H de Ingenuidade

Escolhi uma mesa para dois no quiosque de café do Shopping próximo ao meu trabalho. A ideia era tomar um cappuccino e talvez dividir um bolo, porém ela estava demorando a chegar. A páscoa estava se aproximando e as lojas estavam cheias. Era uma linda tarde de quarta, dia chuvoso, deveria fazer uns vinte e cinco graus, friozinho bom para ficar em baixo do edredom com alguém que ama, passando a mão onde não deveria. Havia uma galera metros à frente dos quiosques, no palco do shopping, organizando um provável show. Se a música fosse boa, poderia considerar o lugar do encontro como uma tacada de sorte, pois a visão era extremamente privilegiada. Eu já havia feito os pedidos ao garçom, mas solicitei que ele aguardasse até o meu comando. Quando se passaram quinze minutos além do combinado, fiquei um pouco nervoso e puxei o celular do bolso para tentar falar com a crush. A impaciência é um dos meus pecados, queria saber o motivo da demora.

Não teclei por muito tempo, assim que me distrai com a tela, ela se aproximou e me cutucou. Olhei para cima, ela sorriu. Juliana é uma ruiva lindíssima! Tem por volta de 1,69, gosta de usar saltos discretos. Ela é magra, bem magra, poderia ser modelo, porém os deuses da genética brasileira resolveram abençoa-la com os maiores e mais lindos seios que já vi. Ela trabalhava numa loja de cosméticos e usava o uniforme do seu trabalho; uma blusa escura, com a logomarca no peito e uma calça da mesma cor, colada ao corpo. Ela estava molhada, com o cabelo meio bagunçado pelo vento e um guarda-chuva preso no braço esquerdo. Parecia ter encarado um dilúvio lá fora. Sequer fez questão de passar no banheiro antes para retocar a maquiagem. Qualquer garota comum faria isso, elas acham que os homens se importam. Bobagem! Eu gostava dela e não olhava para as comuns, justamente porque ela não se importava.

Gabriel! Desculpa a demora, o mundo está se acabando lá fora, cara! Não sei nem como cheguei aqui… – Ela se justificou fazendo gestos, quase gritando. Voavam gotas d’agua pra todos os lados. Eu fiquei um pouco assustado, ela notou e começou a gargalhar.

Estamos no Rio amor, qualquer chuvinha destrói essa cidade – Respondi.

E não é, Bonito!

Sente-se, por favor. Relaxa um pouco, vamos conversar.

Ela sentou sem falar nada. Colocou a bolsa sobre a mesa, tirou uma sacola plástica e guardou o guarda-chuva. Depois, colocou a sacola na bolsa e moveu para uma terceira cadeira da mesa, onde já estava minha mochila. Eu gostava de observa-la, ela era um misto de tudo que eu curtia.

Droga, meu cabelo deve estar horrível… Não repara não!

Você está linda! Não consigo parar de olhar pra você.

Ah, você só está apaixonado. Garotos apaixonados são tontos.

Eu não sabia se levava aquilo como um elogio ou não. Mas eu realmente estava apaixonado. Quando um cara se apaixona, algumas ofensas entram pelos buracos dos olhos e quicam no crânio de um lado para o outro sem se alojar no cérebro. É uma lentidão, uma viagem que droga nenhuma proporciona. Ela passou as mãos no lindo cabelo vermelho, encaracolado e, com dois tapas, ele já estava ótimo. Eu decidi fazer um sinal para o garçom, ele começou a adiantar os pedidos.

Você já pediu?

Sim!
O que?

Exatamente aquilo que combinamos pelo Whatsapp. Pedi para ele caprichar no seu chocolate.

Ah, que delícia! É o que eu preciso. Além de um cigarro… Uma pena não poder fumar nos shoppings.

Acho que concordo contigo. Se as pessoas são livres para comprar o que quiser, então também podem ser livres para se matar como quiser – Respondi.

Hahaha, cala a boca!

Só estou brincando.

Você estava me esperando há muito tempo?

Uns quinze minutos.

Beleza. A maioria dos homens só adiantam pedidos a partir do quarto, quinto ou do décimo encontro. Você fez no primeiro! Isso sim é coragem.

