Consequências

O cheiro forte de tinta se espalhava por quase todo escritório, a coisa andava complicada assim há semanas. Ainda bem que as obras realizadas nos corredores do prédio estavam acabando, logo a galera do contábil poderia voltar a respirar em paz. O negócio fica num edifício na Presidente Vargas, lá em cima, no vigésimo andar. É uma pequena empresa próspera com o ramo de varejo. Só trabalham sete pessoas no local, entretanto quatro delas faltaram. Não por querer, longe disso! É que o transito carioca foi um caos pela manhã. Os que conseguiram chegar mal sabiam que a volta seria bem pior… Típico de uma sexta-feira no Rio.

Amanda estava guardando algumas documentações na sala do chefe, um dos colaboradores ausentes do dia. Ela era a “patroa” na ausência dele. Brenda e Mathias estavam finalizando uma parte do trabalho na planilha compartilhada. Ele é contador, ela auxiliar administrativa. O escritório tem poucos metros, porém era provável que, com a porta aberta, fosse possível ouvir do corredor a velocidade de digitação do Mathias. Tec,tec,tec,tec,tec,tec… acelerava a edição dos dados sem fim, estava louco pra chegar em casa. Não havia nada de especial esperando por ele além de um engradado de cerveja e, talvez, pornografia. Mas cada latinha de álcool daquelas era seu conforto da solteirice. Era válida a velocidade, seu lado emocional agradecia. Num dado momento, Brenda olhou para o celular e sorriu. Virou para o amigo e soltou uma novidade;

Aí, te falei que tenho um encontro marcado hoje, cara? – Disparou Brenda com a voz embolada por um bocejo.

Não falou não. Mas bem, aleluia né! Achei que você iria, digamos, “mudar de lado”, não sei nem como não deu teia ainda aí. Hahahaha.

Hahahahahaha! Cala a boca, seu babaca. – Ela jogou uma bola de papel nele.

Não rir não! É sério! – Ele continuou – Nesse ritmo, pensei que ficaria sozinha pelos próximos dez anos.

Ah, não exagera, vai. Fiquei um ano e meio sem ninguém, já está ótimo. E você sabe muito bem o motivo disso ter acontecido.

Eu sei? Sei nada… Espera! Ata. Aquela frescura toda de “se fechar” para os homens? Lembrei. – Mathias falou num tom de deboche.

É. Mathias! Eu quis dar um tempo depois de terminar com o Thiago. Todas as aventuras que tive depois dele foram curtas. Pretendia ficar sozinha por um pouco mais de tempo, mas… Sei lá. Acho que está na hora de tentar novamente.

Saquei, show de bola. Mas diz aí: qual é o nome do cara? Esse coitado tem nome né? – Perguntou Mathias, girando a cadeira de rodinhas para o lado de Brenda.

Gabriel, seu nome é Gabriel. E ele não é nenhum coitado, tá. É um homão e tanto!

Hummm.

O que foi?

Nada. Me fale um pouco mais dele, como se conheceram?

Ele é um cara legal, bonito e bom de papo. Tem um sorriso maravilhoso. Nos conhecemos no aniversário da minha prima, sabe? A Duda.

Aquela baixinha?

ISSO!

Ok… E aí?

Bom, conversamos um pouco, trocamos números e estamos batendo papo há semanas. Não custa nada dar uma volta, né? Não será a primeira vez que saio com alguém depois do Thiago, mas todo o resto foi só amizade. Ele não… Eu quero pega-lo. Preciso daquele corpo.

Eita. Calma aí, mocinha. Recupere o foco… Diga; o que mais cê sabe sobre ele?

Bastante coisa… Ele é bombeiro, mora com os pais. É conservador, inteligente. Tem vinte e cinco anos. Ah! Tem mais: ele é tricolor, cara. Infelizmente.

Hanham. Bacana, bacana. Tricolor? Bom, nem tudo é perfeito. – Ele coçou o queixo.

Pois é, eu sei. Estou animada. Mas hey! Não faça essa cara, Mathias! Não tá rolando nada muito especial aqui, beleza? Não pretendo me apegar agora. Acho que vou brincar um pouquinho com ele, nada de me apaixonar. Depois de tudo que passei, ando um pouco mais fria pra esse tipo de coisa. Tô difícil, ponto!

A é? Você já falou isso pro Gabriel? Já disse pra ele não esperar muito de você?

O quê? Ficou louco? Claro que não!

Deveria… Se você quer só brincar com o cara, tem que deixa-lo brincar com você também – Respondeu Mathias enquanto puxava uma bala do bolso.

Ué. Por quê? Vai bancar o advogado dele, agora?

Não seja ridícula, Brenda.

Então se explique.

É muito simples, pô. Se o rapaz se interessou por você de verdade, então ele também espera uma retribuição verdadeira. É o mínimo. Que papo é esse de que “vai brincar” com o cara? Nem todos os homens são iguais, não jogue pra ele uma raiva que você tem pelo Thiago.

