A vida como ela é

Erick acordou as 6hrs, sentou, coçou a perna e caminhou até o banheiro para lavar o rosto. Enquanto dedilhava a face, achou uma espinha na testa. Tentou espreme-la, entretanto a situação piorou. “Merda! Logo hoje? Ninguém merece”. Sua reclamação tinha fundamento: Erick estava para apresentar, dentro de poucas horas, seu projeto final. O software que desenvolveu durante os últimos seis meses no curso de Ciências da Computação. Desceu até o primeiro andar da sua casa, sentou na mesa e tomou o café da manhã. Despediu-se da mãe, catou a mochila, o pen drive e saiu de casa em direção a faculdade. Precisava chegar lá até às 10hrs.

Erick tem 24 anos. É nascido e criado no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. Como cidadão de classe média, teve sua vida dividida entre escolas públicas e privadas, mas sempre se destacou em todas que estudou. Venceu campeonatos de matemática locais e nacionais. Aos 13 anos, desenvolveu um simples maquinário capaz de armazenar cinco quilos de comida. O aparelho era controlável via bluetooth e, uma vez programado o horário, de tempos em tempos, liberava uma porção de ração para cães. A ideia era deixar a máquina do lado de fora das lojas de rações para que os cães de rua pudessem se alimentar. O negócio deu certo! Muita gente gostou da ideia e seu projeto foi aclamado. Seu arranjo inovador, ajudou-o a se formar no curso técnico de programação. Entrou na faculdade aos 18 anos. Mas já estudava e estagiava na área desde os 16. Trabalhou em cinco empresas, como estagiário, programador e web designer. Participou de grandes projetos. Mesmo sendo novo, tinha seu sobrenome no rodapé de alguns bons sites espalhados por aí. Era um rapaz de bom caráter e de um futuro promissor.

Michael acordou no mesmo horário, na comunidade do Jacaré, no Rio de Janeiro. Michael também tem 24 anos de idade e o ensino fundamental incompleto. Entrou na boca de fumo aos 12 anos, avançou no tráfico, ganhou status e hoje é um soldado temido. Michael é conhecido na comunidade como Catatau. Catatau possui um grande amigo, o ruivo. Ironicamente Catatau não é moreno e sim branco, do mesmo modo que seu amigo ruivo é indígena. Foi ruivo que acordou Catatau. Estava terminando seu turno e o amigo precisava substituí-lo. Catatau acordou, pegou o fuzil da mão do amigo, abriu a geladeira e virou o resto de uma garrafa de vodca num gole só. Despediu-se e seguiu para a laje donde vigiava a boca de fumo alguns metros à frente.

As 9hrs Erick ficou preso no engarrafamento. Precisava chegar rapidamente até a faculdade localizada na ilha do fundão. A apresentação estava marcada para as 10hrs. Todos os seus amigos já estavam lá. A banca estava formada, outros grupos já estavam apresentando projetos finais. Erick ficou desesperado, desceu do ônibus e procurou um táxi para ver se conseguia um atalho até a linha amarela. As 9hrs, Michael foi convocado pelo Carlão, dono da boca. Carlão pegou o fuzil das mãos de Catatau e lhe deu uma mochila. A ideia era levar um carregamento de celulares até outra comunidade da Zona Norte. Os celulares serviam para a comunicação do tráfico. Seus chips continham os números de alguns dos líderes da facção que estão presos. Era uma missão difícil, a polícia poderia estar na cola, mas Catatau não negava nenhum desafio. Ele era o melhor soldado pra ocasião.

As 9:45min Erick chegou em Vicente de Carvalho. Estava próximo ao BRT. Era um pulo dali para a faculdade. Estava nervoso, vermelho e suava como um maratonista. Já havia telefonado para alguns amigos clamando para que segurassem a apresentação. Correu para atravessar a rua e entrar no BRT, mas o sinal abriu e os carros não perdoaram. Como não tinha o costume de brincar de suicida, resolveu esperar. Às 9:46min Catatau apareceu do outro lado da rua. No mesmo sinal, também aguardando a abertura. O carro da PM estava a um quarteirão de distância. O sinal pela rádio era bem específico: “O suspeito deixou a favela para buscar o pacote, tem por volta de 1,80 é magro, branco, usa jeans e uma mochila preta”. A estática ocultou as demais informações. O carro ligou a sirene e saiu cortando o trânsito.