Não se trata de coragem nem de covardia. Como pode ver as mesas aqui são ocupadas rapidamente, o café é gostoso. E com essa tempestade eu já imaginava que você poderia se atrasar, não queria te deixar esperando por mais tempo que o necessário, Eu sei que você tem aula daqui a pouco.

Ela parecia ter gostado da resposta. Ficou me fitando em silêncio, passando o olhar sobre mim como se fosse um pincel molhado de tinta num quadro seco. As garotas não fazem ideia de como isso mexe com a nossa cabeça, muito mais do que qualquer palavra. O pedido então chegou e o garçom quebrou o princípio de clima. Ele primeiro serviu o chocolate quente com marshmallow dela. Depois, meu café com creme.

Mais alguma coisa, senhor?

Olhamos um para o outro, ela levantou uma sobrancelha, eu cocei o queixo. Achei que era um sinal de fome.

Um pedaço grande de brownie por favor, de chocolate. Vamos dividir.

Ok, anotado.

Começamos a conversar. Ela me falou do trabalho, das clientes chatas. Falou da chefe abusiva. Falou da família, dos projetos sociais que se envolve no fim de semana. Da faculdade, do Botafogo, seu time de coração e do Carlinhos… Um ex-namorado que a perseguida, dentre outros assuntos. Falou-me sobre muitas coisas, todavia por mais que insistisse, ela evitou me falar do lugar onde mora. Eu também enchi a cabeça dela de coisas. Li uma poesia que havia escrito no mesmo dia mais cedo, no banheiro do trabalho. Ela me olhou como se eu fosse uma espécie de Chico Buarque que ainda não fora descoberto. Era engraçado receber elogios: todo escritor ama elogios, é o combustível que eles precisam para continuar escrevendo. Normalmente eu levantava o escudo da humildade, mas no fundo era muito gostoso, não dá pra negar. Depois de quase meia hora, começamos a falar de assuntos mais quentes e decidi planejar alguma coisa pro fim de semana. Ela topou. Do outro lado o show estava para começar e a banda finalmente subiu ao palco, um cara magrelo que mal aguentava o peso de sua guitarra era o vocalista. Ele gritou um “Boa noite” no microfone e o baterista deu início a uma qualquer do Capital Inicial.

Vou ao banheiro e já volto – disse.

Tudo bem, hoje eu pego o segundo tempo. Quando voltar, vamos fechar aqui, pois preciso ir pra aula.

Beleza – Deixei a mesa.

Caminhei até o banheiro. Chegando lá reparei que haviam três mictórios, todos estavam vazios, então peguei o primeiro, na ponta esquerda. Um japonês com roupa de cozinheiro e cheirando a yakisoba pegou o da ponta direita, o meio ficou vazio. Ele respeitou a lei masculina de espaço do respingo, achei ótimo. Era bom saber que até os homens do outro lado do mundo preservam essa lei. Quando eu já estava na metade do processo, mirando nos sabonetes que mais pareciam balinhas mastigáveis, um cara chegou e quebrou a lei do respingo ao assumir o mictório do meio. Ele era alto, deveria ter mais que 1,90. Além disso, era bem forte. Aquele tipo de sujeito que normalmente come uma dúzia de ovos no café da manhã, vive de academia e mesada dos pais. Se não bastasse quebrar a lei, ele ainda esbarrou em mim ao colocar seu pequeno membro pra fora, fato que me fez perder um pouco da mira. Era o suficiente para ficar bolado, mas eu não estava bêbado (sou valente bêbado) e havia uma beldade lá fora me esperando. Não dava pra vacilar. Tentei manter a concentração até ele começar a falar;

Ei, meu irmão. Psiu!
Eu sabia que era comigo, relutei um pouco, mas olhei para ele. Detestava encarar sujeitos mais altos, a ideia de manter o rosto pra cima… Na guerra de egos, é como uma alegoria para submissão.

O que você quer, cara? – Perguntei.

A garota lá fora, a Juliana. É você que está com ela, né?

Quem quer saber?

Esqueça que ela existe!  Não vou pedir de novo.

Quem quer saber?

Não me faça repetir; finja que não a conhece, meu irmão, e some!

Quem quer saber? – Perguntei pela terceira vez. É engraçado como um homem nervoso fica ainda mais burro que o normal, o cara se transformou numa metralhadora de 110 quilos, cheia de ameaças vazias e ciúmes infantis. Não posso culpa-lo, ele é do tipo que malhou e cresceu todos os cantos do corpo, menos o cérebro.

