O enigma dos pastéis

Rio de Janeiro, Junho de 2004.

1

Acendi meu cachimbo e liguei a TV para assistir à final do Flamengo na copa do Brasil. Arrastei uma cadeira da cozinha pra sala e, no caminho, abri a geladeira. Dei uma olhada geral, não tinha o que morder. Pus no colo o último engradado de cerveja e voltei pro jogo. Na sala, não encontrava o controle da TV em lugar algum. Fui obrigado a levantar três vezes para aumentar o volume. Quando ficou legal, sentei, cruzei as pernas, abri a primeira latinha e relaxei. O tempo correu, o jogo estava pra começar. Tudo ia muito bem, até alguém bater na minha porta. Três vezes: rápido, alto, oco. Eu conhecia o tom e já sabia quem era.

Puta que pariu… Logo agora? Droga!

Não adiantava reclamar muito. O som da televisão me entregava. Além disso, já era tarde, ele sabia que eu estava em casa. Levantei novamente e dei um gole. Caminhei até a porta e abri. Gregório estava do outro lado, com sua cara de cínico, seu casaco de 200 anos, seu cabelo branco e sua barba pra fazer.

Jooooonass, meu grande amigo! Quanto tempo! Boa noite rapá.

Ih… Você? Lá vem! – Respondi. Quando ele paparica demais, é porque planeja alguma.

Que isso, meu amigo. Tenho uma quente pra gente. Dinheiro certo! Você não vai se arrepender. Posso entrar? Tô morrendo de sede…

Vai embora, Greg. Tive um dia fodido. Meu aluguel está atrasado, o proprietário está puto e não posso vacilar. Por favor, não enche meu saco e nem cause problemas.

Qual foi, irmão? Não vai nem ouvir o lance? Tô falando pra tu, o negócio é quente… Se funcionar, não precisaremos de outro golpe tão cedo.

Eu não tinha muitas opções. Ele estava parado na minha porta, zoando, sorrindo e falando merda. Um malandro desgraçado nato, qualquer um reconheceria isso. Não há como correr de gente assim, ou eu dava um soco e fechava a porta, ou deixava ele entrar. Deixei. Pelo menos dentro de casa a vizinhança não iria vê-lo. Tranquei a porta logo após e voltamos pra sala.

Puxa uma cadeira. Estou sem sofá – disse.

O que houve com ele?

Vendi.

Gregório também arrastou uma cadeira da cozinha até a sala. Pôs ao lado da minha. Dei a ele uma lata de cerveja e sentei.

Diz logo pro que veio e mete o pé daqui. O jogo já vai começar Greg – Falei. E apontei pra TV. Os times já estavam no vestiário.

Ele deu um longo gole e começou;

Ainda bem que o volume está alto. Garantirá que ninguém vai ouvir a gente. Esse assunto é secreto.

Que assunto, Greg? Qual é a bola da vez? Olha cara, acabei de te dizer que vendi meu sofá. Estou duro. Não tenho nem pro papel higiênico e espero que você não precise. Se estiver procurando dinheiro emprestado, ou algum lugar pra ficar, vá atrás de outro cara.

Ele começou a rir.

Não meu velho Jonas, não é isso. Calma lá.

Não somos amigos! Somos no máximo bons colegas. Anda, vai. Desembucha duma vez.

Gregório fez bico e começou a xingar. Cruzou os braços, fez a maior cena.

Como assim, meu? Não somos amigos? Sempre te considerei um irmão…

VÁ DIRETO A PORRA DO ASSUNTO GREGÓRIO – Gritei.

Ok. Ok. Preste atenção porque o negócio é quente.

Beleza.

2

Greg tirou um martelo do bolso:

Vamos fazer acontecer!

Como é?

Calma. Só usarei isso aqui se necessário. Seguinte, meu chapa. Lembra sobre o que eu te falei dos chineses, certo?

Hã? Como?

É! Os chineses. Da pastelaria lá da praça. Saca?

Aí meu saco… É sério isso? Tá. Eu gosto da coxinha de lá. É meu salgado favorito. O que tem eles? Você assaltou a maldita loja? Com um martelo?

