Ócio

É a segunda quarta-feira do mês. Acordo cedo e fico deitada de olhos fechados com os fones no ouvido. Levanto às 9h30, tomo banho e saio para esperar o ônibus que passa duas ruas depois da minha. Chego ao shopping às 11h e como o filme só começa às 11h40, resolvo tomar um café. Sento-me e peço um expresso pequeno, tiro da bolsa meu cardeninho e minha caneta lilás. Tento escrever algo, mas não vem nada em mente. Fico então a observar as pessoas que passam de um lado para o outro, entram nas lojas e saem sorridentes com suas sacolas. Tento novamente escrever algo, mas não me vem nada em mente. Termino o café e subo para comprar meu ingresso, pois já passam das 11h30. Não demoro muito na fila, compro meu ingresso e vou para a sala três. Escolho a terceira fileira de cima para baixo, uma cadeira que tem a visão central da tela. Sento-me.

Você já teve a sala do cinema só pra você? Sim, ninguém mais foi ver o filme naquele horário. Era só eu lá dentro. Quando o filme começou me concentrei a assistir. Vez ou outra alguns funcionários entravam na sala e cochichavam “tem uma pessoa lá em cima” e logo paravam e permaneciam por pouco tempo a assistir o filme também. Saíam novamente e depois de um longo período retornavam, me olhavam por um instante e iam embora – era como se nunca tivessem visto alguém assistir a um filme sozinho em uma sala de cinema. Era como se nunca tivessem visto…

Ao terminar o filme, desço novamente alguns andares e penso em almoçar por lá, mas resolvo ir até a livraria. Lá compro alguns livros e vou para o ponto de ônibus. Milhares de pensamentos me tomam… uma garotinha passa junto de sua mãe e lê em voz alta o nome de alguma loja, volto a prestar atenção nos ônibus que passam para não perder. O ônibus não demora a passar. No percurso penso em tudo o que poderia escrever. Uma história completa vai surgindo em minha mente, mas eu não tive coragem de tirar o caderninho da bolsa. Faltou-me coragem de escrever. Era uma história incrível – pra mim, pelo menos. Era uma história leve, algo que eu não tinha costume de escrever.

Observo as ruas, as pessoas durante todo o trajeto e na minha mente só me vem a continuação da história. Era uma história que insistia em querer sair pra fora. Era uma história que pedia para nascer. Ignorei mais uma vez. Comecei a folhear un dos livros que havia comprado… Mas a história em minha mente novamente insistia em querer nascer. Mas eu ignorei de novo. Guardo o livro na sacola e começo novamente a observar através da janela…

Chego ao meu destino. Desço do ônibus e no bar em frente ao ponto em que desci toca Legião Urbana. Aquela música suave me faz querer entrar lá e pedir uma cerveja, mas não faço isso. Atravesso a rua e sigo em direção à minha casa. Chego em casa e deito na cama. De repente começa a chover, ouço trovões estridentes. Abro a janela do quarto, observo a chuva e fico a pensar na história que queria nascer dentro do ônibus. Pego o caderno e tento escrevê-la, ela já não é tão bonita quanto a que queria nascer dentro do ônibus. Já não é a mesma história. Ainda assim escrevo. Guardo o caderno, ponho os fones e durmo – enquanto lá fora o mundo parece desabar.

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