2049

Na primeira vez que a encontrei não pude ver seu rosto. Uma bolha de sabão entrou nos meus olhos no exato momento em que eles se preparavam para capta-la. As crianças fazem bolhas de sabão na praça, é gostoso… as bolhas combinam com o clima ensolarado e com as músicas matinais de domingo. Ao recuperar a visão, assisti quando as amigas a levantaram e jogaram no chafariz. Ela parecia não se importar… O vestido branco deixava escapar a cor de sua calcinha, porém ela não estava nem ai! Chegara a carta de aprovação na universidade. Não era preciso ser muito esperto pra perceber que aquela notícia entraria no hall de conquistas da sua vida, não era preciso ser muito esperto pra perceber que eu já estava apaixonado. Vi seu lindo sorriso, combinava com as bochechas rosadas. Jamais me esqueceria daquele rosto, daquelas sardas, ou daquele cabelo molhado. Graças a bolha, minha vista estava vermelha e pulsava. Mas não tanto quanto meu coração.


É! Eu me apaixonei. Pra ser sincero, nunca acreditei em amor à primeira vista, contudo como consolação dizia a mim mesmo que não a vi de primeira, pois a bolha não deixou. Digo, até vi, confesso, mas verdadeiramente na segunda tentativa. Era a desculpa necessária para não violar minha própria conduta masculina idiota. Sem viola-la não seria necessário assassinar meus sentimentos, ainda bem, uma vez que não estava nem um pouco a fim de assassina-los. Eu não conhecia a ruiva que me dominou, seus parentes ou sua terra. Não sabia seu nome, seus gostos, seu signo, seus hobbies, suas pretensões, suas qualidades ou defeitos. Todavia a amei! Ah, como amei. Amei com todas as minhas forças. Amei com timbre, com efetividade, com olência e de modo nítido sobretudo, fato perceptível até na modulação do meu respirar, qualquer terceiro poderia constatar. Com o passar dos dias, procurei-a por todos os lados durante minha estadia em Veneza. Pintei sua descrição para todos os ouvidos funcionais, entretanto não a encontrei.

 
As semanas se passaram e, sendo a vida simplesmente como é, no mais pleno exercício de seus tentáculos de expressão, a guerra que já assolava nossos vizinhos bateu na porta, desmantelando meus esquemas cuidadosamente moldados. Alistei-me contra o líbito de meu próprio coração, em louvor a honra da minha nação, do padrinho, de mio padre e da família. Não havia completado vinte e três, provara muito pouco da vida. O melhor que senti não teve consumação, nem sequer fora compartilhado. Os poetas estão errados; a dificuldade com o amor não está no ato de senti-lo, isso é brincadeira de criança perto da maldição de não poder vivencia-lo.

 
Já chegando o dia de minha partida, vovô veio me abençoar. Deu-me seu anel como moeda para aquisição de um bom casaco. Povero nonno! Mal sabia ele que o frio seria uma das minhas últimas preocupações no pátio da morte. Sai pela manhã e, ao passar pela feira da cidade, percebi quando uma moça deixara sua maçã cair no chão. A moça era ela, sem dúvidas era. Pego a fruta, assopro, faço uma cena e depois devolvo, ajudo-a com as compras e então, finalmente, conversamos. Descubro seu nome, sua vila, sua casa, sem muito esforço. Ela me diz que está solteira e que já me observava, não só na praça, mas em outras estações. Conta que estudará gastronomia nos EUA, que voltará em quatro anos. Dou a ela o anel de meu avô, juro meu amor e imploro para que não me esqueças. Sua face regressa ao tom rubro, sinto-me lisonjeado por isso. Sinto que meu amor foi recebido com a mesma importância de sua aclamada notícia. Ela consentiu no olhar, no balanço da cabeça e no silêncio proposital. Foi embora em seguida. Voltei ao lar feliz, pleno e ganho.

 
Entretanto a verdade é que eu nunca voltara daquela guerra, assim como ela nunca voltara dos EUA. Conquanto me senti privilegiado até o último momento, abençoado por uma dádiva sem par. Os segundos da morte até doem para aqueles que amam e são correspondidos, todavia não doem tanto como as décadas da vida para aqueles que amam e não são correspondidos. Entre as duas opções, valeu-me a primeira. Uma história tão linda quanto frágil, que nem a bolha de sabão…

7 comentários em “2049

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  1. Chega a ser engraçado esse nível de consciência sobre as “dores” do amor. Sabe-se que dói porque dizem. E quando dói em nós, dói muito mais do que nos contaram. E mesmo assim é desejado. Correspondido ou não. O amor é desejado porque é o que faz a gente ter certeza de que existe. Ou existiu. Maravilhoso!! Emocionante!! ❤

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    1. Pois é, minha querida. Acredito que seja um sentimento moldado de forma exclusiva dentro de cada um. Tão único quanto as digitais. Podemos viver sem dá ouvidos ao seu balanço, mas a resistência é amarga. Até mesmo quando se resiste com razão.
      Obrigado por comentar. Você é 10. Sempre.

      Curtido por 1 pessoa

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