Não! Claro que não, porra. Escuta! Eu passei por lá hoje pra comer alguma coisa e comprar um refrigerante. Enquanto pagava, eu ouvi o papo que dois deles estavam tendo. E… Eu já cheguei a te contar que fiz um curso de mandarim por correspondência, né?

É, falou. Prossiga.

Show. Então eu estava ouvindo o papo de dois deles, meu caro Jonas. O proprietário e um outro carinha lá. E tenho quase certeza de que peguei um papo sobre algum encontro, hoje à noite. E ai vem a parte interessante da coisa: segundo eles irá rolar um encontro anual valendo uma grana, terá pelo menos 30 mil reais envolvidos no negócio.

30 mil?

Sim. Trintão!

– Caralho, é uma boa grana.

É uma baita grana. Eles disseram que colocariam 30 mil “pra jogo”, algo assim. Eu não sei se eles estão negociando a loja ou a virgindade da coitadinha que trabalha lá no forno, mas os chineses são burros e estamos falando de 30 mangos, brother! Essa grana pode ser nossa! Tenho um plano perfeito para pega-las. Mas primeiro temos que desvendar esse enigma.

O enigma dos pastéis…

Pois é. Uma chance única.

Respirei fundo. Olhei pra TV, ainda estava nos comerciais. Levei a mão ao rosto. Refleti sobre o plano. Curioso: ao mesmo tempo em que sentia que era o golpe mais fácil do mundo, tinha a impressão de que seria o mais imbecil do mundo.

Olha Greg… – Cocei a perna – Veja, os chineses não são nada burros. Você que não é capaz de entende-los porque você não fala o idioma deles. Isso não quer dizer que eles sejam idiotas. Tá legal? E outra, mesmo que eles estejam com 30 mil reais dando bobeira em algum lugar daquela loja, como você planeja pegar o dinheiro dos caras? Essa galera curte uma máfia, luta Kung Fu, desaparece no ar e o escambau.

Gregório tomou o engradado e pegou mais uma lata. Ele abriu, tomou e se justificou:

Brother, isso é muito simples, é muito tranquilo! Você já viu algum chinês fora da pastelaria em toda sua vida?

Era uma pergunta idiota, mas profunda. Pensei bem antes de responder.

Não conta os chineses do centro. Aqueles dos camelódromos. Quero dizer, você já viu qualquer um deles levando uma vida civil normal? Fora do trabalho? – Complementou Greg.

Não. Acho que só na TV – Disse.

É aí que está! Ninguém sabe onde esses putos se escondem. Eles atravessam o mundo pra ganhar o nosso dinheiro e não são rastreáveis. Você não os vê pagando contas, colocando os filhos na escola, comprando imóveis, carros, passagens de metro, ingressos de cinema. Você não acha nenhum fazendo compras, varrendo a rua ou cortando o cabelo. Eles simplesmente fecham as lojas e desaparecem. Até onde sei, eles podem muito bem fazer uso de algum tipo de magia no fim do dia, abrindo um portal tridimensional para a China! Vai ver eles dormem por lá. Vivem por lá, e de manhã voltam para o Brasil, pra ganhar o nosso dinheiro com seus lanches de origens duvidosas!

Fui obrigado a gargalhar.

Portal? Porra, Greg. Um portal?

Sim! Vai por mim.

Tridimensional?

Tô dizendo…

Terminei minha cerveja. Comecei a refletir sobre essa atração que tenho por amizades malucas e sem sentido. Além de bandido, Greg era um conspiracionista barato. Não iguais a esses que encontramos online. O caso dele era pior, grave. Vivia numa paranoia desde os anos 80. Seus papos iam de alienígenas, passando por sociedades secretas e escutas telefônicas, até dimensões paralelas e deuses astronautas. A internet em 2004 era um lixo e não tínhamos computadores. Contudo Greg também não manjava de micros, tudo que ele aprendeu foi lendo revistas duvidosas e assistindo programas doentios nos canais fechados.

3

Ok, Greg. Onde você quer chegar? Conte seu plano, estou curioso – Eu não tinha nada a perder. Ele se animou com a minha disposição.