O sinal fechou. Erick e Catatau atravessaram ao mesmo tempo. Ambos eram garotos brancos, ambos usavam jeans e mochila preta. Na estrutura dessa trágica eventualidade, a única diferença na comparação entre os dois rapazes estava na pressa de Erick que, devido ao seu desespero para chegar a faculdade, atravessou a faixa de pedestres correndo e não percebeu a sirene, nem a ordem de parada da polícia. Catatau notou que foi confundido e manteve a calma até chegar do outro lado da rua. Quando Erick entrou na estação, olhou para trás com um semblante abafado e desesperado. O sol estava quente, torrava a paciência de um soldado inexperiente que decidiu disparar e alojar uma bala na perna do rapaz. Catatau assistiu à cena de outra esquina, apertou a alça da mochila e correu. O tiro provavelmente acertou alguma veia importante de Erick, pois ele sangrava muito mais que o normal e gritava bastante. Tanto o policial quanto seu parceiro se aproximaram com toda calma do mundo. Afastou os curiosos e pegou a mochila. Não acharam armas, nem drogas, nem os celulares. Apenas anotações, um lanche e uma monografia impressa. Logo que perceberam o erro, a calmaria inicial desapareceu e decidiram chamar uma ambulância. Mas até a chegada dos paramédicos, o garoto já havia perdido seu sangue, sua apresentação e naquele dia, mais tarde, perdeu também sua vida. Naquela noite, as ordens que chegaram pelos celulares foram claras: o bonde precisava auxiliar numa guerra pela disputa da favela da maré. Catatau foi lutar pela facção, levou dois tiros na perna, matou outros cinco bandidos inimigos e, mesmo saindo ferido da troca de tiros, não morreu.

Por alguma razão a vida abandona uns com facilidade e outros não. Essa história possui dezenas de interpretações que dependem do senso crítico, da ideologia, da ética e da cultura de cada leitor. Para alguns tudo não passou de um jogo de sorte e azar, para outros resta a sensação de injustiça. Há quem culpe a Deus, o diabo, os orixás. Há quem entenda que as pessoas boas desse mundo nos deixam com uma facilidade absurda, enquanto as ruins permanecem sem prazo de validade. E há quem diga que toda vida deve ser respeitada, independente da sua inclinação moral. Que os bons tiveram uma boa criação e os maus não foram tão bem abraçados. A verdade é que os signos, o mundo, o destino, o universo, os deuses ou seja lá qual for a ordem que gerencia o acaso, não está fundamentada nas nossos pontos de vistas, valores e conceitos. As coisas simplesmente acontecem e ponto, causando os mais diversos rebuliços na opinião pública e no coração da sociedade.

A vida continua sendo vã e se vai como as pétalas de uma flor, como já alertava Eclesiastes. A tristeza não brota com a morte, ela está conosco desde o nascimento, desde o primeiro choro. A humanidade inteira se resume a sobrevivência de homens como Catatau e na morte de homens como o Erick. Um dia a morte virá sem bater na porta. Não importa se você espreme ou não espinhas, se constrói sites, se ajuda os cães de rua. Se bebe muita ou pouca vodca, se costuma andar por ai de fuzil e fumar maconha. Se escolhe entre ônibus e taxis, se fica ou não preso no trânsito, se pensa ou não em projetos da faculdade. Não importa se você é suicida, se é branco, ruivo, indígena ou negro, se tem tempo pra tudo ou se só vive correndo, se nunca levou nenhum ou se já levou tiros e sobreviveu. Sendo a vida como ela é – uma série de eventos e incidentes cruzados fora do controle de qualquer um, só cabe a nós a aceitação desse cruel emaranhado de fatos ou se iludir nas conjecturas que surgem deles…

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9 comentários em “A vida como ela é

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  1. Entrei no modo introspectivo pleno depois de ler este belíssimo texto, não cabe a nós julgar, não somos juízes, a vida pode ser bela e pode ser dura, cabe a nós estarmos presentes sempre e aproveitar cada momento, como este que aproveitei lendo este post 🙂

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  2. Oi Leo! 💛 Como você está? Fui até o RJ com Erick e com Catatau agora pouco. O seu texto traz uma reflexão que tenho com frequência sobre o que merecemos e o que é “injustamente” atribuído a nós. Se nossas tragédias pessoais são justificaveis ou se elas simplesmente não precisam ser. A verdade é que são pensamentos que permanecerão sem resposta… talvez, um dia, alcancemos um nível de esclarecimento suficiente para entender esses paradoxos da vida. Parabéns pelo texto, aliás, por todos. Obrigada pela reflexão! Um beijo!

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    1. Eu que agradeço pelo seu comentário, querida. Obrigado pela força. Concordo contigo… há por todo planeta um leque de respostas para esses paradoxos, ou pessoas que se comprometem a respondê-los. A ideia é demonstrar que talvez, todas essas visões estão incorretas e as coisas funcionam de um modo que de fato não somos capazes de compreender. Muita das vezes é a impressão que tenho. Obrigado por comentar, te gosto muito baby 😉

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