Ladeira da saudade

*Para ler ouvindo “Boxes” – Goo Goo Dolls

Estava fazendo um café quando o telefone tocou. Aquela voz suave soou perguntando se eu estava bem – Victor se tornou meu melhor amigo em tão pouco tempo. Era ele me ligando e me convidando para tomar um café e comer bolo na padaria da esquina de casa. Aceitei o convite mesmo tendo terminado de aprontar o café – a padaria da esquina serve um café bem melhor que o meu, sem falar na delícia que é o bolo de milho.

Quando encontrei Victor algo nele transparecia uma dor. Uma dor não reveleda, algo que tirava dele aquele brilho espontâneo. Eu sentia que ele queria me contar algo, mas preferiu deixar pra lá.

Naquela tarde eu percebi o quanto ele era importante pra mim. Meu primeiro acampamento em um camping de verdade, tirolesa, arvorismo, o primeiro voo, a primeira viagem pra fora do meu estado… tantas coisas que fiz pela primeira vez e ele tava lá comigo. Victor era um ser humano incrível.

Lembro das nossas andanças pelas ladeiras de Ouro Preto. Saíamos de manhã e só voltávamos à noite depois de tanto perambular pela cidade. Com ele as coisas nunca eram aproveitadas somente pela metade. Victor era intenso e conviver com ele era a coisa mais intensa do universo. Vivíamos pra valer.

Foi em uma tarde chuvosa quando estava sentada na varanda de casa que soube da terrível notícia. Victor havia sido assassinado em um assalto. Que tipo de pessoa é capaz de matar um ser humano tão dócil? Fico me perguntando quais situações e conflitos a pessoa que assassinou Victor deve ter passado. Fico pensando em como Victor deve ter se sentido. Fico pensando no que Victor não me disse naquela tarde em que nos encontramos para tomar café – nunca saberei. Uma dor e revolta me tomam por completo.

Victor era o cara que cuidava de mim em todos os momentos. Eu não precisava dizer pra ele como estava me sentindo porque ele sempre sabia de cara o que se passava comigo. Ele não tinha todas as respostas para as minhas aflições, mas a calma e a maneira de lidar com vida eram extraordinárias. Victor se foi em uma tarde chuvosa como essa – deveríamos estar tomando café agora na padaria da esquina. Toda tarde chuvosa será triste agora. Já não tomo mais café nas tardes chuvosas. Troquei o café por chá. Victor amava café e odiava chá. Tomar café sem ele não seria mais a mesma coisa – por isso a substituição dolorosa. A vida é mesmo curta, não é meus caros? Cabe a nós torná-la longa de alguma maneira.

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