Então, meu plano é o seguinte: podemos nos esconder atrás dos trailers lá da praça. Esperar os chinas fecharem tudo e segui-los sabe se lá até onde. Se estiverem realmente fazendo negócios, com certeza é ilegal. Então esperamos eles colocarem a grana pra fora, damos uma carteirada e levamos tudo.

Uma o quê?

Carteirada, caralho. Lembra da minha identidade falsa de membro da CIA? Então, tá aqui comigo, camarada. Não dou bobeira – Ele tirou do bolso uma carteira com distintivo, velha e manchada.

É isso? – Perguntei.

– É! Te falei, pô. O negócio é quente! Grana fácil.

Quê? Como? Greg, se quer me foder me beija, cara. Você tá maluco? Já te falei que eles são apenas chineses, não são idiotas. Você não vai tomar 30 mil dos caras na marra, com um carteira de brinquedo… Nem temos caras de policiais. Somos bandidos velhos, fodidos e bêbados. Há bilhões como nós no oriente, eles reconhecerão.

Mas Jonas…

E outra: tu quer por a mão no dinheiro com uma carteira falsa de uma agência americana? seu babaca!

Mas…

“Mas” é o meu ovo esquerdo! Sai da porra da minha casa, cara! Tô perdendo meu tempo. Tô perdendo o primeiro tempo. O Flamengo tá voando!

Espera. Jonas, calma brother. Tô te falando: vai funcionar. Repito: eles são estrangeiros fazendo negócios ilegais em pleno solo nacional. Ficarão cagados de medo. A maioria não sabe uma vírgula do português. Tudo que eles sabem dizer é “carne”, “flango” e “mostarda”. Olha… Vamos fazer assim. Só me siga, já é? Me dê cobertura. Coloque aqueles seus óculos escuros e fique a um passo de distância. Se não der certo, corra e vá embora. Eu fico lá e me viro, NÃO ESPERE POR MIM! Volte pra cá e segure as pontas até amanhã. Quando eu chegar, a gente reparte a grana. Se tudo correr numa boa, eu te dou 15%. Promessa!

Óculos escuros? De noite? Você realmente assistiu muitos filmes do Jack Chan. E outra, só 15%? Quer que eu deixe minha casa, meu Flamengo, por menos da metade da grana? Esquece!

Ok. Te dou 20%. Não se esqueça que a ideia é minha e que estarei me arriscando muito mostrando uma carteira com a minha foto.

Vá se foder, Gregório. Você tinha 18 anos nessa foto. Hoje tu tem 52. Deveria ter vergonha na cara. Não saio por menos que 50%, é minha deixa final.

45%.

50%!

48%.

50%.

35%.

O que diabos você tem? Não sabe ouvir?

Ok. Fechamos por 49%.

Pare de bancar o matemático, você nem saberia me dizer quanto dá 49% de 30 mil.

É. Você tá certo. Mas sei que 50% é 15 mil. Então beleza. Fechamos por 50%.

Show, caralho. Bora fazer acontecer.

Então vamos lá. Esse horário eles já estão fechando a pastelaria. Ah, mais uma coisa: se incomodaria de usar aquele seu velho 38 na cintura? É só pra dar um charme.

Charme?

É! Tipo, só pra dá aquele chã. “Pá, sou um puta agente secreto e tal”, há-há-há. E também, pra caso a coisa fique feia. Se ficar, você puxa a arma e aponta pro mais novo, ou pro mais velho do bando, tanto faz. Já deve ajudar.

Tá… Fechado.

Fui até a gaveta do quarto e peguei minha .38 enferrujada e sem balas. Herança do meu pai. Depois andei até o banheiro, joguei uma água no rosto e coloquei um boné. Peguei o óculos escuros e pus no bolso. “O que um vagabundo não faz por dinheiro fácil”, pensei. Voltei pra sala e decidi deixar a TV ligada. Dessa vez, queria que pensassem que estivesse em casa. Se tudo desse em merda, faria dos vizinhos arrombados e fofoqueiros, meus primeiros álibis.

