A Hipocrisia nossa de cada dia

Trabalhar a noite destrói a cabeça de qualquer cidadão. Ninguém em sã consciência consegue manter essa pegada por muito tempo sem perder um pouco a sanidade. Minha empresa, pra variar, ficava bem longe de casa. Dirigi durante duas horas até chegar no meu bairro e quando faltavam apenas três quarteirões, lembrei de alguns itens básicos que estavam pendentes na minha despensa. Fiquei puto comigo mesmo, dei uma pancada no volante. A buzina disparou sem querer, uma mulher que caminhava com o cachorro me olhou feio da calçada. “Ah, tá olhando o quê, tia?”, suspirei. Dei uma freada horrenda para desviar de um bueiro sem tampa e, logo em seguida, joguei o carro na contramão. Cai pra esquerda, entrei numa rua sem saída, fiz o contorno e segui em direção ao mercadinho que ficava ali perto. Minha única preocupação era com o horário, eu largo muito “cedo”, sequer havia dado sete horas da manhã. A rádio tocava um MPB meloso, o sol matinal fez a minha barba coçar. Isso foi bom por um lado, pois me fez lembrar que minha aparência pós serviço não é lá das melhores, precisava “dar um tapa” na situação e foi o que fiz – abri o porta-luvas, coloquei meus óculos escuros. Gostava dos óculos escuros, por ser ruivo, eles me faziam parecer o Nando Reis. Eu detestava o apelido, mas até que era uma boa massagem de ego. Passei a mão no cabelo, fiz umas caretas no retrovisor, meti a mão no bolso direito, puxei um chiclete, relaxei no banco e aumentei o volume do rádio. Cheguei minutos depois, fiquei surpreso quando vi o mercadinho aberto. “É isso ai! Dei sorte”, exclamei. Mas enquanto pegava a carteira e trancava o carro, lembrei que o dono costumava abrir o estabelecimento de manhã para vender pães. Logo não tinha nada a ver com sorte. Por ora relaxei, mas naquele momento eu não sabia o quanto as coisas iriam piorar.

Entrei no mercadinho e fui direto para seção dos enlatados. Peguei três latas de ervilhas, virei alguns corredores. Catei mais dois pacotes de biscoitos, temperos, uma vodca, macarrão instantâneo e papel higiênico. É de conhecimento público que a lista de compras masculina é completamente impulsiva. Surge de acordo com a necessidade. Ainda mais se o macho em questão já está na casa dos trinta anos e é solteiro. Depois de tacar os itens dentro da cestinha, caminhei em direção ao caixa. No caminho peguei uns sucos em pó, um aparelho de barbear e uma manteiga. Fiz um sinal para um garoto da portaria para ele separar o meu, pois eu voltaria mais tarde. O garoto era responsável pelos frangos assados, porém as delícias só iam para grade depois de meio dia. “Beleza ruivo, volte depois”, ele disse. Finalmente cheguei a fila do caixa, visualmente ela era cômica, quase uma propaganda política. A moça na minha frente deveria ter uns sessenta anos, era gordinha, baixinha e tinha um coque engraçado. Carregava uma bíblia na mão e uma toalhinha de rosto sobre o ombro, havia um casal de lésbicas depois dela com uma aparência pós-balada. Uma delas usava bastante piercings e tinha um moicano roxo. Mais à frente estava um rapaz negro, bem alto e forte, usava uma camisa de basquete e falava ao telefone. Por último, parada em frente ao caixa, estava uma transexual. Eu a conhecia de outros carnavais, mas no bom sentido; conhecia sua personalidade anterior, seu apelido era “Lulinha”. Jogávamos bola juntos, nossos pais são amigos. Não sei como ele se chama atualmente, a única coisa que sei é que por causa de Lulinha a fila não andava. Ele/Ela estava muito puto com o operador de caixa, estava exigindo a nota fiscal. Se dependesse exclusivamente dele, passaríamos o resto do dia ali.