EU SOU O NAMORADO DELA, porra!

Namorado? Ela me disse há pouco que terminou contigo três meses atrás.

Não terminamos!

E que você vive perseguindo ela pra cima e pra baixo…

Não terminamos, caralho! Só tivemos apenas uma pequena briga!

Hã… E aí? – Perguntei enquanto balançava meu Malaquias, depois, fechei o zíper.

“E AI?”, Tá de sacanagem com a minha cara, moleque? Vá se foder! Quando sair do banheiro, vá embora direto! Se eu te ver com ela naquele quiosque de novo, quebro a tua cara de porrada lá mesmo e depois, te jogo daqui de cima lá no térreo.

Ele guardou o pequeno item dele (mas sem balançar o que também simboliza a quebra de outra lei – a da higiene) e se afastou do mictório, de costas para os sanitários. O japa estava na pia, passando sabonete líquido e de ouvido atento a toda situação.

E então, meu irmão! Como vai ser? Vai meter o pé ou não? – Ele perguntou, fechou os punhos e ficou me encarando, parecia um cachorro louco, só faltava babar.

Eu ainda bancava o indiferente, olhei novamente para frente, para a parede, estava de costas pra ele. Apertei o botão da descarga e, enquanto a água descia, perguntei:

Grandão, qual é mesmo seu nome?

Seu viado!

Você?

Como é?

Tu gostas?

Tá de brincadeira com a minha cara anão?

Seu nome!

Ele bugou. Era um cara limitado. Ficou quieto e veio se aproximando devagar, por trás de mim. Eu percebi, olhei para o lado esquerdo, o Japa ainda estava lá, vendo a situação pelo reflexo. O espelho também me mostrou quando ele preparou uma gravata pra me pegar. Eu pensei rápido;

Lembrei! Você é o Carlinhos! Ai, Carlinhos, VOCÊ QUER UMA BALA? – Virei jogando os sabonetes do mictório no rosto dele.

O negócio bateu como um tiro de pistola! A água (ou o mijo), ricocheteou na testa do gigante, parecia a pedra que matou Golias. Ele tremeu na base, eu aproveitei o momento – acertei um direto, bem na boca do seu estomago. O cara realmente era malhado, a barriga era bem dura, meu braço repicou facilmente. Aproveitei o retorno e mandei outro, dessa vez, nas bolas do dr. Ciúmes. Ele deu uma arriada, curvou o corpo para frente, quis aproveitar a chance e mandar um gancho, porém o Japa me surpreendeu; veio da pia no impulso e mandou uma voadora que pegou na bochecha do bombado, deitando o grande Carlinhos.

Eita, merda! Agora mesmo que eu tô ferrado! – Disse.

Ficar tranquilo, rapaz. Ir embora, eu ficar aqui e não deixar doido atrás sair – Respondeu o Japa.

Obrigado, companheiro. Sayonara – Respondi. Sai do local em seguida, sequer lembrei de lavar as mãos.

Cheguei no quiosque jogando o dinheiro na mesa. Juliana mexia no celular, quando me viu daquele jeito, não entendeu nada.

– Vamos embora agora, Ju! – Falei já pegando a mochila.

A banda tocava Música Urbana, do Capital. O magrinho estava mandando ver na guitarra. O rock pesado contagiou a galera, o som estava explosivo.

Calma! O que aconteceu? – Ela perguntou assustada.

Te conto no caminho… – Gritei. Em seguida a peguei pelas mãos e seguimos em direção ao elevador.

O que é isso nos seus dedos? Eca! Onde você colocou a mão?

Prometo que explicarei, apenas venha!

Quando deixamos o Shopping, a chuva já havia passado. As ruas estavam repletas de poças, os carros jogavam água na calçada. Andamos até o ponto do ônibus que passa no bairro da universidade onde ela estuda, chegando lá comecei a me explicar, porém ocultei a parte do super-herói japonês. Deixei ela acreditar que fiz tudo sozinho. Ela arregalou os olhos “Como assim?”, “Não é possível!”, dizia de forma alternada.

Foi exatamente isso que aconteceu, Ju. Eu não sabia que ele era tão maluco assim, o que te fez se apaixonar por um doente desses? – Indaguei.

É uma longa história – Respondeu-me.

