Do décimo andar

[…]

Eu não sabia

que virar pelo avessso

era uma experiência mortal.

(Ana C.)

 

Conheci Ana por acaso num desses encontros de poesia. Eu havia recitado um poema da Ana C. e Ana que não era C ficou fascinada. Conversamos por um tempo, apresentei a ela mais alguns poemas da Ana C., trocamos contatos e fomos nos falando. Ficamos amigas em pouco tempo. Saíamos todo fim de semana caçando sarau pra nos embebedarmos de poesia. O que eu não sabia era que Ana se embebedava não só de poesia.


Ela experimentava e era viciada em muitas coisas… bebidas, cigarros, maconha, crack. Além dos cortes, sim Ana se cortava.

Os cabelos curtos jogados ao vento, óculos escuros e roupas desleixadas. Ana era peculiar. Boa gente, mas meus pais insistiam de me proibir andar com ela. Diziam que gente que fuma e bebe só iria me conduzir ao mal caminho. Não sabendo eles que certa vez Ana me livrou do mal caminho. Eu estava muito mal e na roda de amigos me ofereceram cigarros – eu que nunca havia fumado – e aceitei, quando me viu prestes a acender o cigarro Ana me chamou para um canto e me pediu para que não acendesse aquele cigarro.

– Começar a fumar é furada. Você começa com um cigarro, uma cerveja, uma vodka e daqui a pouco é maconha ou coisa mais pesada. Vai por mim não põe esse cigarro na boca. Se livra disso. Tô te falando, depois que começa você se perde. Olha pra mim, tô só o pó. Tem só o meu lado podre dentro de mim.

Eu fiquei comovida com o que ela me disse e joguei fora o cigarro. Ana sofria por estar tão enlaçada pelas drogas e ela não queria me ver passando pelo mesmo. Fiquei estarrecida por vê-la tão triste se olhando e colocando-se pra baixo de forma tão dolorosa. Por isso joguei fora o cigarro, ela já estava submersa demais em sua tristeza.

Me doía vê-la afundar cada vez mais e eu não sabia o que fazer. A dor dela estava me corroendo também. Pior ainda quando cheguei na casa dela e a encontrei no quarto se cortando com um estilete. Quando me viu Ana começou chorar e pedir desesperadamente que eu não contasse a ninguém. Eu jurei que não contaria, mas a fiz prometer que começaria fazer terapia ou qualquer outra coisa, ela precisava de ajuda profissional. Isso tirava um peso das minhas costas, eu não suportaria guardar aquele segredo pra mim, alguém mais precisava saber.

Na semana seguinte, Ana me ligou dizendo que havia começado a terapia. Eu fiquei feliz, mas ainda assim preocupada. Jamais iria esquecer aqueles cortes em seus braços, as lágrimas misturadas ao sangue… – E se ela tentasse de novo? – ficava a me perguntar.

Minha vontade era me afastar de Ana, ela era problemática demais, porém ela precisava de ajuda e eu não poderia abandoná-la em um momento tão complicado – eu não suportava a ideia de que a qualquer hora ela poderia aparecer morta, seria demais pra mim. Além de já ser problemática por si só, arranjou um namorado igual ou pior do que ela. Vivia a se lamentar de sua relação, mas também tinha seus momentos de glória.

Apesar de tudo era uma boa amiga. A única pessoa que me compreendia de verdade. Era como se sentíssemos as mesmas coisas. Tínhamos objetivos parecidos, mas Ana – como ela própria dizia – se perdeu no meio do caminho. Eu não fui boa o bastante para conduzi-la de volta – sempre fui uma péssima guia.

Com todas as crises, todas as tristezas, todos os problemas… a poesia, ela nunca nos abandonou. Ana costumava dizer “a poesia salva de um jeito ou de outro”. Nunca entendi muito bem – não entendo até hoje o que ela queria dizer com isso. Se a poesia nos salvava de todos os momentos ruins pelos quais passávamos – quando íamos nas rodas de poesia e tal-, por que não salvou a Ana?

– Chego a morrer um pouco a cada dia para que minha poesia viva. – Dizia ela. O que ela queria dizer com isso?

Ana se suicidou. Sim, atirou-se do décimo andar do prédio em que morava. Será que sentiu dor? – fico a me perguntar. A dor da queda terá sido maior que a dor que a afligia? Será que Ana só queria virar do avesso ao saltar daquele prédio?

 

 

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