Eu também conhecia o operador de caixa, ele era parente do dono do mercadinho. Acho que seu nome era Luiz. Ele não parecia ter muito talento com computadores, seu olhar deixava isso bem claro. Era um nordestino que infelizmente andava desleixado, com a blusa desabotoada, tinha também uma cicatriz no rosto e já passava dos cinquenta anos. Até seu espirro carregava o sotaque. Insistia o tempo inteiro para Lulinha esquecer sua nota fiscal;

Escute, meu senhor…

Senhor não, é senhora! – Respondeu Lulinha.

“Sinhora”! Desculpa! Mas a máquina deu pau. Já liguei lá pro Suporte, os caras estão resolvendo. Espia só: veja a tela mexendo. Eles estão fazendo tudo por lá. Volte mais tarde que ai eu te dou tua notinha.

Vou repetir mais uma vez Luiz; todo estabelecimento é obrigado a dar a nota ao cliente, ok? Isso é lei, querido. Eu gastei trinta e cinco reais aqui, exijo o meu cupom fiscal! – Lulinha já estava ficando vermelha.

Nossa! Tanto escândalo pra tão pouco? – murmurou a senhorinha na minha frente.

Pois é – Concordei.

O rapaz fortão desligou o celular, ficamos todos observando a cena da trans. Ela usava calça legging e um top. O Sr. Luiz estava tão nervoso que ligava para empresa responsável pelo Suporte de trinta em trinta segundos, contudo parecia errar o número todas as vezes, sua mão tremia bastante. Sempre desligava em seguida sem obter respostas.

Ai, ou! Ô Veado – Disse a garota de moicano pra Lulinha.

O que foi? – Respondeu.

Para de fazer tanta questão disso cara, porra. Se fosse uma compra de mês tudo bem, mas são só trinta mangos. Quanta frescura. É cedo, tá geral com fome, com sono, todo mundo aqui tem o que fazer… Libera o caixa! É só um cupom…

Só um cupom, o caralho! – Interrompeu Lulinha ajeitando o top – o dinheiro não é meu! É de um amigo. Preciso da nota para mostrar que comprei nessa espelunca aqui.

Oshe. Espelunca não! – Disse Luiz.

Cala a boca, seu cearense safado – Respondeu Lulinha.

E daí, cara? Problema é seu. Quer ficar pegando dinheiro emprestado com cliente, já não basta o que eles pagam pelo teu programa? – A menina de moicano soltou essa já saindo da fila e abrindo os braços. Parecia querer briga, sua parceira tentava acalma-la de todos os modos; em vão. A noite deve ter sido boa porque as duas estavam visivelmente bêbadas.

Como é que é, sua sapata! Tu tá querendo morrer, vagabunda? Cala a tua boca, escuta o que tua parceirinha ai tá dizendo. Engula a língua, tá! Vá pra casa levar umas dedadas e não se meta nisso aqui. – Lulinha apontava o indicador para ela. Só a unha já dava metade do meu dedo.

Eu não aguentei, peguei um pacote de amendoins, abri e comecei a mastigar. A senhora na minha frente iniciou uma oração baixinho.

Gente, gente. Qual foi, povo! – Gritou o rapaz fortão com a blusa de basquete. E ele continuou – Calma pessoal, é fácil resolvermos isso. Ninguém precisa cair na porrada aqui. Deixe-me ver: Sr. Luiz, Sr. Luiz!

Luiz não deu atenção ao rapaz porque estava dando ordens ao atendente do frango assado. Queria que ele fosse chamar o dono que morava ali perto. O fortão ficou bolado, andou até a área exclusiva ao operador de caixa e colocou uma das mãos no ombro de Luiz.

Se liga só – ele disse – Qual é o telefone da empresa? Deixe-me ligar pra lá e resolver isso para o senhor. Tenho uma noçãozinha de informática.

