Semanalmente

Novamente ele perde o ônibus. Outro deslize de tipo e logo ficará desempregado. Ele não se importa, embora devesse se importar. Ele não está nem ai, embora precise estar. Há anos se sente perdido, ressentido, deslocado, atrapalhado. Pela quinta vez, arrisca tirar a pele do machucado, porém a ferida volta a sangrar, ela sempre volta a sangrar. Não secou, não está pronta ainda. Ele pira! Xinga! E saliva a marca feia no braço. Insiste na cura que não chega. Berra contra o tempo que não passa.

Nos fins de semana ele namora uma garota sem graça, só porque a mulher que ama já está feliz com um namorado que também é sem graça. Por vezes se encontra sozinho, apático, traçando algum novo plano de sucesso, de mudança, até cair em si, até cair no sono. Tenta empurrar as manhãs com a barriga, as tardes com o cérebro, a noite com o coração. Só que o café, o almoço, o lanche, o docinho e a janta, somados e sozinhos, não vencem seu enorme tédio, seu infindável vazio que invade, que consome, deixando tão somente rastros de preguiça, covardia e desânimo. Sem denodo pra seguir em frente, pra virar a página.

Ele sabe disso, ele já leu sobre isso, conhece exemplos disso. Contudo ignora, fecha os olhos e põe seu fone, ouve suas músicas e esquece, tenta esquecer. Prepara seu café, compra um novo livro, organiza o quarto, assiste um vídeo pornográfico. As angustias entranhadas até o seu último fio de cabelo, ele releva. Impossível não relevar, a rotina aperta, o chefe grita, o boleto chega, o gato mia – mia de fome. Ele precisa elaborar um novo relatório, precisa aprender a cortar frango, precisa se exercitar, precisa comprar mais talco, precisa trocar a lâmpada da varanda, precisa de um novo jeans. O país está em crise, a irmã está com os dentes ruins, a mãe sem uma máquina de lavar, seu óculos está quebrado, seu sapato está gasto.

Certa feita alguém o lembrou do título de eleitor. Ele procurou e procurou, revirou tudo e não achou. No embolo avistou, sem querer, uma carta não acabada. Não era para a Sem Graça, era para a amada. Letras, máximas, desenhos e canções… daquelas capazes de levantar o tapete e fazer com que toda sujeira acumulada invada sala, o quarto, a casa, a rua, seu mundo inteiro. Ele é bom na arte de escrever, ele sabe de cor o que precisa fazer, o que precisa dizer. Entretanto mente que não tem em mente o propósito de recomeçar. Ele acha que desistiu, nunca desistiu! Sorri com as comissões, com churrasco de feriado, com o novo circo, com a pipoca de parque, com o sexo da Sem Graça, com os memes, com o novo videogame anunciado. Ele se pinta com as atualidades, com os problemas do agora. Mas quando as memórias chegam, apertam, cutucam, ele geme e chora.

Na última sexta, uma amiga o convidou para ir à igreja. Ele vai? Não se sabe. Ele disse que vai. Ele já falou que iria em muitas coisas. O mais provável é que decida sair pra beber. A cerveja, o tira-gosto, o futebol, o parceiro chato de trabalho, os palavrões contra o chefe… São como morfina. Alivia? Ah, se alivia! Ele fica bêbado, ele perde as chaves, ele pega o ônibus errado. Ele flerta, ele leva um fora. Ele termina com a Sem Graça, ele volta com a Sem Graça. Ele interage com desconhecidos, ele retoma seu caminho, ele ora, ele se ajusta, ele recupera as chaves e chega em casa. Toma banho, toma vergonha, alimenta o gato, beija a irmã, mente para a mãe e deita na cama. A cabeça gira, o destino também. Os fatos vêm, as lembranças se vão. O estômago aperta, bate uma vontade de vomitar. Sua alma dói, seu braço também dói, mas no último caso, felizmente, é só o machucado que ainda insiste em sangrar. E sangrando o tempo passa.

Lá se vai outra estação e ele continua empurrando, omitindo, dissimulando e ludibriando. Vive assim… semanalmente.

9 comentários em “Semanalmente

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  1. Ótimo texto ! Pareceu-me que o personagem tem um transtorno de personalidade chamado de masoquismo , isto é, gosta de sofrer e nada faz para mudar seu comportamento e modo de vida , mesmo tendo consciência de que não está agindo corretamente.

    Curtido por 1 pessoa

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