Partiu? – Perguntou Gregório.

Partiu! – disse.

4

Era uma noite gelada e tranquila. Entramos no Escort quadrado de Greg e ele deu partida. As ruas estavam vazias. Todos estavam em casa acompanhando a final. Todos menos nós dois, os golpistas do ano em mais uma empreitada. Bandidões do pedaço, velhotes sem vergonha na cara. Eu e Greg já nos metemos em confusões piores. A única diferença entre nós dois é que ele deu a sorte de nunca ter pego uma cana longa. Se já tivesse sentido o gostinho dos presídios, não levaria a ideia estúpida de roubar emigrantes acostumados a lidar com perigos bem maiores do que ele e sua carteirinha falsa. Quem era Gregório, os traficantes cariocas, a polícia ou o exercício brasileiro, perto do comunismo chinês, por exemplo? Comparados a esse monstro, todos comem poeira.

Seguimos pela estrada principal do bairro até a praça. Greg estacionou atrás de uma amendoeira. Deixamos o carro, caminhamos na espreita e paramos atrás do trailer de batatas fritas. Um dos chineses fechava a pastelaria 300 metros a frente. A porta da loja estava semiaberta e ele fumava na calçada. Um casal saiu da loja. Ambos orientais, o cara que costumava ficar no caixa e a garota do forno. O primeiro carregava uma bolsa de couro na mão, ela acompanhava. O fumante parecia ser o líder, gerente, ou proprietário. Ele terminou seu cigarro terminou de trancar tudo assim que os outros dois saíram.

Tá vendo a pasta na mão do mais baixinho? – apontou Greg.

O anão? Sim.

Provavelmente é a grana que ele tá carregando. Vem! Vamos segui-los!

Andamos agachados por trás de alguns arbustos. Os chineses dobraram dois quarteirões e pararam ao lado de uma padaria, frente a um pequeno portão cinza. Havia uma casa em cima da padaria. O portão deveria ser o acesso dela. As janelas da casa estavam completamente fechadas e escondidas com papelão. Como a altura também não ajudava, era impossível saber o que rolava lá dentro.

O chinês baixinho bateu no portão. Alguém atendeu e deixou os três entrarem. O cara que vigiava o portão também era chinês. Após a entrada do trio, ele olhou para os dois lados da rua, depois voltou e trancou tudo de novo.

Nós estávamos escondidos atrás de uma Kombi. Gregório anotava algumas coisas.

Tem alguma ideia do que rola lá em cima? – Perguntei a ele.

Não. Deve ser algum tipo de casa de apostas.

Apostas?

É, brother. Briga de galo, cachorro, peixe ou sei lá o quê. Chinês adora uma grana mole.

Saquei.

Beleza. Tive uma ideia, me segue – Disse Greg. Ele foi na frente.

Avançamos de fininho até o portão. A padaria já estava fechada. Greg pôs o dedo na boca em sinal de silêncio. Entendi o recado. Com a mão esquerda, ele tirou do bolso a identidade falsa da CIA e, com a direita, pegou um pequeno martelo, posteriormente, bateu no portão. Alguém sussurrou alguma coisa em mandarim do outro lado e abriu alguns centímetros do portão. Um sujeito assustado, com seus olhos puxados, espiou curioso pela fresta, observando Gregório de cima embaixo. Eu estava logo atrás, com meus óculos escuros, mastigando um chiclete e bancando o indiferente. Gregório mostrou o distintivo falso por dois segundos e disse ser da polícia. Quando o chinês abriu o restante do portão, ele bateu na cabeça do coitado em cheio com o martelo. O China desmaiou na hora.

Você é louco? Merda! Quer ferrar com tudo? – Gritei.

Cala a maldita boca. Não vim até aqui pra morrer na praia – Ele sussurrou.

Isso tá ficando mais sério do que imaginei – disse.

Lembre-se dos 15 mil – respondeu-me. Eu lembrei.

