I Guess That’s Why They Call It The Blues

As flechas surgem nos momentos de fragilidade. As dores aparecem mediante ao temor. Os golpes atestam a traição, o desespero conclui a infelicidade. Nem as trevas noturnas são tão deprimentes quanto os dias mais cinzas. A solidão da noite não é nada quando comparada ao conjunto de horas esperando uma solução, aguardando pelo pior, encarando problemas cada vez mais inimagináveis, intensos, infinitos.

Minhas antigas carcaças se acumulam no quarto. São os rascunhos de cada um dos fracassos, comprovantes de décadas tentando, mudando, recomeçando, se adaptando, se ajustando. Lendo a bula do remédio, ouvindo a fala do psicólogo, fazendo a simpatia da semana, devorando as propagandas do rádio. Uma pena que nada adiantou, nada nunca adianta. Meu corte de cabelo é novo, mas os dias continuam cinzas.

Já concentrei tanto rancor que no ápice do acúmulo, meu veneno é lançado entre os espaços dos dentes, sempre num gesto ou dois, num sorriso ou outro. A maioria dos sujeitos que percebem não sentem pena, sentem-se vivos. Eles também possuem seus rascunhos e gostam de saber que não estão sozinhos no inferno. Hoje eu não existo, beberei por três dias. É o luto natural a mais uma das chances deixadas, abandonadas e perdidas… Já passou.

Mas a sobriedade não traz apenas uma nova carcaça, uma dor de cabeça. Toda vez que recomeço sou preenchida pela fé de que nem as flechas, nem as dores, nem os golpes, nem o desespero, nem as trevas e nem o céu nublado, serão capazes de me vencer novamente. Como uma lutadora que não se entrega ao nocaute, sigo até o fim, com a boca sangrando, com os dedos quebrados, com a falsa sensação de proximidade da vitória. Independentemente do tamanho, largura e conjuntura das adversidades.

Apanhar do destino se tornou tão rotineiro que desistir dele assim, sem mais nem menos, seria desrespeitar o próprio espírito, o próprio impulso dá vontade, a própria faculdade de elaborar desejos. A vida é uma chuva de acontecimentos sem sentido, dependentes da nossa narrativa para obtenção valor. Continuarei tentando, me descascando como serpente, até não suportar mais e, um dia, quem sabe, transcender como aquela que jamais – jamais! – se entregou…

9 comentários em “I Guess That’s Why They Call It The Blues

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  1. Aí você me desconcerta…intitulando com uma das minhas favoritas de Elton John??? Rs mas vamos ao texto: você ilustrou bem uma derrota, meu amigo, mas também ilustrou bem quem, ciente de suas limitações, vai ao encontro do obstáculo inevitável. Que jeito bom de começar meu fim de semana. Abraço e beijo (sim)!

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