Tira-teima

O despertador de emergência tocou de novo, eu não aguentei e joguei o celular na parede, depois me levantei, fiz um pouco de café e fui até a sala assistir TV. Assim que liguei o primeiro canal era o do gado, agachei-me procurei o controle em todos os cantos, encontrei-o atrás do vaso de plantas. Comecei a trocar os canais… Era uma manhã de terça, não havia nada de muito bom. Uma velha ensinando a cozinhar carneiro, o jornal matinal, esportes olímpicos, um indiano ensinando yoga e o penúltimo canal era evangélico. Toquei no botão de avanço por mais uma vez, “Só restou você”, disse a mim mesmo. Menos mal, estava dando desenho, aumentei o volume e deixei rolar. Retornei ao quarto, abri o guarda-roupas, revirei minhas gavetas e peguei uma pomada cansada de ser exprimida. Sentei no sofá, coloquei o café sobre a mesinha da sala e um pouco de algodão ao lado, a mesinha ficava entre o sofá e a TV. Pus o pé esquerdo sobre minha coxa direita, abri o espaço entre os últimos dedos… “Ah, sua micose desgraçada”, murmurei. Taquei a pomada nas feridas e, por seguinte,  o algodão. “Vocês não me deixaram trabalhar, né malditas? Mas não vai ficar assim. Se não melhorar, coloco fogo em vocês!”, continuei falando. A pomada deu um efeito de alívio imediato, perdi alguns minutos largado ali. Tempos depois, quando já estava terminando o café e rindo do Pica-pau, alguém bateu na minha porta. “Maldição!”, pensei. Não estava muito a fim de lidar com seres humanos, tudo que eu precisava era de 24hrs longe do público. As batidas continuaram e eu me lembrei que o volume da TV chega facilmente ao corredor, logo, quem insiste, sabe que estou em casa. Sem opções, levantei-me e fui mancando até a porta. Não mancava por falta de opção, era mais por drama mesmo.

Girei as chaves do velho apartamento, assim que abri não vi ninguém. Olhei para baixo e lá estava uma linda garotinha. Deveria ter uns dez anos, ela chupava um pirulito de frutas vermelhas.

Oi – ela falou.

Oi – Respondi.

Ai veio o silêncio, ficamos olhando um para o outro. Eu tive a sensação de que a conhecia de algum lugar, mas não conseguia lembrar de modo algum. A demora engoliu minha resposta. Ela quebrou o gelo:

O que o senhor está fazendo na casa da vovó?

Que vovó garota? Essa casa é minha.

Sua?

Sim.

Não é não.

É sim. Acho que você confundiu as portas, não?

Ela mordeu o pirulito.

Qual é o seu nome? – Perguntei. Porém ela não respondeu.

Quantos anos você tem? – Tentei de novo.

Oito – Respondeu-me.

Oito? Cacete, você é bem novinha. Qual é o número da casa da sua avó, menina?

É o 608.

Então baby, esse aqui é o apartamento 607. Sua avó mora ao lado. É que todos os apês são iguais, sabe? Bate ali que não tem erro.

O que houve com o seu pé? – Perguntou. Ela meio que ignorou o que eu disse.

Onde está sua mãe? Tu subiu aqui sozinha?

Me diz o que é isso, moço!

Ah, são frieiras. Estão bem infeccionadas. Não vou poder usar sapatos até curar.

Eca!

Pois é. Nem queira ver de perto.

O senhor tem quantos anos?

Você ainda não me disse seu nome.

Não deveria estar trabalhando? O senhor trabalha com o quê?

Você faz muitas perguntas.

Responda só essa, por favor!

Ah, garota.

Por favor, por favor, por favor! – Ela começou a pular.

Não sei se foi a pirraça, a perda de tempo, a dor nos dedos, a quebra da rotina, os seis meses sem sexo ou o conjunto da obra inteira, sei apenas que tudo aquilo me deixou extremamente nervoso, então resolvi acabar logo com a situação.

Olha garotinha, Eu sou segurança de banco, tá legal? E não estou trabalhando porque não dá pra ficar em pé durante oito horas com os dedos fodidos desse jeito, como acabei de dizer: não posso usar sapatos. Ok? Agora, eu já te disse o que você precisava saber – sua avó mora aqui ao lado. Vá caçar o que fazer e não me perturbe mais!