Não precisa não negão, eles já estão mexendo. Eu já disse! E tu não pode ficar aqui hein, logo em cima da caixa registradora. Se meu chefe te pegar aqui, passa a faca em nós dois. Volta pra fila! – A situação toda fez Luiz perder a cabeça

Como é que é, meu irmão? – Respondeu o rapaz.

É isso mesmo, ora! – Disse Luiz.

Sou preto agora só porque sou bandido? – Ele gritou dando um tapa na caixa registradora.

O que? Não! – Respondeu Luiz gaguejando.

Oh porra, Aff. Quer dizer: sou bandido agora só por que sou preto?

N… Não senhor, só entenda que.. Só entenda. O Senhor não pode ficar aqui – Disse Luiz olhando pra baixo.

Então que papo foi esse? Por que esse medo de me deixar perto do caixa? Tá me expulsando do mercado agora? Ficou maluco irmão? Eu só queria te ajudar, cacete. Vou te processar!

Eu também vou! – Disse Lulinha – Tá vendo só? Negão, além de burro ele também é preconceituoso, deve ser por isso que está me negando a nota.

Não me chama de negão não, rapaz. Eu tenho nome – Respondeu.

Não me chame de rapaz não, sou uma MULHER – Disse Lulinha.

Ei amigo, qual é o seu nome? – Perguntei ao negão.

Edmilson.

Edmilson, prazer. Sou Henrique. Olha; volta pra fila cara, não vale a pena. O dono mora aqui perto, conheço ele. É gente fina. Deixa isso quieto – Conclui. Estava doido pra ir pra casa dormir, aquela situação estava dando nos nervos.

Ele vai ter que me dar um desconto por tudo isso – Respondeu Edmilson. Depois, retornou para a fila sem tirar os olhos de mim.

Lulinha ficou olhando o rapaz de cima em baixo, enquanto mascava um chiclete e enrolava o cabelo usando aquela unha do indicador, maior que meu dedo. Ao fixar os olhos na bunda dele, não resistiu e soltou um: “delícia”.

Gente! Acho que estou passando mal – Disse a senhorinha na minha frente. Ela começou a trocar as pernas e deixou a bíblia cair no chão.

Pronto, agora a gorda vai apagar – Soltou Edmilson.

Porra irmão, não era você que estava cobrando respeito? – Respondi.

Eu peguei a toalhinha no ombro da velha e sequei seu rosto. O resto da galera ficou olhando pra trás.

A senhora quer um pouco d’água? – Perguntou a namorada da menina do moicano, tirando uma garrafa da mochila.

Não, não quero não. Obrigado, filha. Ufa. Ai Jesus. Dê minha bíblia, meu filho. Minha bíblia.

Devolvi a bíblia dela.

Gente desculpa, acho que foi minha pressão. Quero falar uma coisa com vocês, todos vocês! Quero fazer um pedido. Algo que senti no meu coração: que tal se fizéssemos uma oração agora? É domingo gente! Domingo de manhã. Dia de adorar ao Senhor. Não faz sentido ficarmos aqui discutindo por tão pouco. Então vamos parar e fazer uma rápida oração, apenas por um minutinho, assim nosso Senhor fará esse computador funcionar e logo poderemos ir embora.

Ah, qual é! – Debochou Lulinha. – Tem que orar pra esse cara deixar de ser burro.

O restante do pessoal ficou conversando, não deram ideia para a cristã. Olhei para o fundo do mercado, o padeiro estava lá, rindo de tudo. Depois do pedido negado, sem se importar com a opinião alheia, a senhorinha começou a orar sozinha, dessa vez falando em voz alta. Eu acabei com os amendoins. Fui até o lixo e joguei o saco fora. Voltei pra fila em seguida. Ela terminou a oração, segundos depois, o telefone tocou. Luiz atendeu.

Ok? Han? Ah sim, sim. Tudo bem. Imprimiu sim. “Agradicido”.

Ele colocou no gancho e anunciou a novidade pra gente;

Pessoal o técnico me disse que o sistema já voltou a funcionar, vamos lá.

Porra! É isso ai! – Exclamei.

