O tempo da covalescença

Eu tive que sair para trabalhar durante duas semanas com uma chuva que não parava, e então um dia eu acordei e estava um sol maravilhoso, eu senti isso mega inspirador e bonito – surpreendentemente – pois nunca amei o sol, meu verdadeiro amor sempre foi a lua. Dessa vez, porém, o sol pareceu-me amigável, oferecendo-me um estranho cavalheirismo, abriu o tempo como quem abre a porta do carro. Foi como se alguém tivesse feito o meu chá, ou me chamado para ver o arco-íris no céu. Foi como viver um cosmo depois de muito caos. Foi um dia bom, depois de vários dias ruins.

Certamente a felicidade inteira não cabe dentro da estiagem, e os dias ruins infelizmente não se resumem em chuva que não passa e muito menos têm a organização das estações do ano. Às vezes o tempo triste fica, e eu que não sei lidar nem com as coisas boas que permanecem, imaginem com as ruins: perco literalmente o controle e andando na corda bamba da vida caio dentro do precipício cheio de lesmas gigantes. Graças a Deus sou salva pelos lagartos de costas vermelhas que devoram as lesmas enquanto eu fujo desesperada pelo infinito coberto de fumaça lilás. Ao menos foi assim no sonho que sonhei dia desses…

Na vida real, porém, continuo presa na tempestade, continuo andando na corda bamba prestando mais atenção nas lemas abaixo dos meus pés, do que no infinito lilás na frente dos meus olhos.

É depressão que se fala, né?

Quando se perde o controle e cai no precipício. Quando já não enxerga o infinito e só se olha para baixo. Quando se sente sozinha e sem abrigo. Quando chora sem motivo e esconde tudo porque tudo que quer é parecer ser forte, contudo, está completamente escrito nos seus olhos, que você tenta esconder com os óculos.

É depressão quando tenta a todo custo e de todos os modos reagir porque sabe que lá fora tem um mundo inteiro para te chamar de fraca. De débil. Fútil. Impotente. FRACA. Mas não consegue. Por mais que se levante, ande rápido, sorria, brinque e finja que está tudo bem, aparece alguém e pergunta se você está com sono, se aconteceu alguma coisa, ou te olha com o gladiador e temível olhar de pena.

E é ser forte que se fala, né?

Quando não desiste. Quando luta mesmo que isso mentalmente lhe pareça mais difícil do que para a maioria das pessoas. Quando sorri com aquela imensa vontade de chorar. Quando fica, com a enorme vontade de partir. Quando vai, com a grande possibilidade de ficar. Quando enfrenta, mesmo querendo fugir como uma criança. É forte que se chama quem escolhe a voz certa mesmo que a sua cabeça lhe pareça um rádio repleto de estações. É forte quem enfrenta de cabeça erguida ouvir que aquela dor dilacerante que corta o seu peito é bobagem.

É forte quem mantém o seu corpo vivo, quando o seu interior já parece morto.

8 comentários em “O tempo da covalescença

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