Sorte

Hoje de manhã ainda chovia, mas quando abri as janelas percebi que se podia sentir e ver o sol.  Apático. Antipático. Ele continuou lá. Reluzente. Convidando-me a colocar mais do que a cabeça para fora e ir conferir de perto o dia e o tempo novo que se fazia.

Pisei descalça naquele chão molhado e senti a água gelada tocar os meus pés. Observei cada flor intacta e toda pétala caída. Algumas plantas pareciam sorrir, em outras como no Lírio da Paz, claramente se via uma expressão que dizia que a chuva já estava exagerando.

Mais à frente avistei muitas plantinhas de um verde cor de esperança, cor de sorte e também… cor de fantasia. Aproximei-me. Ajoelhei-me. E os meus olhos viram e descobriram pequeninas folhas em formato de coração bem manejadas e articuladas em galhinhos frágeis e finos. Azedinha – pensei – mas não era, era trevo!

Tamanha foi a alegria ao encontrar um canteiro inteiro de sorte no meu quintal que sorri sem perceber. Deve ter nascido da chuva de hoje à noite, ou de tantas outras que a precederam, não me lembro de observar. Preguiçosa.

Apressei-me logo em procurar um de quatro folhas. Logicamente não encontraria no primeiro, ou no segundo, nem no terceiro. No vigésimo também é normal que não se encontre. Porém em todos não haver sequer um trevo da sorte fez-me constatar que algo de muito errado acontecia entre mim e o universo.

A chuva estiou, dando a oportunidade que o sol esperava para exibir-se ainda mais. Apático. Antipático. Sortudo. Casado com a lua.

Sorte não se nasce no quintal – Atentei-me a isso. Nem em lugar nenhum. Não suponho sequer que exista. É coisa da fantasia. Tem cor de trevo. Frágil. Ilusória. O sol talvez não tenha sorte. Sabe-se Deus se ele não se cansa de ser a estrela principal de planetas como a Terra, e é de conhecimento geral que é mentira essa história dele e a lua terem um caso. Ele também deve encontrar muitas pessoas por ai que como eu se recusam por orgulho seu inocente e quase diário convite de observar o tempo. Pisar no chão descalço. E contemplar o planeta fora de casa. E isso é azar. Tanto desamor e dor!

A sorte não deve mesmo existir, e se existe, ninguém tem.

 

Dizem também por aí
Que o acaso é algo menor
Que o destino é escrito e o tempo
O sabem bem de cor
Como um roteiro a seguir
Sem dedos de improvisação
E a vida seria letra de canção
Atonal, presa no refrão
Sem ter espaços a preencher
Com corais pra fazer
O universo se surpreender

– Leo Cavalcanti

 

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