Em seguida fechei a porta: “BUM!”. Não ouvi mais nada do outro lado. Caminhei até o sofá e sentei novamente. Peguei o controle, passei mais uma vez pelos canais. Ainda não havia nada de bom. O canal do yoga prometia experiência total do negócio em dez passos muito simples. A visão daqueles corpos praticando posições complicadas me lembrava do quanto eu precisava emagrecer e cuidar um pouco mais da minha saúde. Só por isso, decidi fazer o que faço de melhor: chutar o anjinho do meu ouvido esquerdo e escutar a ladainha do demônio no direito. Havia um restinho de Whisky ao lado da TV, sobrou das festas julinas e, desde então, vinha enrolando a birita gole por gole nas noites mais difíceis. Como a semana já estava uma merda, dessas em que o sol castiga só por existir, decidi não deixar mais nenhuma gota naquela garrafa. Por isso, peguei a maldita. Pensei em reaproveitar o copo sujo de café e tomar o restinho ali, de gole em gole, mas seria muita cordialidade da minha parte e a cordialidade também se foi com o anjo bom. Por isso, tomei impulso e virei o veneno no gargalo.

Se passaram três horas, o Pica-pau já tinha acabado, já estava começando a gostar de outro desenho: Billy e Mandy. “Essa merda deveria ser proibida para crianças”, soltei enquanto gargalhava. Contudo alguém interrompeu meu desenho de novo. A batida na porta dessa vez era mais forte: TOC,TOC,TOC,TOC,TOC. O intervalo mal durava cinco segundos e logo recomeçava. Uma batida típica de policial, agiota ou cobrador de aluguel. Graças ao acaso, não tinha vínculo com nenhum dos três.

As batidas continuavam sem parar. “Já vou cacete! Já vou…”, gritei. Achei que era a velhinha vindo reclamar da forma como falei com a garotinha. Tirei a bunda do sofá e fiz o drama até a porta novamente, sentia um pouco de remorso. “Tô indo, pô!”. As batidas pararam ao me ouvir. Estava sem camisa, com o cabelo pro alto, a garrafa de Whisky na mão, o umbigo sujo e com o zíper provavelmente aberto. Quando abri a porta, a reação foi diferente da primeira vez. Abri olhando para o chão, procurando a garotinha, entretanto o rosto, dessa vez, estava no alto, bem mais alto. Assim que encarei aqueles olhos lindos, temi pelo zíper. Pois sem poder fecha-lo ficaria rendido. Quem batia na porta era uma mulher. Uma ruiva desgraçadamente maravilhosa! Sem dúvidas a mulher mais bonita que já vi em toda minha vida. E não era o álcool que estava renderizando um rascunho de gente, ela era realmente muito boa. Boa demais pra mim, meu corredor, meu apartamento ou para o bairro inteiro. Caso raro, padrão Noruega. Os seios, a coxa, o sorriso, o nariz, as unhas, o vestido preto, detalhado, apertado… Ah! Uma modelo! Sem dúvida alguma. “Puta que pariu…”, sussurrei quase babando. Tentei, mas não consegui segurar.

Olá, bom dia! – Ela disse e sorriu.

Uma voz doce, porém firme. Perfil padrão de dois tipos de mulheres: das que exercem a lei e das que estão fora da lei. Ou ela é dessas que te joga num buraco pelo resto da vida para pagar pelos pecados, ou ela é dessas que te deixa no buraco pelo resto da sua vida graças ao prazer de cada pecado.

Oi, madame! – Respondi. E continuei – Você também tá procurando a velha do 608?

Estava, mas já lidei com ela. Vim falar com você.

Comigo? Olha, se você é mãe ou irmã daquela garotinha, peço perdão de imediato. Não estou muito bem da cabeça, acho que fui rude com ela.

Rude? Rude é pouco, você foi um monstro! Porém não é nada surpreendente, você sempre foi um ogro, puxou ao pai.

Como é?

Isso mesmo. Eduardo, certo?

Sim, sou Eu. E você é a…?

Não vai me convidar pra entrar? – Ela ajustou o vestido propositalmente, tive uma ideia mais ampla do poder daqueles seios.

