Novembros e lembranças

É começo de novembro, as chuvas tomam violentamente os sertões, os céus se vestem de raios intangíveis, a vegetação já acorda do sono noturno, na mente apenas lembranças de um findar, como se o sol escolhesse não alumiar mais os mortais. A parecer os ventos fortes a saudade se recusa a partir, e junto a mim apenas um disco de Vital Farias e um chimarrão para me aquecer nesse feriado chuvoso… Veja bem, não posso chorar pois sou estóico! Pensamentos e histórias passeiam em minha mente, do que me lembro agora? De Andrea Doria, a música de Legião que não me faz mentir… leitor, não dê crédito a essas insensatas palavras, pois nelas só há tristeza e melancolia, não há final feliz como nos filmes. Minha vida é marcada por novembros, desde então tais tem sido minha sina.Uma combinação de situações sem sentido que tem marcado minha passagem por aqui, lembranças de um antigo amor que vagam a me encontrar. O que posso fazer perante tudo isso? Há apenas dois caminhos nessa aporia, um deles é permanecer firme como um legionário romano suportando tudo internamente e não dar sinais qualquer do que estou sentido. A segunda escolha é eternizar em versos, poemas e lamentos tudo isso, mesmo que não venha a resolver, mas o rio em seus circuitos precisa encontrar-se com o mar inevitavelmente. E estou eu aqui, por palavras soltas lhe contanto uma dessas coisas que surge em nossas vidas para nos machucar e quebrar-nos por inteiro. Faz parte da vida também o sofrer…

(Acontecimento real com um amigo meu)
Novembro 2012
Quem fala? Um adolescente magro de 13 anos que está em um período de descobertas, muitas delas da idade, e cheio de duvidas também… Não consigo chamar atenção de nenhuma garota, nas listas dos garotos mais feios da sala é decisão quase unânime minha presença. Sou dotado de uma personalidade tímida, não gosto de socializar muito por insegurança, infelizmente ainda me importo bastante com o que os outros pensam de mim… É comum os atletas me perturbarem no colégio das piores maneiras possíveis, no entanto não consigo ser ruim, o que é um ponto fraco meu, ser ruim em muitos casos é necessário para o desenvolvimento humano, mesmo que ser rude não traga respeito as pessoas vão pensar duas vezes antes de te ofender. Essa disponibilizade para ajudar é o que tem me atrapalhado.
Um conhecido meu disse-me que sou bonzinho porque sou de peixes, mas não consigo acreditar muito em signos e não tenho nenhum interesse em aprofundar no assunto… Mas não sou feito apenas de pacificidade e covardia, ontem agredi outro garoto por ter me provocado o ano letivo todo, mas logo sou tomado por um arrependimento curioso, talvez não era para eu ter feito aquilo com o menino, a vingança pode trazer problemas lá na frente… Os jogos e animes preenchem meus vazios existenciais ou pelo menos engana-os momentaneamente, são minhas atividades favoritas.
Na sala ao lado vejo sair uma bela moça segurando uns livros empoeirados de literatura, seus olhos são verdes e sua pele marrom, faço contato visual e nada mais depois disso por causa da zona do conforto. Nesse colégio por incrível que pareça são poucas as pessoas que gostam realmente de ir a fundo na leitura, geralmente só vão para merendar, ficar, e zoar com a colegagem… Desperta em mim uma atração por ela, seu nome era Sofia.

Novembro 2013
O mundo não acabou em 2012. Dessa vez tive sorte, ela estuda na mesma sala do que eu, sinto-me cada vez mais atraído por ela… Em alguns momentos jogamos conversa fora, ela, diferente das demais não me trata mal e se interessa pelos devaneios que falo da vida. A garota sorri sempre para mim e tem sido uma boa companhia nesses dias difíceis… Sei que é o momento ideal de falar pra ela o que sinto, mas o medo de se repetir a maré de foras me toma por inteiro… Os colegas dizem que não devo perder a chance com ela, pois ela é doidinha por mim, o que não acredito por completo…
É final de mês, época das provas, nesse dia ela me dá a notícia de que está se mudando para São Paulo com a mãe e que pode não retornar mais para a cidade, não me explica o motivo da partida, o que aumenta minha desconfiança. Fico bastante chateado com isso, mas não falo nada ainda… No fechar da semana ela se despede de mim e dos demais colegas, a acompanho até os portões do colégio e recebo um adeus e um beijo quase no canto da boca e um papelzinho amassado com seu numero de telefone, parece que perdi a oportunidade mesmo… E a culpa era totalmente minha por não ter rolado nada.

