Deixa pra lá!

A sala estava uma bagunça porque todas as coisas ainda estavam empacotadas. Paloma sentou no sofá girando as chaves da nova casa com a mão direita. Havia ficado entediada, faltava apenas uns dez por cento para o tédio consumir seu cérebro de vez. tinha muito o que fazer, não sabia por onde começar. Seu relacionamento estava péssimo, seu parceiro não percebia. Na mão esquerda segurava um copo de requeijão com vodca pura e gelo, na sua frente havia um quadro torto de pelo menos oitenta centímetros com a foto do James Brown, paixão eterna do noivo. Hector estava parado na janela lendo um livro que tirara de uma das caixas e, por falar em caixas, elas estavam por todos os lados – grandes pequenas e médias. Não fazia muito tempo que os dois chegaram a São Paulo, acabaram de estrear o apartamento novo próximo ao Ibirapuera. Os caminhões deixaram o condomínio há vinte minutos, as mudanças foram soltas por todos os cômodos, o céu estava nublado, o dia silencioso e o casal com preguiça. “Estou te dizendo: tem alguma coisa errada. Qual era mesmo o nome da loja que te vendeu essa garrafa?”, perguntou Paloma. “Não interessa. É original, relaxa e beba.”, respondeu Hector. “Tá horrível!”, ela retrucou e continuou; “Tô dizendo… Eu já bebi Ciroc antes. Alguma coisa está muito errada com isso aqui”. Hector ignorou o comentário e deu um alerta, “Você não deveria beber tanto”, disse e não parou por ai, “Vou ter que trabalhar mais tarde e você ficará com as caixas, ok? Se ficar bêbada poderá quebrar meus discos”, finalizou. Paloma se irritou automaticamente:

Pô! Você vai trabalhar de novo? Sábado a noite? Que sacanagem, tá sempre ausente. Eu vou ter esse trabalhão todo com a arrumação sozinha?

Fica quietinha, chuchu. Estou tentando ler – Respondeu Hector.

Paloma engoliu a resposta, aquilo arranhou a garganta, o coração, a paciência. Passados alguns minutos, Hector acendeu um cigarro e começou a gargalhar. Começou baixinho e foi aumentando o volume, uma tentativa falha de incomoda-la, de quebrar a barreira da mudez. Pegou a primeira folha que viu pela frente – parecia ser um recibo qualquer – e colocou na página do livro que estava lendo. Saiu defronte a janela e caminhou na direção da noiva que não parecia estar nem ai pra sua animação. Ficara claramente chateada com o comentário anterior, qualquer um perceberia, menos ele. Em seguida, sentou-se no braço do sofá, cutucou-a e começou a falar;

Escute – ele disse.

Ela continuou bebendo e olhando para o quadro na parede, não por gostar do cantor; estava perdida nos pensamentos.

Paloma, veja o que esse cara diz sobre o amor. Que velho babaca!

Ela sentiu o tom de ironia. Estavam noivos há seis anos. Se conheciam a oito. Certamente não havia mais nenhum modo, tique, sinal, tonalidade ou trejeito que ela desconhecesse.

Leia de uma vez, cacete! – Paloma pediu e virou o copo todo de uma só vez.

Ok, ouça: “[…] O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece…”

Uaaaal! Que romântico hein!? Quem é o autor? – Ela perguntou. Obviamente não havia achado nada romântico, dessa vez o bastão da ironia estava com ela.

Bem. Não sei o nome dele. É difícil falar o nome do cara – respondeu. Em seguida, fechou o livro com o recibo marcando a página, pretendia sair do sofá e voltar para seu canto.

O tédio consumiu a porcentagem faltante na cabeça de Paloma, ela não permitiu a saída do noivo, teve como reação uma atitude completamente inesperada da parte dele, mostrou um lado que ele nunca conheceu. Num lance extremamente rápido, ela jogou o copo de requeijão no rosto do cara. O copo bateu na testa, mas não quebrou, do contrário: desviou, rolou por uma pequena caixa com pouco mais de meio metro e caiu sobre o tapete.

