Imodéstia

No latim a palavra vanitas, significa tanto vaidade quanto vazio. Ou seja, quando vivemos pela vaidade, vivemos pelo vazio. A vaidade tem cheiro, tem cor e múltiplos nomes. Está no agir, no pensar, no falar, no criar, no desenvolver. E, como escreveu certa vez o frânces Stendhai, a maior parte dos homens do mundo, por vaidade, por desconfiança, por medo da infelicidade, só se entregam ao amor de uma mulher após a intimidade. Ao meu ver, Stendhai estava certo. Esse talvez seja o motivo pelo qual algumas mulheres acreditam firmemente que podem despertar o amor de um homem apenas com suas habilidades sexuais. Existe um pouco de verdade nisso, existe um pouco de mentira. Para realizarmos a distinção, precisamos compreender dois pontos. Primeiro: “a maior parte dos homens”, não significa todos os homens. E cá entre nós a maior parte dos homens são realmente idiotas, verdade seja dita. Não por cultura, religião ou grau de conhecimento, a idiotice masculina transcende esses detalhes técnicos, ela é quase… quase um padrão genético. Poucos são os homens que ultrapassam esse padrão ou nascem sem ele. Essa minoria corresponde a parcela masculina que fica ofendida não só com as palavras de Stendhai, como também com todos os demais insultos genéricos existentes no mundo. Segundo: quando cito “algumas mulheres”, obviamente descrevo um grupo que não representa a maioria feminina, muito menos sua totalidade.  Simboliza somente uma minoria que se especializa na arte de assegurar a fidelidade masculina através das frações de orgasmos.

Explicado os pormenores, vamos avançar no assunto. Se analisarmos a afirmação do escritor com um pouco mais de carinho, descobrimos que os três motivos que levam o homem a se entregar são, no fundo, a mesma coisa. Quem precisa provar do sexo para aceitar o amor é egocêntrico, quem precisa provar do sexo para adquirir confiança é presunçoso. No fundo, tanto a presunção quanto o egocentrismo são braços da vaidade. Numa rápida conclusão: a maioria dos homens, segundo Stendhai, não aceitam o amor sem provar da luxúria porque são vaidosos. E se eles são vaidosos, então também são vazios, etimologicamente falando. Quando buscamos na história, descobrimos que a vaidade está ligada ao amor pelo mundo e pelas coisas que nele há. Ao pensar na palavra, muitos a associam com a ambição, lascívia, paixão, gula, soberba e alguns dos outros tantos pecados capitais. Mas amar o mundo e as coisas que nele há englobam até mesmo atributos considerados positivos, como a busca excessiva pela sabedora e o acúmulo de conhecimento, como desabafou o angustiado Salomão no segundo capítulo de Eclesiastes. O fascínio vaidoso parece estar ligado a índole humana, é a chama tanto pelas coisas físicas quanto as inerentes ao próprio caráter.

Persevera no mundo atual uma escama nos olhos de quase toda população, elas impedem o público de realizar uma das principais indagações sobre a vida. Ainda dentro do contexto de Stendhai, matutamos: que tipo de amor é esse que precisa provar do prazer para existir? Será o mesmo amor louvado pelos profetas, poetas, cronistas, historiadores, letristas, psicólogos, românticos, religiosos e humanistas desde os primórdios das civilizações? Provavelmente não. Todavia, ele continua sendo amor, ou ao menos é apresentado como amor, seja por confusão, seja por convicção. Ele é o amor “da maioria dos homens” e também é o amor sobre todas as coisas vãs que o mundo pode oferecer. Aparentemente o autor percebeu o outro lado do principal sentimento que rege o mundo, como uma moeda que possui duas faces, o amor parece ser desenhado de forma obscura no decorrer dos séculos, como arma principal da vaidade ou talvez, sua própria manifestação. É intrigante sabermos que na progressão do comportamento humano existe, por um lado, um sentimento puro, divino, nobre, atemporal que rege o bem, a felicidade e a satisfação, mas por outro, um sentimento carnal, erótico, orgulhoso, narcisista e, sobretudo, vazio. É ainda mais intrigante percebemos que muitas das vezes esses opostos recebem o mesmo nome.

E você? Qual amor carregas no peito? Será que você realmente ama ou só está sendo iludido pelo parque de diversões ofertados pelo nada? Sente-se, beba um pouco e observe o céu. Não se espante se perceber que faz parte da maioria dos homens. Na verdade seria um traço bem comum, até mesmo tolerável. Contudo há tempo para evoluir todas as coisas, incluindo seu próprio lado idiota…

 

 

 

“Amor Profano (vaidade)” – Tiziano Vecellio (Titian) – óleo sobre tela – 1514
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2 comentários em “Imodéstia

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  1. Esse “amor louvado pelos profetas, poetas, cronistas, historiadores, letristas, psicólogos, românticos, religiosos e humanistas desde os primórdios das civilizações” não é mais vendável, nunca foi fácil de produzir ou consumir.
    O “amor de motel” é bem simples e acessível, ainda que haja certos obstáculos e desafios para conseguí-lo no “jogo da conquista”.
    Esse amor ideal depende de tantas coisas que “a maioria dos homens” tem preguiça dele, preferem que ele venha ao seu encontro. Eu mesmo me pego, por vezes, desistido dele, mais porque não encontro quem o queira (por meio de mim) do que por desacreditar (posto que, na única vez em que acreditei, fui muito bem sucedido, apesar dos meus erros).
    Obrigado pela peça, Leo!

    Curtido por 1 pessoa

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