Não pensei duas vezes.

Claro, entre. Só não repare a bagunça.

Ela saiu entrando… Olhou tudo ao redor, passou os dedos entre os moveis e soprou a poeira das unhas. Depois, sentou no sofá, no lugar onde eu estava, e cruzou as pernas. Fechei o zíper de mansinho, segui seus passos e sentei logo ao lado. Ficamos olhando pra TV sem dizer nada um pro outro. Eu não conseguia pensar e acho que ela sabia disso.

Deseja beber alguma coisa? Eu devo ter um suco ou um leite em algum lugar… Tinha um restinho de Whisky até ainda pouco, mas eu acabei com tudo, desculpa – Torci para ela não pedir nada além de água, pois realmente não tinha nada.

Não precisa, Eduardo. Está tudo bem.

Então… No que posso ajuda-la?

Ela não me olhava, ainda estava virada pra TV. No desenho, Billy pegava a foice e corria pelo bairro para lá e pra cá. Ela ficou balançando a cabeça em sinal positivo, totalmente séria e sem dizer uma palavra.  Seus olhos eram lindos! Lindos, mas frios. De um avelã mortal. Pareceu-me o olhar de quem já estava morta há pelo menos seis anos. Quando do nada, sem motivos aparentes, ela sorriu. Em seguida, puxou um papel dobrado que estava encaixado em algum lugar do sutiã e começou a ler;

Bem, vejamos… Só preciso confirmar se você é realmente quem diz ser, ok?

Oxi… Tá! Acho que é a primeira vez que ouvi isso, Ha ha ha. Por mim tudo bem.

Ok, vamos lá; Eduardo – Eduardo Carvalho. Possui 39 Anos, bebe, fuma, sofre de insônia e curte comer cebolas cruas; um resquício do trauma de infância, dos tempos em que tinha medo de vampiro. Divorciou-se três vezes, sempre culpando as companheiras. Não possui filhos, não se formou na faculdade, não possui carteira de motorista e foi reprovado nos testes do exército. Ah, também só passou no curso de segurança porque piscou o olho para o coordenador geral do curso. Por sorte, o cara era gay. Sei que não chegaram aos finalmentes, mas você permitiu que ele passasse a mão na sua coxa enquanto bebiam num bar. Ãh… Continuando: possui uma unha que está sempre encravada, desde os treze anos, possui uma micose em estado avançado, um fígado que não funciona muito bem e é calvo. Além de sofrer com ejaculação precoce e de já ter tido mais ou menos cinco religiões diferentes. Hoje você não tem nenhuma… Quer dizer, só torce para o Vasco – fato que, pessoalmente, considero pior que seu tempo perdido no hinduísmo – Aqui também diz que tu gosta de artes, desenhos, esportes, pescaria, pornografia e jogo do bicho.

Ela terminou de falar e mastigou o papel posteriormente. A cena me deixou boquiaberto.

Oh, porra! Que merda é essa? Acho que já entendi o que tá rolando aqui… É você né Flavinho? Tá armando pra mim? Esse safado já tentou me pregar uma antes! Onde estão as câmeras? Quem é você, mulher? É da TV? –  Fiquei pasmo! Meio puto, mas pasmo. Só poderia ser algum tipo de pegadinha;

Flavinho está em casa agora na rua quatro, alimentando um passarinho que ganhou de ti numa aposta.

Ah, sério? O que? Como você sabe?

– Eu sei de muitas coisas.

Tô vendo!

Entendo sua irritação a verdade é amarga, como um remédio, contudo você se acostuma ao gosto.

– Dana-se então. Eu não sei o que foi que ele te disse, mas aquele pássaro morreria se ficasse comigo, ok! Aqui faz muito calor.

Sei… vou anotar seu pessimismo aqui também.

Espera, como você sabe disso tudo? E qual é o seu nome, porra? Tu não falou até agora.

Isso tudo… o quê?

Esses dados sobre mim, quer dizer, não que sejam verdadeiros, e também, bom, como você sabe do paradeiro do Flávio?

Se eu te contasse, você não acreditaria.