Em seguida, Greg entrou e fechou o portão. Deixamos o corpo do rapaz sentado no canto, felizmente ele estava apenas desmaiado, todavia sangrava bastante. Começamos a subir as escadas. Nos deslocamos na surdina até chegarmos no topo. Dobramos a esquerda e depois a direita. Alcançamos um terraço enorme. Gregório contou até três, correu e se escondeu atrás de uma bancada, demorei um pouco mais esperando a poeira abaixar e atravessei também para o mesmo esconderijo.

Levanta a cabeça e dá uma espiada no que tá rolando. Acho que o negócio é maior do que imaginávamos – disse Greg.

5

Levantei a cabeça para espiar e no momento em que vi o tamanho do cenário… travei. Minha bunda congelou. Havia um ringue no terraço, bandeiras, espadas, nunchakus, bastões, facões, sacos de pancadas, estrelas ninjas e bonecos de madeira, espalhados por todo o lugar. Os três chineses que seguimos estavam sentados num canto, junto a alguns outros, formando uma espécie de plateia. Dois lutadores se espancavam na arena. Assisti alguns golpes que nem sabia da existência. Um deles já ensanguentado, o outro tonteava, mas a sova rolava firme. A grana realmente existia e estava espalhada numa mesa. Dois chineses velhos contabilizavam muito mais que 30 mil e gerenciavam alguns papeis que pareciam representar apostas.

Vamos sumir daqui, Gregório. Fodeu pra gente. Vamos morrer nesse lugar….

Gregório não respondeu.

Greg, Greg, Greg! Greeg!!

Quando olhei para baixo, Gregório já não estava mais escondido do meu lado. Olhei para as escadas e não o vi. Fiquei pensando onde diabos ele poderia ter se metido, de repente ouvi a voz do meu parceiro idiota ecoar por todos os cantos do lugar. Ele agiu por impulso. Era o nosso fim:

PAROU, PAROU, PAROU TUDO SEUS JAPAS FODIDOS! A CASA CAIU, A CASA CAIU GERAL. AQUI É A POLICIA, QUER DIZER, EU SOU A POLÍCIA! MEU NOME É JACK, JACK… É… TAILOR, JACK TAILOR, YEAH, ESSE É A PORRA DO MEU NOME. E EU TENHO UM MANDADO DE BUSCA BEM AQUI. NÃO TÔ SOZINHO NÃO HEIN! VIM COM MEU PARCEIRO PERALTA. CERTO PERTALTA? CERTO? PERALTA?! CADE VOCÊ? AVANÇA AQUI.

Aí eu levantei com a cara mais vermelha do que pimentão. Sai lentamente de trás da bancada e dei cobertura a Gregório. Graças a Deus os óculos estavam no meu rosto, do contrário qualquer um perceberia o terror estampado nos meus olhos.

CERTO PORRA, VOCÊS OUVIRAM O JACK, SENHORES. TODO MUNDO AQUI VAI EM CANA SE NÃO COOPERAR, ESTAMOS ENTENDIDOS? – Completei.

Gregório virou pra mim, piscou o olho. Tornou a encarar o povo e prosseguiu;

Beleza galera. Não sei se o Itamaraty ocultou essa informação, mas apostas são proibidas e todo território luso-brasileiro ocidental, morô? Então, meus amiguinhos amarelos, serei obrigado a recolher toda essa grana e algemar o responsável do local. Você ai; velhote do coque bacana – ele apontou o dedo para um dos idosos – ponha a porra do dinheiro na bolsa. É uma ordem!

O idoso começou a colocar o maior número possível de notas na bolsa de couro. Greg ainda falava.

Show de milhão, galerinha. Agora quero que vocês se organizem aqui na frente em fila indiana. Ok? Geral, geral. Sem reclamar. Sabem o que é uma fila indiana? Seus filhos da puta, comedores de pombo. Bora logo!

Cara, precisamos ser rápidos nisso. Somos minoria aqui, não humilhe os caras – cochichei com ele.

Fica suave brother. Eles sabem que estão errados. Sabem que não podem fazer esse tipo de coisa sem temer a nossa amada e funcional justiça. É por isso que estão assustados, é por isso que estão nos obedecendo. Vá até a mesa, pega a bolsa com a grana e me espere lá em baixo, eu vou descer em segundos.