O ônibus se aproximava do ponto.

Toma cuidado! Depois do que rolou, não sei o que ele será capaz de fazer – Disse.

Tome cuidado você! O Carlos é psicopata! Olha… Mil perdões. Valeu pelo chocolate, pelo papo e pela companhia. Você é um cara legal. Não sei nem o que dizer sobre a situação com o Carlos, espero que isso não mude nada entre a gente.

Fica tranquila, não mudará. Farei o possível para protege-la enquanto estiver contigo.

Ela fez uma carinha engraçada como retribuição, a luz refletiu nos seus olhos. Foi meio fofo… Bonito. Achei que tinha chegado o momento, o time certo para arriscar um beijo. O tipo de coisa que a gente aprende depois de assistir muitos filmes. Dei um passo, avancei e tentei beija-la, ela virou o rosto. Acertei a bochecha.

Tchau, Gabi.

Tchau, Ju.

Droga! Devo ter calculado errado, ou o cheiro do mictório quebrou o clima. Ela então subiu no ônibus. Eu fui embora meio serelepe. O mundo parecia cor de rosa até o momento em que dobrei a esquina e a noite recuperou suas trevas. Andei três metros e bati de frente com Carlinhos, mega transtornado! Parecia uma montanha. Tinha um olhar furioso, se entrasse em erupção, era capaz da sua cabeça sair do lugar, como num desenho animado. “Puto” era pouco para descreve-lo, ele estava com um saco de gelo no rosto, bem na bochecha onde o Japinha acertou a pernada. Pensei em correr, entretanto a visão da morte já era inevitável. Mesmo assim, tentei arriscar, quando ensaiei a meia volta ele pôs a mão na alça da minha mochila e me puxou.

Ei, ei, ei. Calma! Calma cara. Não vou te machucar.

Ao ouvir aquilo tranquei todos os buracos do meu corpo! Não passava nem agulha. Olhei nos olhos dele, tentei me concentrar. Apesar dos apesares ele falou num tom mais baixo, parecia estar manso.

Fique tranquilo – Ele dizia sem parar  – Apenas escute – Ele puxou o celular do bolso, o Iphone estava tocando, tinha uma chamada ainda não atendida. Seu toque era a música de abertura do Sons of Anarchy. Ele atendeu e colocou em viva-voz. Eu conhecia aquela voz, era a Juliana.

VOCÊ É MESMO UM IMPRESTÁVEL! UM INÚTIL! BABACA! CUSÃO! ERA SÓ BATER NAQUELE MAGRELO, ESPANTA-LO! ROUBAR SUA CARTEIRA, FAZÊ-LO FICAR LONGE DE MIM! NÓS JÁ FIZEMOS ISSO MIL VEZES ANTES, CACETE! COMO VOCÊ CONSEGUIU APANHAR DAQUELE GRILO! EU ESTOU TODA FEDENDO A MIJO POR TUA CULPA! SEU INÚTIL. SABE A MERDA QUE ISSO PODE DAR? E VOCÊ AINDA DESMAIA? E SE ELE CHAMA OS GUARDAS, JÁ IMAGINOU A TRETA? BLA, BLA, BLA…

Ele desligou, interrompendo a fala dela. Eu simplesmente congelei.

Escuta Gabriel, nós já fazemos isso há dois anos, com todos os pretendentes dela. Você foi o primeiro que me encarou e me fez ver que isso tudo é uma idiotice. Não cole com essa garota, ela é uma vadia, manipuladora, desgraçada, acabou com a minha vida e com a minha cabeça. Tô fora! Se eu fosse você, sairia dessa jogada também. Boa sorte ai! – Em seguida, ele atravessou a rua, ainda trocando pernas, e fez sinal para um taxi.

Eu fiquei parado tentando digerir aquilo tudo, cocei a cabeça e sentei no meio fio sob a fraca iluminação pública. Não sei precisar por quanto tempo. Até que uma moto passou colada a calçada levantando a água parada da rua. A onda me acertou em cheio – um banho de realidade.

Merda! – murmurei. Depois, cheirei meus dedos – Bom, ao menos lavou minhas mãos.

Tirei a blusa molhada e amarrei na cintura logo depois.

Garotos apaixonados são tontos… É! Ela tinha razão – Pensei.

Segui meu trajeto, apertei as alças da mochila e fui embora correndo…

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