Dois amores

Da última vez que encontrei Yasmin, ela estava ilhada na calçada de uma das ruas do centro. A chuva tomou conta de tudo, a enxurrada cobriu todas as saídas. Ela parecia um pinguim; baixinha, com seus olhos puxados, pele branquinha e bochechas vermelhas. Uma japonesa raiz! Usava uma capa de chuva azul e estava praguejando e reclamando sem cessar. Eu parei meu carro ao lado e ofereci carona. Ela não me reconheceu, titubeou a princípio, mas quando abaixei o vidro e sorri, seu semblante mudou. Yasmin saltou o córrego formado no meio-fio e abriu a porta traseira do carro. Olhei-a pelo retrovisor interno, percebi sua cara de alívio, como se eu fosse um verdadeiro salvador da pátria, um herói, ou o melhor profissional do corpo de bombeiros.

Porra Sandrinho! Quanto tempo, querido.

– Não é? Hahaha.

– Perdão. Mas acho que vou molhar um pouco seu banco – Disse-me, meio sem graça.

Sem problemas, vamos sumir daqui antes que o dilúvio nos carregue de uma vez por todas – respondi.

Saímos dali. Ela começou a se ajeitar e a falar do quanto foi pega de surpresa pelo mau tempo. Eu apenas ouvia.

Você está indo pra casa? – Perguntou-me.

Hunhum – Positivei balançando a cabeça.

Por favor, me deixa na rodoviária, Sandro, de lá eu me viro. É caminho pra você, não? Se não for…

É caminho sim – Interrompi – Pode deixar, te deixo lá. – Completei.

Ela ficou em silêncio e fez uma cara esquisita, depois concluiu;

– Obrigada.

Deduzi que o silêncio fora de estranheza. Ela notou minha falta de empatia. Houve época em que eu faria questão de deixa-la na porta de casa, se possível, deitada na cama. Só que naquele dia, decidi me fazer de difícil. Provavelmente não duraria muito, só que não custava tentar.

Quer que eu desligue o ar? – Perguntei.

Não, tô ótima. Droga! Acho que meu cabelo foi pro espaço – Ela ficou nervosa e tentou arrumar a franja pelo reflexo na janela do carro.

Rimos um pouco do banho que um motoqueiro desprotegido levou e isso melhorou o clima. Peguei a Avenida Rodrigues Alves em direção a rodoviária do Rio de Janeiro. No rádio a principal notícia do dia se repetia: as principais vias da cidade estavam alagadas, transito intenso por todos os lados. “Tá tudo parado, Galera! Mas vejam o lado bom! É véspera de ano novo, senhores! Recomendo que encontrem um bar e fiquem tomando algumas até mais tarde. Beleza? Não se desesperem, não façam besteira justamente agora que falta pouco pra virada. Sintonizem aqui no Tio Canário, segue uma breve listinha dos melhores bares da cidade que estão bombando nesse exato momento…“, dizia o radialista. Yasmin também estava de ouvidos atentos a notícia.

Cara, se essa chuva continuar… Lá se vão meus planos, queria aprontar tanto nessa viagem.

Eu olhei rapidamente para trás;

Vai novamente para a casa dos seus pais? – Indaguei.

Sim, vou sim.

Eles ainda moram no interior?

Hanham.

Itaperuna né?

Isso aí. Você ainda lembra?

É claro que eu lembro. Inesquecível, hehe.

Nossa Sandro… Como meu pai odiava você.

Gargalhamos.

Mas pô, cadê suas bagagens? – Perguntei.

O Pedro já levou. Ele foi de carro e está me esperando lá. Só fiquei no Rio porque precisavam de mim no trabalho, senão já teria partido ontem mesmo.

Entendi. Agora… Quem? Pedro? É aquele cara que quase te bateu quando você provou camarão?

É. E ele não me bateu, isso é um exagero. Ele só ficou chateado. Ele leva as causas que defende muito a sério.

Claro. Sei, sei.

Pedro era o atual namorado dela. Um paulista metido, que só vive na academia e se acha moralmente superior por gostar de meditação, ervas, coisas alucinógenas, caminhadas noturnas, legumes e talvez, fotossíntese, se assim pudesse. Tinha um sotaque puxado, odiava carnívoros e chamava a própria namorada de “mano”, dependendo da ocasião. Apesar de bancar o evoluído, era um hipócrita, ciumento pra cacete, entretanto tinha uma boa grana e um corpo de ator. Talvez compensasse o stress que ele causava a ela, sei lá.