Tirei minha .38 da cintura e apontei ao pessoal. Eles começaram a caminhar para o outro lado da sala. Alguns deles murmuravam inconformados, mas não entendíamos o que eles estavam planejando. Fui até a mesa e peguei a bolsa de couro. Todos os chineses ficaram encostados no canto do terraço, frente a um espelho enorme que ia de fora a fora. Todos, com exceção dos lutadores que continuavam no ringue. Um deles parecia ter desmaiado o outro estava sentado presenciando tudo. Um dos idosos ficou nervoso e caminhou em direção a Gregório para confronta-lo. Ele desobedeceu as ordens diretas e o bate-boca começou.

Eu querer ver mandado. Mostlar mandado a eu. Tu não levar dinheiro daqui – Dizia o ancião.

Cala a boca, seu velho safado. Volta pra lá – respondia Greg.

O embate continuava. Pus a bolsa nas costas e apontei a arma pro coroa.

Eu não ter medo de vocês. Mostlar mandado ou então ir embora. Deixar dinheiro aqui. Dinheiro nosso, honesto – ele insistia.

Tá pensando o que da vida, eremita? Sou polícia rapá. Tu quer ser deportado? – Greg ameaçava. Mas não adiantava muito.

Tô com a grana. Vamos! – chamei.

Ok, pega as chaves – Ele jogou as chaves do Escort. Peguei e andei pra trás em direção a escada, apontando a arma para todos eles.

Caminhamos de vagar até a escada, ao alcança-las, descemos os degraus correndo. Lá fora atravessei o portão e desci a rua no mesmo pique. Quando olhei pra trás, não vi Greg. O chinês que estava no portão havia se recuperado e os dois estavam trocando socos na calçada da padaria. Apontei o ferro e comecei a fazer ameaças, foi em vão. O chinês estava espancando Gregório, acertou-o com um chute giratório e depois aplicou um mata leão.

Vai na frente, COF COF. Caralhos! Vai na frente Jonas! Eu me viro aqui, eu me viro. Segue o planejado – Gritou Greg.

Droga! Droga! Ah!

Vai, vai logo, maldição! Eu me viro…

Decidi voltar para ajuda-lo, entretanto os demais chineses desceram as escadas. Alguns com facas e bastões nas mãos. O ancião que gritara com Greg liderava o bando, ele se aproximou dele e o colocou para beijar o chão com um mero tapa. Quando vi que Gregório estava nocauteado, sai em disparada. Corri por duas quadras, parei e tomei um fôlego. Ouvi um grito de desespero, era Greg. Depois, tudo voltou a ficar quieto. Quieto até demais.

Passei frente a um bar que estava lotado de flamenguistas assistindo ao jogo, o maldito do time estava perdendo a final para o Santo André em pleno Maracanã. Infiltrei-me me no meio deles e fiquei de olho na rua. Cinco chineses passaram lá fora com espadas nas mãos, mas seguiram direto. Esperei trinta minutos e deixei o carro de mão, decidi voltar a pé pra casa.

Assim que cheguei, a TV ainda estava ligada. Desliguei-a. Tudo ficou do jeito que deixei, não havia sinal de Greg. Pus a bolsa no sofá. Contei a grana. Tinha por volta de 65 mil reais em notas de 100 e 50 e mais uns 200 dólares extras. Caminhei até a cozinha, puxei uma faca e sentei atrás da porta. Desliguei todas as luzes e aguardei para ver se Gregório retornava até o amanhecer. Ele não retornou.

As 06hrs. Coloquei todas as minhas roupas numa mala e deixei a grana do aluguel sob a pia da cozinha. Catei o dinheiro e fugi da cidade. Nunca mais ouvi falar de Greg, contudo seis anos depois, enquanto caminhava numa rua do centro, vi uma cópia do distintivo falso da CIA que ele costumava usar. Estava a venda numa loja chinesa de bugigangas. Era possível colar a foto naquilo sair brincando de agente policial por aí. Tolice. Tratei aquilo como coincidência, como uma terrível nostalgia. E como forma de luto, nunca mais voltei a comer coxinha…

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