Brenda ouviu e balançou a cabeça de forma negativa. Roubou uma das bala do colega, abriu e respondeu;

Não é isso! Eu não vou jogar nenhuma raiva nele, vou segurar bastante a situação, ir com calma. Não quero deixar tudo fluir sozinho e depois quebrar a cara novamente. Você não sabe o que é viver seis anos com alguém e depois descobrir que esse alguém está dormindo com sua “melhor” amiga. É terrível! É doloroso. Tudo que você aprendeu sobre confiança vai parar no espaço. Vocês homens são todos iguais, não podemos baixar a guarda. Vou tratar na linha mesmo e acabou.

Não, nós não somos todos iguais, cara. Não começa.

São sim!

Não somos não.

São sim!

NÃO.

SIM…

O tom das vozes se elevaram. Amanda ficou bolada e interrompeu o bafafá feito pelos dois com um só grito;

OU! VOCÊS AI. CALADOS!

Ambos viraram novamente para a tela do computador. O silêncio dançou no ar por uns cinco minutos. Em seguida, Mathias continuou.

Vem cá, me diz uma coisa: o que o Gabriel tem a ver com isso?

Isso o quê? – Respondeu Brenda.

“Isso o que”? Qual foi, Brenda? Todo esse seu ressentimento. O cara está esperando algo recíproco, você quer trata-lo como um pedaço de carne. Isso não se faz.

Ah, deixa de ser dramático, meu bem. Ok, ok. – Brenda amarrou o cabelo – Já entendi onde você quer chegar…

Não estou sendo dramático! Há meses te vejo dispensando caras legais por pose, por frescura. Olha, pense um pouco – Mathias se agachou na cadeira, respirou fundo, passou as mãos no rosto e prosseguiu – O Thiago te traiu, sabemos. Só que isso não significa que o Gabriel fará a mesma coisa com você. Eu te conheço, porra. Você é doce, é amável. É interessante, tem uma boa lábia, se entrega para as coisas que gosta. Vai ficar fazendo jogo difícil com um cara legal por causa de um canalha? Deixa a merda do passado no passado, bicho. Dê descarga!

Nem tudo é tão mole, cabeçudo… – Brenda tentou interromper, mas foi logo cortada. Ele passou por cima;

Qual é! Eu juro que não entendo o porquê de vocês mulheres serem assim… É por isso que possuem tanta dificuldade de encontrar alguém, por causa dessa mania de transferência de culpa! Sabe quem sai ganhando com tudo isso? Teu ex! O Thiago. Ele te traiu, te machucou. É claro que todo mundo precisa de um tempo de luto, um tempo para se reerguer, mas você já estourou esse tempo. Você poderia estar pagando com a mesma moeda, ou tocando uma vida feliz com outro alguém, só que você não faz! Prefere machucar os homens que se aproximam de ti. Na boa? Realmente só ele ganhou com isso, porque ao te trair ele te transformou numa versão feminina dele mesmo! Que não ficará com mais ninguém, só viverá das lembranças com ele. Isto é, se você não ceder caso ele decida te procurar, o que não seria nenhuma surpresa.

Brenda ficou muda. Arregalou os olhos e tirou os óculos;

COMO É QUE É? Não fale besteiras! – Gritou Brenda – Jamais voltaria a ficar com aquele crápula.

– Seja sincera: teu coração ainda bate por ele né? Claro que bate… bem lá no fundo –Mathias ficou de pé e pôs as mãos na cintura.

Brenda ficou muda e desviou o olhar. Se não fossem amigos há quatro anos, teria socado o rapaz pelo conjunto de ousadia. Todavia antes que respondesse, Amanda interrompeu novamente o bate-boca;

– Pessoal? Heey! Vamos falar mais baixo, por favor? Acabaram a planilha? Esses dados precisam estar prontos já na segunda pela manhã!

Amanda era uma daquelas mulheres que só vivem estressadas. Tendo razão ou não, ela sempre foi assim. Seu olhar, sempre cansado, ficava a poucos centímetros acima do óculos apertado ao nariz. Mesmo a empresa sendo pequena, tinha fama de X9 entre os funcionários.

Sim Amanda, faltam ainda dez minutos, juro que acabo em cinco. Estava apenas dando alguns conselhos valiosos para a nossa amiga aqui. – Respondeu Mathias.

Sei… – Ela encarou os dois, deu alguns toques no celular e voltou para sala do chefe em seguida.

Mathias virou a cadeira e concluiu o trabalho. Em seguida, começou a fechar suas aplicações. A planilha, e-mail, Skype, programas fiscais, etc.

Mathias? – Chamou Brenda num tom bem baixo. – Só queria dizer que você está equivocado.

Estou é? – Respondeu sem olhar para ela.