AI… MERDA! SUA MALUCA! – Hector gritou e colocou a mão direita na testa. O sangue começou a descer do corte no supercílio.

Paloma correu em sua direção e deu um tapa na sua cara. Logo depois, jogou-o no chão e subiu em cima dele. Tinha coxas grossas, pernas bem trabalhadas, nádegas de causar inveja; tão forte quanto bela. Hector ficou deitado lá, como um rascunho vivo de macho delicado e imperfeito. “Meu olho, ah, meu lindo olho! O que você fez?”, dizia sem parar. Sentada entre o estômago e o tórax, Paloma estava com as mãos na cintura. O cabelo amarrado e um olhar de raiva. Hector iria começar a chorar, todavia lembrou que era ele o homem da situação, então prendeu o choro. Olhou para sua mulher e perguntou surpreso:

Por que diabos você fez isso comigo, chuchu? É pela vodca? Eu trago outra pra você mais tarde…

Para de me chamar de chuchu! Não sou chuchu. Você é um covarde, um frouxo e inútil. Um merda! Eu estive tão quieta, por tanto tempo… Não acredito que te suportei todos esses anos! Agora eu percebo: jamais conseguirei passar uma vida de verdade ao seu lado.

Como assim? Do que você está falando? Estava tudo tão bem – Disse Hector, desesperado.

Bem desde quando? Defina “bem”, por favor. Dr. Sabe tudo! Há meses ando infeliz, só você não percebe. Há meses troco sua companhia pelas noitadas de fim de semana. Isso porque qualquer desconhecido tem uma presença melhor que a sua, seu babaca narcisista. Você não reage, não se importa se estou feliz, se estou satisfeita, se estou carente ou não.

Não era minha intenção! Não precisava ter me batido, você machucou meu rosto, cara! Eu só queria que você tivesse um pouco mais de liberdade, saísse com as amigas enquanto eu focava nos projetos da empresa e tudo mais…

Vá se foder, Hector! Não faz diferença pra você se a sua mulher está tomando todas do outro lado da cidade sozinha, ou se está transando com seis homens ao mesmo tempo. Você só pensa no tom da sua pele, na nova maquiagem masculina que chegou ao Brasil, nas reuniões da empresa, nas planilhas, nos seus amigos do golfe. E por falar nisso: porra, golfe! Você está no Brasil! Seja brasileiro, seu lixo! Vá jogar uma pelada no domingo, suje a roupa de barro, entre em casa me pedindo desculpas com um lanche e flores nas mãos. Arrume a bagunça e me leve pra dançar a noite. Depois, faça amor comigo a noite toda, por diversas vezes, ao ponto de perder o horário do trabalho. É pedir demais? É pedir demais que você perca a hora do trabalho pelo menos um dia? Você chega lá primeiro que o porteiro, meu Deus! Que tipo de gente faz isso? Tudo o que eu quero é um homem comum e nem pra ser comum você presta!

Hector olhava para o rosto da noiva completamente pálido. As lágrimas que caíram do rosto dela foram parar em sua ferida, fato que causou uma leve ardência, mas para um sujeito do nível dele, aquilo era de uma tortura a nível da inquisição europeia. Não conseguia mais suportar o martírio e, por isso, começou a se redimir, sem saber exatamente por onde começar.

Meu amor, não fale assim. Eu amo você, eu sei que as vezes tenho meus momentos de individualidade, de frieza, mas eu jamais te colocaria em segundo lugar. Só precisamos sentar e conversar sobre as coisas. Sei que o trabalho me deixa ausente, mas entenda! Veja quantas coisas conquistei graças a ele. Estamos em São Paulo agora, baby! Uma vida nova, totalmente nova. Podemos recomeçar aqui, confie em mim.

Já me cansei das suas promessas Hector, você não muda nunca. Dá a mesma desculpa por quatro anos seguidos desde que entrou nessa maldita multinacional. Você só fala em números, passa a madrugada no celular, tem medo de ratos, desmaia ao ver sangue, paga alguém para trocar uma lâmpada, pelos céus, você faz isso! Contigo eu tenho que ser o porto seguro, tenho que ser aquela que está sempre cedendo, tenho que vestir as calças, resolver os problemas, trocar os canos, matar as baratas. Tenho que controlar suas dívidas infantis, tenho que colocar maturidade na sua cabeça. São oito anos acreditando em você, remendando você. Não quero mais essa vida. Dana-se São Paulo, não haverá um metro quadrado de alegria por aqui enquanto dividirmos uma vida.

