Elipse

Eu senti vontade de fazer uma última pergunta e, como não sou muito de enrolar, peguei o celular e mandei uma mensagem. Era de tardinha, estava preparando um café. Meu açúcar havia acabado, decidi adoçar com mel. Não tenho nada contra o mel, ele cumpre sua parte, porém o gosto, é claro, não fica o mesmo. Nunca fica. Tipo esses relacionamentos que nós arranjarmos pra suprir uma carência. A carência não é nada mais, nada menos, que a falta daquele carinho, daquele toque, daquela voz, daquela assistência, que não é exatamente a de qualquer pessoa — é aquela que agrada, que satisfaz, que deixa marcas, que conquista, em gênero, número e grau. Todavia sou um ser humano, meus dias são curtos. E não ficarei sozinho na ausência do substantivo que deveria cumprir esse papel. Se não tenho my sugar, reponho com o mel; se não tenho quem amo, perco algumas temporadas curtindo a companhia de outra pessoa. Com outro alguém, a vida é diferente, mas continua sendo uma vida. Com o mel o sabor do café é diferente, mas, ainda assim, continua sendo café.

Eu fiz a pergunta. Ela ainda não visualizou. As lembranças passeiam na minha cabeça. Elas arquitetam possíveis respostas, possíveis consequências e possíveis situações onde as coisas ou dão muito certo, ou dão muito errado. São as imagens do passado tentando modelar meu futuro. Eu mastigava um biscoito quando ela, enfim, visualizou. Foi uma pergunta clara, simples e direta. Questionei: “Será que você ainda pensa em mim?”. Deste modo, sem floreios, sem gracinhas, sem engabelar com papos furados. “Será que você ainda pensa em mim?”. As horas se passaram. Ela visualizou e não respondeu. A vida é tão curta quanto uma xícara de café. Às vezes, tão mal adoçada quanto. Afinal de contas, será que todos vivemos assim? À sombra da visualização vazia? Esperando por uma resposta que nunca chega? Eu não sei, talvez sim, ou talvez eu seja o único azarado. O dia acabou e, novamente, ela me desprezou e não respondeu. Contudo outra pessoa me ligou, me jurou volúpia e afago. Ofertas irrecusáveis a quem deseja supressão da angústia. Mais uma vez, adocei com o mel e aceitei a proposta. Julgue quem quiser julgar, mas não fico sem beber…

5 comentários em “Elipse

Adicione o seu

  1. Delícia de texto, Leo…o primeiro parágrafo é um passeio na abstração e o segundo é um corte de faca quente em concretude…e quantas vezes a gente têm vivido essa situação…de buscar o mel quando não se reencontra o açúcar.
    Delícia de texto, Leo…(bis)

    Curtido por 1 pessoa

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: