Dúbio

Olá, Débora.

Obrigado por escrever e por ainda se preocupar comigo. Estou deixando o hospital, o gesso coça um pouco, mas vou sobreviver.

É gostoso poder parar e elaborar, finalmente, uma resposta decente pra ti. Você me conhece como ninguém, sabes que no que tange ao coração, sempre fui um tanto covarde. E confesso que estando escondido atrás das letras, consigo ser mais claro e sincero sobre o modo como me sinto. A vida continua cansativa, infeliz e dolorosa. Exige muito de tudo o tempo inteiro. Agora, depois do nosso termino, muita gente anda se aproximando e perguntando como me sinto, se superei, se está tudo bem comigo. Dou uma resposta rápida em quase todas as vezes. É aquele esquema; a maior parte das pessoas que se encontram na mesma situação, mentem quando são indagadas, dizem que tudo está muito legal, esticam um sorriso e mudam de assunto. That’s all.

Embromar ao ouvir esse tipo de pergunta é uma atividade notória, já inclusa nas regras do nosso firewall pessoal. Então, quando questionado, também minto que as coisas estão ótimas, quando na verdade me sinto péssimo. Todo mundo sabe que não se deve falar da vida privada a qualquer um, não se deve bancar o maluco depressivo das pracinhas, das igrejas, das filas de banco, ou do elevador. Afinal, nem toda pessoa que deseja saber como estamos está, de fato, interessada no nosso bem. Entretanto você não faz parte dos fofoqueiros que me rodeiam. E já que me escrevera cobrando um desabafo, tentarei ser o mais sincero possível, descrevendo o que existe de mais indescritível no meu ser.

Querida… Há uma maldita voz na minha cabeça que diariamente insiste na ideia de que estou com a vida devastada. Contudo essa voz não me ajuda em nada! Nunca responde as questões mais simples que nascem dos seus devaneios. Tudo que ela faz é alimentar esse pessimismo doentio que cutuca e corrói a minha paz. Se eu fosse capaz de confrontar meu próprio eu, faria perguntas diretas, porque preciso de soluções rápidas. Oras, se estou na trilha errada, então o que Diabos preciso fazer para voltar aos eixos? O que preciso desfazer para deixar de errar? Quem será que devo odiar? Ou pior: quem estou deixando de amar? E essa voz… Ela grita, berra, quase morde a minha orelha com suas acusações. Citando os detalhes das minhas falhas, das minhas culpas, das minhas vergonhas, todavia desaparece quando imploro informações, quando peço o mapa do caminho que preciso trilhar para mudar, progredir, romper minhas próprias barreiras e fugir de mim mesmo.

Eu até tento, mas admito que nada me vem à cabeça além do silencioso eco da tranquilidade diária. Sigo a minha rotina e organizo meus planos despreocupado, dormindo com as janelas dos sonhos abertas. Levo esse incomodo feito uma coceira, sem conseguir um porquê. É provável que o quotidiano – e toda sua fúria – esconda os tentáculos desse pseudo dilema, pois até o presente momento, fui incapaz de senti-lo. Embora meus instintos emanem alertas de minuto a minuto, arrepiando e agitando cada centímetro do meu corpo, baby, é muito difícil manter a serenidade enquanto minha alma vibra feito uma corça afugentada. Os sentidos se incendeiam, recebo sinais naturais de alerta. Meu consciente brinca e repete sem cessar; “Ou! Não é nada. Está tudo tranquilo, relaxe. Aproveite seus dias”, meu coração, por outro lado, bate na mesa, grita mais alto: “Está tudo errado! Você é infeliz! Deixe de ser otário, está perdendo tempo!”. Acho que no fundo, sei quem está certo. Algo que não vi, quiçá incapaz de ver. É uma sensação que não abandona meu ser, como uma vontade natural de fumar, sem nunca ter fumado. Quem sabe necessite da companhia de alguém para desvendar esse mistério, assim que voltar a andar, buscarei ajuda com um profissional, uma vez que já não tenho mais você; aquela que sempre foi o meu refúgio.

Uma coisa é inevitável: meu incomodo nasceu com a sua partida. Ou quem sabe ele sempre esteve aqui, porém era abrandado pelo prazer da sua companhia. Decerto entorpecido pelo seu amor verdadeiro, sonhando com as suas palavras marcantes. Por isso, se você realmente quer saber como estou, se está tudo bem, acho que ficarei te devendo uma resposta formal, porque mal conheço o fundamento da pergunta. Sou incapaz de responde-la. Tu me conheces, sempre fui o Sr. Estúpido enquanto você fazia a Dra. Superação. Hoje pela manhã, os médicos me disseram que a recuperação será rápida. Daqui, só sentirei saudade da comida e do brilho nos olhos do rapaz, quando se aproximava com mais uma das suas cartas.

Ontem eu terminei um livro do Nelson Rodrigues, nunca te agradeci por tamanho presente. Encontrei-o entre as coisas que você deixou na nossa estante. Uma das máximas ditas por ele ficará gravada eternamente na minha memória. Ele diz que “a nossa opção é entre a angustia e a gangrena. Ou o sujeito se angustia ou apodrece“. Estava pensando sobre o significado disso no momento em que o carro me acertou. E bem… é complicado. Ah! Recebi minha alta enquanto escrevo, estou liberado, posso voltar pra casa. A ferida já se fechou. O carro não me matou. Certamente não apodrecerei, entretanto Nelson estava certo: prossigo angustiado, visto que ainda te amo…

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4 comentários em “Dúbio

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  1. Eita Leo…poderia destacar tantos trechos…mas os filosóficos que mais gostei preciso deixar aqui:

    “E confesso que estando escondido atrás das letras, consigo ser mais claro e sincero sobre o modo como me sinto.”
    “Afinal, nem toda pessoa que deseja saber como estamos está, de fato, interessada no nosso bem.”

    Por fim, é necessário ser alguém que muito sente para compor uma mensagem dessas. Bom fim de semana meu amigo, e continue trazendo essas peças cheias de significado pra nós; abraço!

    Curtido por 2 pessoas

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