Eu fiquei calado, Yasmin começou a mexer no celular. Xingou alguém com quem conversava e, em seguida, me apontou o visor do smartphone;

Sandrinho! Olha só isso – mostrou-me o celular. Era uma mensagem do seu motorista. – Viu só? Porra! Só você mesmo pra me salvar, o Uber que chamei cancelou a viagem, acredita? Que filho da mãe! Se não fosse você eu ficaria ilhada na calçada da Rio Branco por horas!

Meia cidade está submersa, Nenê. Perdoe o cara, deve ter dado alguma merda pra ele no caminho até lá. Fica tranquila, chegaremos em 10 minutos.

Apesar de não curtir meus conselhos, ela realmente relaxou… Ofereceu-me uma bala, aceitei. Mantivemos uma boa conversa. Ai uma ambulância precisou cortar o trânsito e agarramos numa leve retenção. Ficamos ali, Yasmin bocejou, prendeu o cabelo, apoiou-se no banco do carona e me cutucou.

Novamente: muito obrigada. Não mereço um amigo como você – Ela disse, com um sorriso indescritível.

Ual – Respondi.

O que foi?

Não! Não é nada…

Ouvi aquilo, mastiguei e engoli. Essa história de bom amigo me distraiu, confesso. Trouxe lembranças que havia incinerado. A ambulância passou, todavia o sinal ficou vermelho, freei o carro de modo um tanto brusco. Ela segurou com força no banco, pude sentir suas unhas rasgando um pouco do estofado. Ofeguei, fiquei sem graça, mas notei que um vendedor de doces atravessou correndo entre os carros, no exato momento em que brequei. Era a desculpa que precisava. Culpei o sujeito e disfarcei meu devaneio;

Foi mal pelo freada, cara. Tá tudo bem? Você se machucou? Viu só? O maluco passou bem na minha frente… do nada! Não deu pra evitar.

Tranquilo, eu tô bem. Não foi nada. Esses caras são fodas, perambulam muito por aqui.

Aguardamos o sinal abrir, um minuto se passou numa mudez gritante. Eu tinha muito pra falar, porém todos os meus pensamentos estavam amarrados e escondidos por trás da máscara, da justificativa, da promessa que dei a ela dois anos antes: “prometo deixar o passado no passado, nunca mais voltarei a me declarar pra você Yasmin“, jurei entre gaguejos e suspiros na noite em que ela terminou comigo. Fazia calor na época, uma noite de lua cheia. Ela estava mais magra e ainda era loira. Só o que há de comum entre a ex-namorada de ontem e a amiga molhada de hoje é a frieza. Ela brinca, ela zomba, ela caçoa, mas no fundo continuava indiferente aos próprios sentimentos e aos dos demais. Não sei o que a tornou assim, tudo que sei é que não há volta.

Naquela noite desgraçada, depois que ela pôs o ponto final, eu peguei minha mochila, juntei todas as minhas coisas e sai de seu apartamento, em Jacarepaguá – vivemos três meses juntos nele. Anteriormente outros seis de namoro, além de mais cinco flertando, trocando ideias, fotos, conversas, desejos. Agora ela divide o apê com o paulistinha, justamente ele! Com seu aquário, seus rabanetes, seus tediosos filmes russos, suas tranças, tatuagens, livros comunistas e sua bandeira do Corinthians.

Passou dois anos e o acaso a colocou dentro do meu carro. Grudada em mim, como amiga e só como amiga. Financeiramente bem, plena e decidida, com um ar de quem já havia superado e esquecido tudo que dividimos. É o que as pessoas normais fazem né? Superam, enterram sentimentos, fatos, histórias e fotos do Instagram. Pra ela foi fácil, rápido, pra mim? Bem… Nem tanto. Contudo imaginei que não bancar o “cara que virou a página” seria sinal de fraqueza emocional, de coitadismo e dependência. Isso é humilhante, mexe com o ego masculino e não faz muito o meu tipo, então simulei uma superação, uma nova fase. Ela acreditou, infelizmente acreditou.

O sinal ficou verde, segui a avenida. Faltavam poucos metros até a rodoviária.

O que você disse mesmo? – Perguntei. Ela estava digitando no celular, parou e me encarou.

Oi?

O que você disse?

Eu não disse nada.

