Triunfo

Oi, boa noite.

Sei que você reparou no vazio do meu olhar quando me viu passando. Um amigo em comum contou sua opinião horas depois. Segundo ele, você disse que foi tudo muito rápido, mas que deu pra notar uma certa indiferença e distração em mim. Perdoe-me pelo que vou dizer, mas suas observações foram muito superficiais, querida. Ao contrário do que presumira a verdade é que, naquela tarde, o “vazio” do meu olhar não tinha nada a ver com a velocidade do seu ônibus, ou da música que tocava no meu fone de ouvido. Eu não estava distraído, pelo contrário: eu também te vi. Não foi um olhar estranho, foi o olhar sincero, quiçá o mais sincero de toda minha vida. Pela primeira vez em tantos meses, pude observa-la sem me envergonhar. Reparei o tamanho real do seu cabelo e das suas unhas, a exata textura da sua pele, a cor dos seus olhos, seu tom de maquiagem e as variantes do seu sorriso. Céus! Pela primeira vez não rolou um aperto no peito, minha garganta não ficou seca, as pernas não bambearam, minha transpiração estava dentro do normal. Não! Não tem a ver com indiferença meu bem, o que você viu é o que sou. Ou melhor: quem sempre deveria ter sido. O contraste entre o antes e o agora é que antes eu estava completamente apaixonado por você. Só que aprendi a te esquecer e gostei quando consegui. E… Acredite! Conseguir não acenar pra você dá rua foi por si só, um ato de felicidade.

Pra ser sincero, acho que entendo o motivo pelo qual você nunca acreditou no meu amor. Creio que seja pelo fato dele nunca ter realmente existido. No passado eu dizia que te amava, porque achava que te amava. Entretanto estava redondamente enganado e o tempo me provou isso. Eu nunca senti amor por você. Era paixão, sempre foi a maldita paixão. Alterando minhas escolhas e cegando meus sentidos. Sabe… Existe uma clara diferença entre a paixão e o amor, my sweetheart – quando amamos, ficamos completamente fascinados por todas as características de uma pessoa. Aceitamos pela forma como ela é, independente de todos os defeitos e adversidades. No entanto, quando estamos apaixonados, nos encantamos por um conjunto de detalhes que no fundo não possuem nenhuma razão lógica. Um perfume que cega, um tesão que aprisiona, uma vontade irreal de possuir todos os frutos que a personalidade da desejada tem pra oferecer, sendo eles podres ou não. De uma maneira geral, nos comportamos como fumantes abandonados no deserto, trancados numa abstinência infinita, sem poder tragar unzinho por décadas. Eu me apaixonei pela sua inteligência, pela sua deliciosa retórica, pela sua feminilidade, sensibilidade, espiritualidade e compaixão. Nada que não seja previsível em oitenta por cento de todos os homens que se aproximarem de você durante sua vida. Porém essa paixão envenenou meu coração, invertendo os polos magnéticos do meu espírito, obrigando-me a me rebaixar, a correr atrás, a insistir e a batalhar por alguém que nunca me deu valor como homem. Alguém que nunca se importou com as canções, poesias, presentes, palavras, atitudes, ou piadas sem graça que inventei durante todas as aventuras dessa jornada pela sua atenção.

Se fosse amor, teria acontecido. Ah, sem dúvidas teria! O amor normalmente acontece porque sua abordagem é humilde e verdadeira, está além das vibrações que se baseiam unicamente no prazer. Não te culpo, não me culpo. Simplesmente aconteceu, minha vida era você. Contudo superei. Para isso funcionar é claro, foi necessário se afastar, recomeçar longe de você. Substitui-la com a primeira que apareceu sem muitas pretensões na vida, quem sabe tentando se livrar da mesma doença que me carregou. Sim, eu te vi passando. Mas não senti felicidade, muito menos tristeza. Te vi como uma página virada, um rascunho preso em algum lugar da mesa, uma folha manchada pelas gotas do meu melhor vinho, apenas esperando o momento de ser jogada fora. Sim, eu te vi passando. E carrego no fundo a certeza de que, no seu universo, ainda sou a folha do caderno que você jamais comprou. Meu afeto ou meu desdém, não farão diferença. Não há um vazio no meu olhar, há minha plenitude! Prazer em conhece-la. Você estranhou quando encarou porque pela primeira vez em todos esses anos, você não se enxergou nos meus olhos. Agora não sou mais seu espelho, sou um completo desconhecido, tente me decifrar… Quem sabe você encontra o que sempre precisou.

2 comentários em “Triunfo

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  1. ” O amor normalmente acontece porque sua abordagem é humilde e verdadeira, está além das vibrações que se baseiam unicamente no prazer. Não te culpo, não me culpo. ”
    Não sei mensurar o tamanho do meu amor pela sua escrita. Que texto! Me atrevo a rascunhar, por intromissão:

    Eu te vi passando e não quis dizer seu nome, a garganta não quis matar a sede com a água do seu corpo e meus braços não quiseram abraçar você com uma força descomunal, até que arrebentassem. Eu vi você de longe e não quis aproximação. Daqui, de onde te olho, penso em como é bom lembrar teu gosto, teu cheiro, timbres e tons e sentir o mesmo que você: nada.

    Beijos e parabéns! ❤

    Curtido por 1 pessoa

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