About passion

Você não se apaixona por uma pessoa, se apaixona por um perfil. Por uma personalidade que, se remodelada, leva sua paixão para o caixão. Segundo o dicionário, uma das definições da palavra perfil é “descrição em traços rápidos: retrato moral de uma pessoa”. Logo, você se apaixona por um retrato moral e não pelo indivíduo em si.

Sustento essa hipótese há alguns anos e o que não me faltam são argumentos para defende-la. O maior deles está no fator arrependimento. Basicamente é o seguinte: todos somos seres mutáveis e enfrentamos diversas transições com o passar dos anos. Na medida que em que a nossa individualidade se altera, novos atributos são somados a nossa personalidade, outros são subtraídos e alguns são modificados. Afinal as mudanças fazem parte da vida. Dentre esses atributos subtraídos, ou seja, descartados, estão os arrependimentos e desgostos das escolhas passadas. Por exemplo: Quem nunca se arrependeu de um relacionamento na adolescência? Quem normalmente se arrepende, possui uma boa justificativa para tal. A maioria diz que se arrepende porque era inexperiente, limitado ou inocente… Ou que não sabia exatamente o que era “o verdadeiro amor” (como se o amor verdadeiro exigisse uma infinitude de experiências fracassadas para funcionar). Os arrependimentos são remorsos adicionados diariamente ao nosso baú do passado. Novas esperanças e estratégias assumem as lacunas deixadas por esses remorsos. Esse processo de troca é semelhante a mudança de pele das serpentes – o que fica pra trás é o nosso modo anterior de ser/agir, totalmente defasado e obsoleto. O que segue adiante é um perfil blindado, com um pouco mais de sabedoria, pronto para novos desafios, evitando a repetição dos mesmos erros.

Como disse: você não se apaixona por uma pessoa, se apaixona por um perfil. Com o tempo, esse perfil pode significar muito pouco para a personalidade que você desenvolveu, pode se tornar incompatível, insaciável ou atrasado. Não é à toa que durante o casamento são necessários tantos e tantos ajustes, lapidações, aprendizados e renuncias. O amor sacramentado no altar, frente a centenas de convidados, não é o mesmo após quinze anos, que também não é o mesmo durante a velhice. As pessoas mudam, o amor também. Com o passar das décadas ele pode ficar mais forte, robusto, bonito e poderoso. Ou pode simplesmente deixar de existir, levando consigo o casamento para o baú. Com isso, pergunto novamente: quem nunca se arrependeu de um relacionamento na adolescência? Quase todo mundo se arrepende de uma situação ou várias, porém vale destacar um erro comum: confundir arrependimento com falsidade. Em outras palavras: achar que uma paixão (que foi verdadeira enquanto durou) nunca existiu, só porque foi capaz de supera-la. Uma relação que deu certo no passado, uma paixão que pegou fogo por determinado tempo, não necessariamente era falsa só porque o perfil desejado é considerado, atualmente, rococó. Você só era jovem, não era burro. Inegavelmente o coração bateu mais forte, inegavelmente houve uma troca de gostos. Inegavelmente houve bons momentos. Se tudo desse certo, se a paixão se fortificasse com as décadas ao invés de ser triturada por elas, é provável que estivessem juntos até hoje. Só que em algum momento durante as mudanças, a adaptação falhou, alguém precisou fazer mais, alguém precisou ceder mais, o que não aconteceu. Não dá pra ficar parado. Muita gente se esquece que a alma humana não sabe lidar com a satisfação plena, precisa de desafios, precisa de novos episódios.

Por costume cultural, quando nos decepcionamos com alguém, nos afastamos de quase tudo que relembra o aspecto do ex. Consequentemente nos aproximamos de outros aspectos, desenvolvemos novos gostos, toleramos outras coisas, repaginamos o conceito que tínhamos da pessoa ideal. Evidentemente que, com isso, esse conceito toma uma faceta diferente daquela que outrora desejávamos com tanta força. A maior prova disso é que, passado algum tempo, não é só aquele/aquela ex-namorado(a), esposo(a) ou ficante que parece obsoleto, mas qualquer um que possua um perfil exatamente igual ao dele(a). Não é só o seu ex que se tornou insuportável ao seu coração; todo mundo que possuir a mesma natureza que a dele seguirá no mesmo barco. Isso porque você não se apaixona por uma pessoa e sim por um perfil. Isso é tudo.

 

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