Sim. Entenda, eu não estou transferindo a culpa para o Gabriel. Simplesmente não consigo mais ser a mesma mulher de antes. Além disso, tenho um pouco de receio. Medo de recomeçar um lance, com todos os seus elementos -, conhecer família, parentes, amigos… Comprar móveis! Morar junto. Daí, de repente, ver tudo desmoronar outra vez. Eu até sei que por conta disso não consegui engatilhar nada com ninguém depois do Thiago. Nem mesmo consegui transar com ninguém depois dele… Você sabe disso, não é fácil.
Sim, eu sei. E você escolheu o Gabriel então porque…
Porque eu não vou conseguir nada ficando em casa, porra! Ah, vou sair, beber, beijar na boca. Ver até onde a noite vai me levar. Quem sabe nasça alguma coisa em cima dessa curtição e eu consiga esquecer de vez aquele desgraçado.

Mathias desligou o computador. Era possível ver a cara feia que ele fez pelo monitor apagado.

Amiga, isso não vai dar certo. Desista dessa ideia. Você só vai sofrer mais, já vi esse filme antes. No final das contas o bombeiro ficará apaixonado por você e você não estará sentindo nada por ele. Ele vai perceber que você não quer avançar e vai deduzir rapidamente que está sendo usado como remédio de esquecimento.
Deixa de ser pessimista, cara. É por isso que você é solitário!

Mathias olhou para ela, mordeu o lábio inferior e respondeu;

Vai por mim, no final dessa história você estará pagando a conta de tudo sozinha. Mais uma vez.
Ok. Porém vou arriscar. Só quero que você me entenda. – Brenda falou com uma vozinha doce e, em seguida, pegou no mouse e começou a fechar suas aplicações também.
Eu entendo e por isso sou contra. A propósito, você merecia um Oscar por ficar mais de 12 meses sem transar. Sério mesmo… Esse teu ex-marido realmente tomou conta da sua cabeça.
Eu não penso mais nele.
Não seja falsa, amiga…
Caraca, hein! Quando é que você ficará do meu lado?
Tá legal, tá legal, desculpa. Onde você e o substituto irão?
Numa roda de samba. Lá no parque de Madureira. E não chama ele assim, pô.
– Espera, hoje? Na sexta? É provável que você encontra o Thiago por lá cara, pirou? Você sabe que ele toca num dos grupos…
É… E como eu sei. – Brenda deu um sorriso sem graça, pegou suas coisas, levantou-se e colocou o casaco na bolsa.
Ou, garotona… Calma lá! Isso está mal explicado. Você vai usar um cara legal, que provavelmente te fará feliz, pra fazer ciúmes naquele babaca? Justamente no primeiro encontro? Tá de sacanagem? Não vai funcionar.

Brenda gargalhou…

Vai funcionar. – Disse enquanto pegava as escovas de dentes e entrava no banheiro.

Eu te conheço bêbada! Não vai mesmo.

Ela fingiu não ouvir, Mathias bufou. O expediente acabou alguns minutos depois. Após ajudarem Amanda a fechar o escritório, eles se despediram no térreo. Amanda pegou um táxi pra zona sul, Mathias desceu para o metrô e foi para a baixada. Brenda pegou um ônibus sentido Madureira. Marcou com Gabriel as 19hrs, em frente ao Shopping.

O fim da noite foi um emaranhado das consequências de cada ação praticada pelos envolvidos. Mathias chegou, encheu a cara, jogou até de madrugada e cochilou na banheira. Amanda tem um filho drogado do qual ela deu pouca atenção durante a infância, pois dedicou sua vida exclusivamente aos estudos e ao trabalho. Atualmente ela colhe os aborrecimentos; no caminho de casa recebeu uma ligação e, desesperada, foi buscar o garoto. Ele estava totalmente fora de si, largado nas areias de Copacabana. Já Brenda… Bem. As consequências de suas escolhas foram quase desenhadas previamente.

Ela e Gabriel toparam com Thiago no samba. Ele estava sozinho, contudo na saída do seu grupo, uma loira entrou na roda e roubou um beijo do traidor. Um beijo longo. Houve uma breve troca de olhares entre ele e Brenda depois dessa cena, o suficiente para fazer um turbilhão na cabeça dela. Bêbada, nervosa e triste por ser atingida pelo próprio mal que queria causar, acabou topando de tudo um pouco e foi parar num Motel com Gabriel, já no fim da noite. Logo nas preliminares, enquanto o rapaz a masturbava, ela gritou pelo nome do ex: “Thiago!”, assim que chegou ao orgasmo.

Gabriel se irritou, quebrou uma mesa e foi embora. Brenda não teve forças para mentir ou se desculpar. Simplesmente dormiu, acordou as 9hrs, três horas além do combinado quando pegou as chaves na portaria. Saiu do local capengando e pagou a conta de tudo sozinha.

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