Ufa. Agora esse veado vai calar a boca – Disse a menina de moicano.

Preconceituoso do caralho – disse Edmilson.

Eu? – Respondeu a menina.

Não, o caixa. Esse racista – Concluiu.

Como podemos ver pessoal, quando todos nós nos concentramos para o bem, as coisas dão certo. Temos que trabalhar a paciência, respeitar as diferenças – Falou a senhora cristã.

É isso ai – Disse uma das garotas.

Edmilson sorriu, As meninas também. Luiz pediu desculpas a Edmilson, logo em seguida. Ele aceitou. Lulinha pegou a nota e os produtos. Acredito que tenha ficado sem graça por todo show realizado e por isso, se desculpou com Luiz também, deixando, inclusive, o troco para ele. A menina de moicano pediu perdão a Lulinha enquanto ela ia embora do mercadinho rebolando. Ela gostou e retribuiu: “pelo fim do preconceito, gata. Hul!”. “Amém!”, respondeu a menina e deu um beijo na sua parceira. “O importante é o amor ao próximo”, disse senhorinha religiosa. “Dessa forma, tudo acaba bem”, finalizou.

Pouco antes de Lulinha deixar o estabelecimento, ouvimos um som de freio muito forte vindo da rua. “Shhhhhhhhh!” Parecia uma moto.

Cuidado moleque! Quer morrer? – Gritou a voz do piloto lá fora.

Parecia ser a voz do Mauro, dono do mercado. Pelo que deu pra perceber ele havia acabado de se desviar de um rapaz, por pouco não rolou um acidente.

Desculpa. – Respondeu o menino. A quase vítima não parecia ter mais de onze anos. Ele entrou no mercado, sem camisa e descalço, com uma latinha de leite vazia nas mãos.

Lulinha segurou o garoto pelo braço, levou-o até a fila, pegou a garrafa de água da menina de moicano e deu ao garoto. Ele bebeu até a última gota.

Você está bem, cara? – Perguntei.

–  Tô sim senhor – respondeu.

E do que você precisa? – Perguntou a senhora evangélica.

Eu moro com minha avó – respondeu o menino. E continuou – Meus pais morreram, minha avó é cega e eu tenho outros dois irmãos pequenos que dependem da gente. Gostaria de saber se os senhores poderiam me ajudar com uma moedinha, por favor. Nós não temos nem o que comer hoje.

Que merda, hein! Ninguém merece. Tchau! – Disse Lulinha.

Ah, pirralho! Tu bebeu minha água toda pra isso? Sai pra lá. – Disse a menina do moicano.

Se você organizar minhas bolsas eu te dou vinte centavos – Disse Edmilson.

Tenho nada não filho, tenho só pro meu pão. E tô atrasada pro culto – Disse a senhorinha.

Eu olhei direito pro garoto, ele parecia ter ralado o joelho lá fora. Seus olhos de fome me deram pena. Paguei meus produtos, dei o troco e um dos pacotes de biscoito pra ele. Entrei no meu carro e fui pra casa dormir. No caminho fiquei me perguntando qual era o significado de amar o próximo…

 

 

 

11 comentários em “A Hipocrisia nossa de cada dia

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  1. Surpreendente, Leonardo! A diversidade é o nosso bem mais precioso, não só de nós brasileiros. Você suscitou uma série de questões e acho que isso é o melhor que a arte tem a oferecer. Amar ao próximo pra mim é talvez impossível, caso inclua todos. Os preconceitos e as tretas fazem parte de nós, mas devemos sempre exercitar o puxar do nosso tapete. Assim, mudamos e outras pessoas adquirem mais direitos de viver.

    Curtido por 3 pessoas

    1. Sim. Concordo. Estamos numa fase de transição social. Não só o Brasil como no mundo, muitos valores estão sendo revisados, outros, já esquecidos, estão sendo relembrados. Espero que surjam muito mais coisas boas do que ruins ao final disso tudo.

      Curtido por 2 pessoas

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