouvirem as antigas músicas, e os olhos a verem séries que não sejam “Friends” e “Um maluco no pedaço”.

Às vezes vale deixar, clichê, que o tempo faça os nossos curativos, para que tudo que dói agora seja trivial, o nosso mundo reorganize a sua órbita, e deixemo-nos de girar e encontremos a direção certa.

Assim, começaremos um novo capítulo.

2 comentários em “O caos do estúpido

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