Você acabou de falar ali na esquina, ainda a pouco… Que não merecia um amigo “como eu”… É isso?

Hunhum. Sim. Disse sim. E não mereço mesmo.

Você ainda atua no setor de vendas lá da JuriCréditos?

Sim. Sou chefe de setor agora… Mas por quê?

Queria te fazer uma pergunta…

Ela não respondeu de imediato, voltou a dar atenção ao celular. Depois, olhou para a rua e ajeitou a capa de chuva que havia colocado no chão do carro, pois precisaria sair e encarar o temporal dentro de instantes. Fingiu que perdera o cerne da conversa, quiçá o perdera mesmo. Porém, quando percebeu que não desconversei, voltou atrás e deu continuidade no assunto.

Oh, desculpa. Você estava dizendo? Bom, por mim tudo bem, pode perguntar.

Ok –Ajustei o retrovisor, olhei no fundo dos olhos dela e comecei – Suponhamos que você consiga fechar um baita contrato com uma empresa gigantesca, com filiais por diversos estados do Brasil. A empresa possui um diretor de negócios aberto a conversas, que não dificulta as tratativas e aceita numa boa sua pauta de assessoria e cobrança jurídica, topando pagar o valor exato de cada serviço combinado, sem pensar duas vezes, sem pechinchar e avacalhar os trâmites.

Eita. Quem dera fosse tão simples – ela debochou.

Não foi simples, mas com o tempo e com muita dedicação profissional, você alcançou esse nível. Um contrato que elevaria não só a moral da JuriCréditos, como também a sua, claro.

Beleza… Consigo imaginar isso. Continue.

Pois bem, agora imagine que esse contrato dure anos, com diversos serviços prestados as filiais da empresa. Uma relação bacana, duradoura, que agrada os dois lados e ninguém sai perdendo.

Show. Onde você quer chegar?

Bom… Se um dia aparecesse outra empresa de outro estado, concorrente desta que é sua cliente, exigindo mais que ele, pagando menos que ele, e afirmando que só assinará contigo sob uma condição: que você cancele o contrato com a multi-regional que citei anteriormente, que já está fidelizada. A pergunta é: você aceitaria?

É claro que não, cacete. Seria um absurdo.

Pois é. Concordo contigo – Logo após, parei o carro no acostamento – Então… É isso ai. Chegamos! Boa viagem! – encerrei.

Ela aparentou não ter entendido muito bem. Manteve o semblante pensativo por segundos, mas não me respondeu. Em seguida, abriu a porta do carro e pôs um pé pra fora. Ainda calada, refletiu mais um pouco e entrou novamente no carro. Bateu a porta com força.

O que você quis dizer com tudo isso? – Questionou-me.

Eu liguei o pisca-alerta e tirei as mãos do volante, virei-me e respondi;

Você sabe o que eu quis dizer.

Ah, sei?

Sabe. Acabei de fazer uma analogia a nossa história…

Nossa história? Não temos uma história, Sandro. Não mais.

Claro que temos. Algumas coisas mudaram, mas ela continua sendo a nossa história.

Não! Não mesmo. Não começa cara, por favor – Ela me interrompeu.

Calma, me deixa terminar de falar…

Sandro, acorda! Passou dois anos. Dois malditos anos! Por que você não esquece o que vivemos? Poxa, me esforço pra levar tudo numa boa, me esforço para construir uma amizade contigo, só que você sempre volta a tocar nesse assunto. Diabos, para com isso.

Não respondi. Abri a bala que ela me deu e fiquei encarando em silêncio. Ela perguntou de novo:

Portanto, Dr. Historinhas, por que você insiste? Diz!

Porque eu ainda te amo, oras. Não importa o tempo que passou, Yasmin. Eu sou completamente apaixonado por você.

