Chão de giz

O teu cheiro me rasga a pele, sua presença é meu vício, e a tua voz o meu descanso.

– João Pessoa, 1967

 

Mais uma vez me encontro com ela no local combinado, 22:35 da noite, Maria Ana, razão existencial de meu viver e também de meu sofrer. Teu cheiro flor de laranja me possui, e faz-me esquecer da vida. Por maldição não a tenho, e nem poderei ter, o elo do pecado que se faz na alma. Uirapuru? Não penso sequer nas consequências desse romance, pois ele é minha sina, meu destino e minha morte.

Teço os meus dedos sobre os cabelos de minha senhorita, e fico a admirar seus olhos de avelã, Lentamente puxo o seu vestido cinza para cima, enquanto ao fundo, no rádio toca uma música lenta das bandas de São Paulo pra lá. Ela está com um lindo broche dourado no cabelo, presente que a dei mês passado com um dinheiro que ajuntei, a boca dela é provocante, ainda mais com esse batom vermelho. Mordo-lhe o canto da boca, e ouço lentos suspiros. Mãos pardas que se tocam no ar.

– Para José! Não vou lhe beijar gastando assim o meu batom, não posso chegar hoje em casa com a boca borrada para não dar pista. E eu já te disse para não se prendermos um ao outro, a gente tem que acabar com nosso caso, eu já te falei!

– Vamos fugir meu amor, eu tenho um primo no Maranhão que pode nos receber por um tempo, enquanto endireitamos nossa vida, disse eu em um tom de desespero, porém ainda mantendo a postura.

– Ah Zé, eu tenho já meus 42 anos, e você é apenas um sonhador de 20, minha vida todinha está aqui na capital e não posso jogar tudo fora por um romance sem futuro. E além do mais, já deveríamos acabar com isso, já passou meu carnaval. Essa será nossa ultima noite. No final você vai entender que nada da vida é belo.

Discretamente faço um sinal de silêncio, e por contra vontade roubo-lhe um beijo. Jogando o cigarro que eu estava no chão. Naquele instante tenho o momento mais intenso de toda minha vida, uma sensação de medo em mistura com coragem. Como ter o que não posso ter? Homem apaixonado é um perigo, e suporta o sofrer com felicidade. Tenho o melhor namoro naquele momento, como se fosse o de despedida, por horas fizemos amor e se perdemos um no outro. 

De repente ouço compassos rápidos do lado de fora, e levanto da cama assustado, colocando as pressas minha calça e minhas botas de couro. E sem querer derrubo o radinho de pilha no chão cessando assim a música. Um pressentimento ruim me toma e vou devagarzinho arrepiado para a sala espionar a fresta da porta… E lá está o marido dela, Antônio Carlos armado com dois jagunços sussurrando baixinho… Volto para o quarto e dou o ultimo beijo em minha amada, com os olhos cheios de lágrimas, de medo não era mais, já cheguei a tal ponto de não importar mais com as consequências de nosso romance, apenas em amar-la intensamente. Uma eternidade se fez naquele beijo, e tremendo digo: Sempre a amarei, mais bravo que a morte minha flor, não se esqueça morena.

– Adeus Zé, te amo e o carrego em minha mente. Você foi o que deu significado a minha vida egoísta. Esquece de mim não!

Naquele momento a porta é arrombada, e ouço barulhos de tiros pela casa, corro em desespero procurando uma saída. A tropeçar em um caqueiro no canto da parede, dando assim indicação do cômodo onde eu estava. Um dos dois jagunços vem a meu encontro na cozinha, e aponta a espingarda na altura de meu peitoral, em um instinto me viro um pouco para o meu lado direito, e o tiro é dado, acertando meu ombro e varando em meu braço. Antes que a segunda bala fosse engatilhada, me jogo correndo em uma janela de madeira ao lado. O segundo tiro é dado, e por sorte, no escuro. Corro e salto o muro e saio desesperado pela rua, enquanto em minha retaguarda a perseguição continua… Marcas de sangue são deixadas na calçada, não só o sangue, mas memórias.

– Volte aqui diabo, para eu acertar essa entre teus olhos, gritou o jagunço que não era páreo para me acompanhar no corre corre.

Naquele momento literalmente eu havia deixado tudo para trás. O pouco de dinheiro que eu tinha ficou no bolso de minha jaqueta azul deixada lá na cama, meu maço de cigarros e meu isqueiro. O que a paixão não faz com a cabeça de uma pessoa? Corro de forma incessante ferido por algumas quadras sem saber para onde ir. Até que chego a uma rodovia movimentada e me jogo tonto na frente de uma caminhonete, os pneus cantam em uma orquestra pelo chão. O caminhoneiro desesperado saiu da cabine, pensando ser um bêbado tentando se matar. Desesperadamente imploro ajuda para fugir, e ele em pânico me levanta e me joga lá dentro da carroceria e corre para pilotar com as mãos cheias de sangue.

Agora pego um caminhão na lona vou a nocaute outra vez, desmaiado e perdendo muito sangue entre as mercadorias do camarada.

Sou levado às pressas para ser socorrido em um hospital no outro lado da cidade, o homem havia me deixado lá, e temendo a morte, foge sem mais nem menos em sua caminhonete preta. Sou anestesiado parcialmente, e em um devaneio começo a falar várias besteiras enquanto o médico retirava a bala que por sorte não cravou meu coração. Há meros devaneios tolos a me torturar! O médico pergunta o motivo do ferimento, desconfiado… Digo-lhe que fui vitima de um assalto para disfarçar os possíveis incômodos e identificação pública. Meio alucinado com os efeitos do anestésico começo a poetizar minha vida… Há tantas violetas velhas sem um colibri.

Foi por pouco, quase eu morria por uma mulher, mas se assim fosse, havia valido a pena. Duas semanas depois fui liberado do hospital, fui imediatamente para a transportadora da cidade e consegui com muita insistência com um conhecido meu uma passagem fiado para Cajazeiras, terra onde moravam meus pais. No mais, estou indo embora! Deixando amigos e um amor aqui…

Chegando lá procurei recomeçar minha vida do jeito que dava, porém com minha prenda pelejando em minha mente para fazer-me voltar para satisfazer meus vícios. Por muitas noites fiquei em claro, chorando com saudades, a lua por testemunha, sabendo que tudo tinha se acabado. Cada momento que passamos juntos se refez em minha mente como um demônio a me perturbar. Desacreditei por inteiro que havia chegado o fim. Por muitos meses achei que o marido dela havia a matado naquela noite para “limpar” a honra da família rica, até que vi uma foto deles juntos em um jornal em Fevereiro de 68, ele havia se tornado deputado federal pela Paraíba, e ela havia voltado infeliz para seu casamento de fachada, por amor aos filhos provavelmente. Dessa vez, ela andava por ordem do marido sempre cercada de seguranças para impedir de desconhecidos ou indesejados a fizesse contato, por medo que eu reaparecesse na vida dela. Sabia bem que não a teria mais por perto, mas que nossas almas estariam juntas para todo o sempre. Em surtos comecei a colecionar todo tipo de foto que eu encontrava dela nos jornais e revistas, como uma forma de ver como ela estava atualmente. Fotografias recortadas..Em jornais de folhas.. Amiúde!

O que aconteceu comigo nem Freud explica. Eu repetiria mil vezes se assim fosse o necessário, uma vida amada vale mais do que cem vidas sem coragem de amar. Essa é a história de um cidadão qualquer que viveu e sofreu…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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