Paloma se levantou, andou até sua mochila que estava largada próxima ao sofá. Puxou a garrafa da vodca, pôs na boca, virou e ficou por uns dez segundos. Tudo que se ouvia era o som da sua garganta. Hector sentou no chão e levou as mãos na testa várias vezes. “Sua vadia, o que você fez? Como ficará minha aparência para o jantar de logo mais? Droga, droga”. Depois de se lamentar, suplicou;

Por favor, Paloma. Pegue um pouco de álcool pra mim. Está lá na cozinha. Isso está sangrando muito, estou preocupado. Talvez seja melhor ligar para o hospital – ele pediu fazendo bico, estendendo o braço na direção dela. Paloma se aproximou do noivo.

Olha pra mim – ela ordenou. Ele olhou para o alto. Ela então, sem demonstrar um pingo de pena, jogou o que restou da vodca no rosto dele.

Ai! Isso arde! – gritou Hector. Foi o gatilho pendente, ele então, finalmente, começou a chorar.

Sente o gostinho… Será que a bebida é mesmo original, amor? – Paloma perguntou.

Quando a bebida acabou, ela jogou a garrafa no quadro que, por conta disso, caiu. Logo após, sentou novamente no sofá. Percebeu que estava só de calcinha, então vestiu o jeans. Soltou o cabelo, assoprou o suor nos seios, estalou os dedos e voltou a falar.

Posso te fazer uma pergunta? – Falou olhando nos olhos do noivo.

Não obteve resposta. Hector choramingava sem parar. Ela então pegou o livro que estava entre as almofadas e deu uma olhada na capa.

Charles Bukowski, han? Conheço. Ah, Hectorzinho… O que você tem de masculinidade não completa a unha do mindinho desse cara.

CALA A BOCA SUA DESGRAÇADA! – Gritou o noivo entre sangue, lágrimas e catarro. Alguns fios de seu cabelo loiro grudaram na ferida.

Posso te fazer uma pergunta? – Paloma tentou novamente. Ele consentiu de cabeça baixa.

Se você me ama, então porque vive lendo sobre o “lado B” do amor, da felicidade e da bondade? Quando não é esse comentário do Bukowski, é sempre alguma coisa pesada da Lispector, ou da Tati Bernades, ou Gustave Flaubert… Isso quando não te pego ouvindo Rod Stewart baixinho no banheiro. Qual é o seu problema, hein, “Mozão”? Você por acaso é ga…

Não! Não sou gay! – Ele interrompeu a fala da noiva, rasgando o próprio berreiro.

Okay – ela esticou um sorriso forçado e continuou – Se você não é gay, então qual é o problema contigo? Isso é algum trauma de infância? Você não tem depressão, não tem câncer, não está doente, então por que insiste em viver nessa melancolia pessoal? Há momentos em que tudo se abre pra você, mas você vai lá e se tranca sozinho nesses pensamentos tristes. Sobre o amor, bem: a cada frase negativa dita sobre o amor, existem outras mil positivas em defesa dele. Então porque você não equilibra a balança? Por que não lê as coisas boas também? Porque me trata como se eu fosse um pedaço de carne? O problema sou eu? Onde está seu amor por mim?

Hector não respondeu à pergunta, lançou um ultimato sem conversa;

Saia dessa casa. Está tudo acabado, não quero te ver mais – Ele disse, finalmente se levantando do chão.

Paloma jogou o livro na direção dele, ele pegou.

Droga – ele disse – vai querer quebrar minhas unhas também? Sua barraqueira – Complementou.