Ela realmente puxou um lápis e anotou algo sobre meu pessimismo na palma das mãos. A cena toda era hilária demais, culpei minha bebida. Achei que fosse algum tipo de delírio, que a soma da pomada com a bebida me enlouquecera ou que, porventura, uma aranha tivesse me mordido enquanto cochilava. Comecei a achar que, talvez, ainda estivesse deitado no sofá, seminu, roncando na mesma frequência dá risada do Pica-pau. Então, resolvi dar um fim na história;

Escuta querida, já que não se trata duma pegadinha, estou quase convencido de que nada desse nosso papo é real. Acredito que a qualquer momento você vai entrar na TV ou na geladeira e tipo partir para outra dimensão sem deixar rastros. Não quero acordar no susto, pois não conseguirei dormir de novo e como você já deixou claro, sofro de insônia. Por isso, que tal você se adiantar e se dissipar de uma vez, hein? A não ser que você esteja a fim de trepar comigo… Seria um prazer acordar gozado. Já estava pra tomar banho mesmo.

Não seja um babaca Eduardo, pelo menos uma vez na vida – Ela me cortou.

Eu que estou sendo o babaca? Uma gostosa entra na minha casa sem se identificar, sorri pro nada como se fosse uma autista drogada, mastiga um papel que arrancou do próprio peito e, pra variar, sabe tudo sobre a minha vida. Como você quer que eu aja? Babaca é pouco, conheço gente que já teria lhe dado umas vassouradas.

Tentaram com espadas uma vez, não deu certo. Uma vassoura seria novidade.

Ok, desisto. Você é biruta.

Pelo contrário, criança. Sou a pessoa mais sã que você já conheceu.

Criança? Ah, foda-se.

Cocei a cabeça com força, levantei e desliguei a TV. Fui até a cozinha, lavei o copo. Mexi numas caixas em cima da geladeira, achei algumas casas de aranha, cotonetes usados e dois cigarros. Peguei meu isqueiro que estava guardado no buraco do tijolo, voltei novamente pra sala. Acendi o meu, dei o outro a ela, nem mesmo perguntei se ela curtia ou não. Todavia não foi necessário, ela aceitou na hora, completamente muda. Acendi o dela. Tragamos, não se ouvia nada além das baforadas. As cinzas caiam em qualquer lugar, a bagunça do apartamento demonstrava que a minha faxina estava atrasada a pelo menos três meses, ela realmente não dava a mínima, nem pro cheiro. Era muita ironia, não havia um padrão, nada fazia sentido, as coisas não se encaixavam. Ninguém vê modelos europeias em choupanas no manguezal, totalmente adaptadas a sujeira e a vida na natureza. Nosso cérebro não é acostumado a unir mundos opostos com facilidade, era fácil aceitar minha confusão. Como uma garota tão fina, tão limpa, tão educada, fosse assim, maleável, sem nojinhos, frescuras ou toda cheia de nhê-nhê-nhê, como as garotas normais? Qualquer outra, de uma conjuntura bem menor do que essa que ela aparenta ser e ter, não teria resistido ao meu ambiente, digamos, singular. Já teria dado no pé. Ela realmente não ligava, isso era suspeito. Fora o fato da safada me conhecer profundamente… Não! É totalmente inexato. Eu precisava descobrir o fundamento disso tudo.

Bom, eu vou perguntar mais uma vez senhorita e eu espero que sejas sincera comigo.

Bom cigarro. Pelo menos pra isso você tem bom gosto – Ela disse de forma aleatória.

Não me irrite…

Ok – Ela virou pro meu lado, ficamos de frente um pro outro – Pergunte, Eduardo.

Sem rodeios, beleza?

Beleza.

QUEM DIABOS É VOCÊ?

Eu sou a Morte.

Como é?

Ela gargalhou e afirmou novamente;

É isso ai criança, Eu sou o anjo da morte.

No exato momento em que ela/ele/seja lá o que for disse aquilo, meu cigarro caiu. Não escutei mais nada além de um zumbido infinito nos ouvidos, acho que era o anjinho bom que voltou me dando uma bronca. O barulho do vento arrastando a janela, a vida lá fora; os palavrões, o trânsito, as vozes embaralhadas… Tudo simplesmente desapareceu. Era melhor colocar a cabeça rapidamente no lugar, tinha a sensação de que o dia estava apenas começando…

 

Parte 2

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