O Mecanismo

Todos os dias no caminho para o trabalho, passo por uma determinada rua. E nessa rua há uma determinada casa. E essa determinada casa difere das outras, de uma maneira pra lá de incomum. Sua porta e janelas são velhas e estão sempre trancadas. Sua cor já foi perdida na aparência desgastada, seu quintal está repleto de mato, seu telhado está quebrado, sua afiação foi rompida e ela não possui muros. Não há sinal de vida no lugar. O único objeto familiar a meu ver está desenhado na parede: uma bandeira do Brasil grafada a giz, feita no puro cimento.

Quando passo por ela, sinto uma catinga forte, inconfundível. Uma podridão insuportável, além do barulho infernal das moscas que rondam algum canto incerto da casa. Não sei dizer se elas estão em cima, ao lado, nos fundos ou dentro da residência. Tudo que sei é que posso ouvi-las — uma eternidade em segundos.

Todos os dias eu me pergunto como a vizinhança não estranha tal situação. Perguntou-me como ninguém busca saber o que causa o mau cheiro na casa, ou o motivo da nuvem moscas. Qual seria a razão de permanecerem tão inertes, tão indiferentes, num ambiente completamente desconfortável? Não conheço a verdadeira causa, se houver uma.

Certa noite enquanto dormia, tive um sonho com a casa e nele recebi uma espécie de epifania. No sonho eu seguia meu trajeto diário até o trabalho. Virava a esquina, entrava na rua da casa e parava de frente a ela. Contudo diferente do habitual, o mau cheiro não estava lá. As moscas também não. A casa estava diferente. Estava linda, limpa e bem cuidada. Seu muro fora reerguido e customizado. Suas paredes foram pintas. Suas janelas recolocadas, seu telhado fora reparado e a porta substituída. A bandeira não era mais só um relé desenho, era real. Estava estendida num mastro colocado ao lado da casa e balançava com o forte vento.

Fiquei parado ali por um tempo, surpreso com aquilo tudo. Em seguida, os vizinhos começaram a deixar suas casas, eles se reuniram na rua para observar a novidade. Todos, sem tirar nem por. As crianças, os adultos, os jovens, os idosos, os magros, os gordos, os brancos e os negros. Eles estavam lá e apontavam e falavam sobre a casa. Eles se perguntavam o porquê do fedor ter desaparecido e o porquê das moscas terem deixado o local. Não encontrando respostas, eles se irritaram uns com os outros. Então decidiram se dividir; formaram grupos e militâncias distintas. Deram cores e nomes aos bois. Daí, invadiram a casa e começaram a destruir tudo. Os vidros, as janelas, a porta, as flores, o muro, o telhado, os papéis de parede e a tinta. Deixaram-na como estava outrora. A única coisa que não mexeram foi no mastro e na sua bandeira.

Não satisfeitos, os vizinhos juntaram sacolas com lixos, animais mortos e restos de dezenas de coisas horrendas e lançaram ao redor da casa. Depois, clamaram aos céus para que o moscaréu reaparecesse. Quando os insetos voltaram, trazendo consigo seus demoníacos zumbidos, eles ficaram contentes. Todos sorriram, bateram palmas e festejaram. Um grupo estourou uma garrafa champanhe. Um cara ficou emocionado e passou mal. Uma ambulância foi chamada e o levaram para longe dali. Quando tudo voltou ao “normal”, os moradores se despediram e se esconderam novamente em suas casas. Eu fiquei sozinho na rua mais uma vez, observando o ocorrido. Pouco depois, acordei.

Foram-me necessários bons minutos de reflexão e três xícaras de café para interpretar o elã que tive. Depois de muito repensar no significado de todas as coisas, cheguei a seguinte conclusão: a casa é o próprio Brasil. Sua situação atual — de pura nojeira — descreve a alma do sistema que administra a nação. A vizinhança simboliza o povo brasileiro, de uma maneira geral. E a cegueira do povo pela manutenção da podridão se dá ao desejo de muitos de manter o sistema de pé. Minha epifania trabalhou com dois pontos de vista distintos. O do cético e o do cego. Na visão cética, eu adquiri a oportunidade de observar o país “de fora”. Nesse prisma, ideologias como o patriotismo não passam de uma marca do passado. Algo que já está desmanchado juntamente com toda a estrutura do país. Seu símbolo é a bandeira nacional, pintada de giz, desgastando-se juntamente com a casa. Por outro lado, na visão dos cegos, ser patriota é batalhar pelo crescimento do sistema e ajudar a alimentar o câncer que se espalha por todos os lugares. Uma bandeira estendida sob a luz do sol, mas condenada a balançar na sombra das moscas.

Ao fim da reflexão, voltei a minha rotina diária rapidamente. Mas temporariamente, decidi mudar o trajeto e caminhar por outras ruas…

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