Sertão

Você não nasceu pra ser minha assim como não nasci pra ser seu, todavia carregamos uma característica comum: o vazio da alma. Uma sede inconstante que nenhuma alegria sacia, um inconsciente desidratado que se arrasta dia e noite pelo deserto. Sem satisfação, sem remédio, sem descanso. Preenchemos nossos vazios habitando as areias um do outro ocasionalmente. Um fim de semana ali, um feriado acolá. Você é o meu oásis das noites mais difíceis e também uma miragem que se desmonta ao longe, logo que vou embora, carregada pelas tempestades cotidianas.

 

Carrego esse vazio desde garoto, essa alma infrutífera, essa falta de sabe-se lá Deus do quê. Na época sonhava com um tempo de reflorestamento, que no futuro alguém chegaria para semear e trazer a flora necessária. Vidas, alegrias, músicas, cheiros, minúcias… saciação constante. Esse tempo nunca chegou e de tanto procurar, acabei desistindo dele. Até que certa feita, numa tarde qualquer, enquanto exprimia minha desmotivação diária, eu te vi passar. Vi nos seus olhos a mesma decepção natural que carrego desde o berço. E após alguns dias dividindo o café e noites compartilhando vinhos, decidimos que, dali por diante, encontraríamos alento um no outro de quando em quando. Nada como um pouco de tesão para andar mais rápido pela dimensão do sofrimento.

 

Porém eu não carreguei as sementes necessárias para fazer brotar a felicidade no seu coração, você também não possui as minhas. No máximo somos como cactos esporádicos que socorrem um ao outro; pontos verdes que aparecem no meio do nada para assegurar mais alguns dias de vida. Sou seu bom gole d’água e você é o meu. Pra quem já possui o costume de se ferir entre os espinhos, somos iguarias indispensáveis! Semanalmente nos fartamos, à vista disso, partimos.

 

Precisei apanhar muito e sobreviver a dezenas de tempestades para perceber que as sementes que sempre procurei no próximo estavam comigo o tempo inteiro. Que ninguém mais além de mim era suficientemente capaz trabalhar para fazer brotar aquele universo de prazer que imaginei na infância.

 

Contudo no momento em que alcancei esse grau de iluminação, que percebi esses fatos, que estava apto para o plantio, já não tinha mais forças. O desejo de matar a sede em água corrente se fora há tempos, acostumei-me com o gostinho dos espinhos, com o sabor do cacto. Da miragem não consegui sair, na miragem resolvi ficar. E de miragem em miragem, decidi viver. Os demais viajantes que cruzam meu caminho empolgados, se espantam ao ver minha conduta e omissão, não entendem como alguém que conquistou as chaves para deixar o inferno escolheu permanecer nele.

 

Você é uma mulher de coragem! Assim que chegar o dia da sua iluminação, certamente me deixarás. Eu não a culpo, mesmo num jogo em que combinamos enterrar os nossos sentimentos, aprendi a torcer pelo seu sucesso. Eu não ajudarei você no cultivo, ficarei sozinho. Entenda que optei por me especializar e dominar o vazio que sempre me atormentou e dessa maneira farei. Entretanto amor, se numa dessas noites solitárias você olhar para o céu e sentir saudades de repousar num pequeno oásis desse planeta de almas secas, olhe para o céu, siga minha estrela. Saiba que pra ti, meus braços estarão abertos, para sempre abertos…

9 comentários em “Sertão

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  1. Hahahahahahaha
    Eu estou forçando a retomada aos versos aqui, amiúde. No meu oceano de rascunhos.
    Mas olha… Tá difícil! Espero que esse momento volte, sinto falta.

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      1. Fique tranquilo! Após sua resposta, eu fiz uma releitura e percebi que me assustei com suas analogias tão bonitas envolvendo o árido relevo. Reitero: belas analogias mesmo! Eu gosto muito de fazê-las, mas me vejo sendo muito piegas quando as faço em prosa, tal qual você fez aqui. Não sei por que eu caibo melhor nos versos ainda rs.

        Abraço meu querido!

        Curtido por 1 pessoa

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