Novembro 2014
Passei a gostar bastante de futebol, e sou chamado para jogar constantemente com outros garotos do colégio, minha vida social melhorou bastante, começo a ouvir musica ruim e a ficar com algumas garotas em off. Começo a interagir com a galera do fundão, porém em casa ainda mantenho minha rotina fixa de estudos, meus professores dizem que tenho vocação para se tornar um historiador futuramente. O tempo me fez bem, nem de longe eu era mais aquele garoto franzino, fiquei forte pelo efeito dos picos de testosterona da idade e também pelos esportes.
A noite surge uma solicitação no Facebook, quem é? Ela mesmo, a Sofia… Ela está bastante diferente em aparência, cresceu bastante e ganhou um corpão, por esperteza vou olhar as publicações e as fotos dela. A chamo para conversar, e em algumas horas colocamos os assuntos em dia. Não tivemos muita dificuldade em papear, o que é um bom sinal. Ainda tenho um leve interesse por ela, mas sabe né, ela não está mais aqui.. E se eu tivesse a beijado aquele dia? Toda a realidade haveria se alterado em uma nova equação.

Novembro 2015

É ano de vestibular, e fim do Ensino Médio. A procura de um emprego abandono meus amigos da manhã e vou estudar no noturno… Lá conheço pessoas novas e revejo conhecidos de antigas datas. Ainda não sei que rumo tomar da minha vida, gosto das incertezas e de viajar em diversas opções. Nas variáveis de opções da matricula escolho cursar História e em segunda opção Engenharia.
Os colegas e professores organizam um jantar, é um findar de um ciclo para mim, me arrependo bastante de não ter aproveitado ao máximo meus tempos de escola. É o que sempre digo, no final você vai se arrepender do que não fez. A noite em um tom de despedida estou a confraternizar com meus colegas e em uma atitude corajosa pego o microfone e faço um discurso marcante citando Aristóteles e pregando a brevidade da existência. Sou pego de surpresa ao olhar para o fundo e ver a Sofia ao lado de um colega meu conversando, fui lá cumprimenta-la e tentar criar um clima. Perguntei curiosamente o que ela estava fazendo de volta na cidade, ela disse-me que prestaria o vestibular para Letras, e que pretendia morar aqui novamente.
Vejo ela a semana toda, porém na companhia de um colega dela, o que impossibilita uma aproximação mais intensa.
Finalmente prestamos o vestibular e fomos aprovados, no entanto ela não quis ficar aqui na cidade, resolveu voltar para SP, nessa segunda despedida abri o jogo de forma discreta para ela, no entanto a resposta não foi a das melhores, ela disse-me que éramos apenas amigos e que estava ficando com o ex.

 

Novembro 2016
Nos vais e vens de indecisões e viagens, a gente começa a namorar e finalmente a tenho para mim, tudo vai bem, menos a distância, ela vem em vez em quando para a cidade para a casa do pai o que cria os momentos de contato juntos. Estamos inteiramente apaixonados um pelo outro, consegui quebrar o que chamam de zona do amigo. Parece tudo termina bem como nos filmes né?
No entanto sou acometido de diversos sonhos e intuições de que devo abandona-la, de inicio não dou muito crédito a essas coisas, pois não são tão lógicas.
As brigas só aumentam, o sentimento perde seu vigor, porém ainda a quero muito bem… Infelizmente a solução que encontramos foi de terminar o relacionamento, ela não queria de jeito nenhum morar fixamente aqui na cidade, e eu, com meu apego ao regionalismo, jamais moraria em uma grande cidade como São Paulo…
Cada um seguiu seu caminho, e perdemos o contato um do outro, porém ficou gravado em mim as lembranças e momentos juntos. Algo que me dizia que ela seria bastante feliz, mas não a meu lado.

Novembro 2017
Estou relativamente bem só, não me envolvi sentimentalmente mais com nenhuma mulher, em mim fica as lembranças memoráveis dos momentos em que passamos juntos. Apesar das diferenças, eu gostava bastante dela e não consegui guardar nenhuma mágoa após o termino.
O que me deixava com muita raiva era não mais falarmos, ela havia posto fim as redes sociais e havia trocado de número, não vinha mais a mim nenhuma notícia dela. Mas isso já era meio que previsível, não existe tanta amizade entre ex namorados… No entanto eu queria saber se ela estava bem ou precisando de alguma coisa.. Odeio perder contato com quem já foi tão próximo.
Os dias passam e a saudade fica impregnada em meus pensamentos, de noite começo a sonhar com ela, no entanto no sonho não a vejo comigo, mas se casando com um desconhecido, e eu estava impotente, só a observar o casamento dela… Acordei suado e trêmulo e falei: José, é penas é um sonho, vá lá e volte a dormir, esqueça essa moça…
Ao amanhecer fui na casa de um colega em comum e perguntei se ele tinha informações da Sofia, ele disse-me que ela se casaria naquele mesmo dia e me mostrou a foto dela e do rapaz, era idêntico ao que sonhei na noite anterior. Um conjunto de coincidências que a razão não consegue explicar, como se eu tivesse saltado no tempo e visto o futuro.. Se fiz alguma coisa? Não, apenas mandei nosso colega a desejar felicidades por mim, não posso anular o que estava destinado a acontecer. Eu sei, já vi tudo isso antes… Nem sempre se tem finais felizes.

 

Terminei de lhe contar minha história, e o chimarrão já acabou. Andrea Doria de Legião faz som de fundo.
O que vai acontecer por tantos novembros porvir?

 

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