Sandro…

Por favor, me escute! Juro que serei breve. Veja, estou certo de que existem dois tipos de amores no mundo: o primeiro você aprende a esquecer, o segundo você finge que esquece. Finge porque ele não vai embora, não tem como ir embora. Se ele pudesse partir, não tenha dúvidas de que um pedaço da minha alma sairia com ele, pois toda personalidade que constitui o indivíduo que hoje sou, bem ou mal, possui esse maldito amor que sinto por você como um de seus principais fundamentos. Não posso destruir esse amor, apenas acorrenta-lo aqui dentro. Foi o que fiz, faço e continuarei fazendo. Eu nunca te esqueci, bochecha. Nunca irei. E só me senti livre quando decidi conviver com esse fato. Não estou te pedindo pra voltar, não estou correndo atrás de você. Só queria que você soubesse o que eu sinto e o porquê que essa história de “bons amigos” não funcionará nunca. Eu só… Eu só… Caralho! Eu só gostaria de saber se você sentiu o mesmo por mim, ao menos na época. Por favor, seja sincera e me responde. Porque se o meu sentimento nunca foi correspondido, então nada do que sinto faz sentido. E se não faz, então estou completamente perdido, trocando os pés pelas mãos, vivendo de aparências. E ai eu poderei dizer que a nossa história se enquadrou no primeiro tipo de amor que citei; o amor esquecível. Sendo só uma questão de tempo até conseguir superar tudo isso… Bem, espero que não demore muito.

Quando terminei de falar, ela coçou os olhos, guardou o celular e pôs a capa de chuva.

Pode me fazer um favor?

Faço dois – Respondi. E tentei segurar na mão dela, ela ignorou.

Não me chame mais de Bochecha, ok? Seu desgraçado…

Tudo bem Yasmin.

Bom, Sandro, veja… Desculpa, cara. Eu não sei o que te dizer. Não esperava por isso. Juro que havia me esquecido desse seu lado; dessas suas filosofias de bêbado. Acho que não sei responder sua pergunta, acho também que não é o melhor horário para isso.

Eu continuaria argumentando, porém um guarda bateu no meu vidro. Abaixei.

Boa tarde senhor. É proibido estacionar aqui. É ponto dos taxistas, preciso que se retire. Vai demorar muito?

Eita! foi mal amigão. Eu vim deixa-la, assim que ela descer eu meto o pé, valeu?

Ok, mas seja rápido.

Obrigado! – Fechei novamente a janela. As gotas molharam meu óculos.

Preciso ir – ela disse.

Chiei baixinho. Não insisti.

Tudo bem querida, boa viagem.

Adeus, Sandro.

Adeus Yasmin.

Ela desceu do carro. Eu sai da vaga, dobrei a esquerda e voltei para a pista. Parei três metros depois, novamente, no sinal vermelho. Troquei a estação do rádio e aproveitei para limpar meus óculos. Algumas pessoas passavam pela faixa de pedestres. Quando faltavam dez segundos, alguém abriu a porta do carona. Olhei assustado e quando a vi, gelei.

– Ué. Não tô entendendo! – Gritei.

Yasmin entrou, sentou e sorriu. Sua capa de chuva molhou o banco inteiro. Ela acendeu um cigarro e começou a falar;

Um dos bares que o cara da rádio recomendou não fica muito longe daqui, é ali na Estácio. Gosto de lá. Que se foda, eu já estou muito atrasada mesmo. Podemos tomar alguma coisa e conversar um pouco até a chuva passar, quer dizer, se você não se incomodar de me deixar na rodoviária depois, claro. O que você acha?

Só se for agora – Topei.

Ela tragou o cigarro.

Estava com saudades!

Ela ouviu, baforou e não disse nada.

Eu não esperava por aquilo, o ônibus atrás buzinou e acordei do transe. Voltei a acelerar. Começou a tocar “I know you” do The White Buffalo. Ela aumentou o volume e soltou o cabelo. Foi uma corrida silenciosa e, de certo modo, feliz.

Gostaria de dizer que consegui convence-la a não viajar. Gostaria de dizer que reatamos e que tudo foi um mar de rosas dali por diante. Todavia não reatamos e ela pegou seu ônibus três horas depois. Nunca mais a vi.

Como no mundo dos negócios, relacionamentos também são feitos de escolhas. E vez ou outra fazemos escolhas babacas, dizemos coisas babacas. Oito meses depois, um amigo em comum me contou que ela havia terminado o namoro com Pedro porque foi pega pela terceira vez comendo peixe. Admito que fofoquei a história para todos que pude e zombei demais da situação. Contudo dentro de mim aquele velho amor continuava atado, jamais se fora. Minha teoria se mantinha de pé. Ainda seria preciso viver sabendo que a amava. Tinha medo que fosse eterno. Sou inquieto até hoje…

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3 comentários em “Dois amores

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  1. Eu amo a vida dos seus textos, os detalhes deliciosos! “ Foi uma corrida silenciosa e, de certo modo, feliz.“! Maravilhoso! O que seria de nós sem esses amores? Sem essas personagens? ❤️

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