Paloma ficou em silêncio, por ora teve pena. A sensação era de estar lidando com uma criança. Pudera… Seu noivo foi criado pela avó que sempre deu tudo que ele queria, independente da moral ou preço. Como consequência surgiu um homem que se importava mais com as unhas do que com a resolução do próprio relacionamento. Ela então saiu do sofá, abriu algumas caixas, pegou uma parte das roupas e adicionou também na bagagem. Foi até a sacada, catou seu guarda-chuva. Depois de tudo preparado, olhou para o noivo e estendeu o dedo do meio.

Adeus Hector, mandarei alguém pegar o que é meu.

Aquilo despertou uma fúria enorme no companheiro de longa data. Seu sangue ferveu, ele jogou o cabelo pra trás num ar de superioridade e começou a bravejar.

Pra onde você vai? Vai voltar pro interior? Sua vaca! Eu te dei uma boa vida. Te tirei daquela favela, ajudei a pagar sua faculdade, te dei roupa, lugar pra morar, um anel de ouro e já estava quase te dando um maldito sobrenome. Esse é o seu jeito de retribuir? Vai voltar pra onde? Pra casa da sua mãe? Aquela piranha que te deixava no colo do vizinho tarado enquanto trabalhava fora por quinze dias? Vá se ferrar! Não precisa voltar aqui, mandarei colocar fogo em tudo que é seu!

Paloma travou com os dedos na maçaneta da porta. Bufou. Estava cega de ódio. Deu meia volta e correu na direção de Hector. Ele, por outro lado, correu para o banheiro e se trancou. “Socorro! Alguém chama a polícia! Ela vai me matar!”, dizia sem parar. “Vai mandar alguém colocar fogo nas minhas coisas, seu projeto de gente? Nem pra riscar um fósforo você presta né? Alguém tem que fazer por você!”, ela replicava. Paloma respirou fundo, jogou a mochila no canto do corredor, pegou impulso e chutou a porta, Hector levou a pancada no lado de dentro, caiu e bateu a cabeça no vaso, ficou deitado no chão frio, de pernas abertas, com uma mão na testa e outra estendida e forma de rendição. Paloma entrou e chutou seus bagos: “poft!”.

Ah! – Ele deu um gemido seco e mordeu a língua.

Nunca mais desonre minha mãe, nunca mais repita o meu nome.

Hunhuuuum….. – Ele sequer conseguia falar.

Ela então pegou um curativo adesivo atrás do espelho da pia e jogou na face do rapaz. Saiu do banheiro, colocou a mochila novamente e largou o apartamento. Saiu do prédio, deixou o condomínio, atravessou a rua e entrou numa padaria. Comprou uma garrafa d’água e um maço de cigarros. Eram quatro da tarde, ela caminhou em direção ao parque e ficou observando as pessoas. Alguns casais de namorados, jovens cantarolando e tocando violão, velhinhos se exercitando, dentre outras coisas. Depois, ligou para a rodoviária e viu que havia passagens disponíveis para sua cidade natal. Contou algumas moedas, tirou umas notas amassadas, fez sinal para um táxi e saiu dali.

Hector saiu do banheiro vinte minutos depois da pancada nos ovos, após a décima quinta tentativa, conseguiu riscar um fósforo com sucesso e colocou fogo nas fotos com Paloma. Enquanto queimava, escreveu um textinho falando mal dela no Facebook. Pisoteou nas roupas da ex-noiva e cuspiu em cima. Em seguida, foi tomar uma ducha quente. Duas horas depois, como se nada tivesse acontecido, ele vestiu um terno, passou um pouco de maquiagem, ensaiou algumas falas no espelho e seguiu para o jantar de negócios. Pegou seu Honda Civic 2017 na garagem do prédio e dirigiu em direção ao centro. Na rádio tocava “Vento no Litoral”, da Legião Urbana. Apesar de não gostar da banda, ele deixou a música acabar. Assim que a faixa chegou ao fim, ele plugou um pendriver e selecionou uma playlist pessoal chamada “a vida como ela é”. A primeira faixa a tocar foi “Back to Back”, da Amy Winehouse. Quando a voz de Amy alcançou o coro, Hector começou a chorar novamente, puxou o celular do bolso, tirou uma selfie e publicou no Tumblr tendo como legenda outra frase famosa de Bukowski: O amor é um cão dos diabos…

 

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