Infidelidades

Rio de Janeiro

Paulo (ou Paulão para os íntimos) tem 37 anos de idade, é casado e não possui filhos. Ele é negro, alto, forte e anda com uma cara de poucos amigos. Tem uma tosse chata, mas não é fumante. Anda rápido, mas puxa um pouco a perna. Na noite em questão, estava voltando pra casa. Tinha acabado de descer do trem e seguiu caminhando até o fim da estação, fez uma pequena pausa e pôs um dos pés no banco de madeira a fim de amarrar o cadarço. Não me recordo o nome da estação, “Parada de Lucas” talvez. Ele não pertencia as comunidades dali, contudo sua residência ficava num bairro próximo. Após arrumar o tênis, regrediu para a rota padrão de casa. Na escadaria, puxou o celular e deu um toque para a esposa, Maura. Queria saber o que tinha pro jantar. O dia foi puxado, o patrão ficou no cangote e por isso fora obrigado a engolir a quentinha. Também não houve tempo pro café da tarde, fato que ajudou a colaborar com a rebelião da fome em seu corpo. A boca já salivava desde a Central do Brasil, o quadro já estava bem pior quarenta minutos depois. Mal sabia ele que, naquela conversa, Maura estava prestes a lhe dar uma má notícia;

Nego, Não tem carne pro jantar! – Exclamou Maura.

Como é que é!? Porra! E eu fico como? Tô morrendo de fome! – Protestou.

Não posso fazer nada. Esqueci de ir ao mercado, querido.

Ninguém merece, hein! Tem certeza que não tem nada ai? Um molho? Uma salsicha? Nadinha!?

– Olha, pensando bem… – Maura fez uma pausa proposital –, tem uma coisinha sim.

– Diga!

– Ok, é que eu me Lembrei de algo, até que temos carne, só que é carne de pato. Pode ser?

Puta que pariu… – Exclamou Paulo.

Pois é. Aquele pato que foi presente da sua mãe. Está temperado e congelado há uns dias, se eu cozinha-lo agora com alguns legumes é provável que a carne fique boa.

Pô, o Mickey? Aquele pato era do meu pai. Ele não queria que matassem o bicho. Levou a história quase como uma traição, Maura.

Paulo, por favor! Pra começar Mickey sequer é nome de pato, é nome de rato, porra. Vê se cresce! Tu e teu pai. Fora que ele tem outros trezentos patos naquela fazenda… Então esqueça essa história e venha logo pra casa, cacete.

Não vou comer isso, sinto muito. – Ficou em silêncio alguns segundos durante a passagem pela roleta de saída da estação, e continuou – Não posso! Nem ferrando! Primeiro que não gosto de pato, segundo que vi o Mickey crescer, terceiro que vou lembrar pra sempre do quanto meu pai ficou frustrado. E você também hein? Só me fala agora que estamos sem carne… Pra lá das nove. Não posso nem mais comprar alguma coisa, não tem mais nada aberto, cara! Enfim. Em casa conversamos, larguei o trem agora, vou pegar o ônibus. Até – Concluiu.

Até!

Ele não mentiu sobre onde estava, ou pelo menos não até aquele momento. Realmente precisava pegar mais uma condução se quisesse chegar rápido. Fazia parte da sua terrível rotina. Seu ponto ficava próximo a passarela da estrada que interliga o subúrbio do Rio até Duque de Caxias. Sentou-se no banco frio do ponto e esperou o maldito ônibus, não havia mais ninguém por ali, a rua estava vazia. Enquanto aguardava, seu cérebro desenrolava com a barriga a ideia da digestão do pato. “É! Parece que vou ter que encarar aquilo mesmo“, murmurou.

Serenava aquela noite. Era uma quarta, estação inverno. O Vasco estava jogando, Lula ainda era presidente. Passados quase quinze minutos, Paulão ouviu seu nome gritado de longe. Ainda no banco, esticou o olhar para o alto da passarela que atravessa a pista e viu uma mulher fazendo sinal. Não tratou de reconhecer o rosto, não de imediato, pois ficou vidrado em suas pernas… Maravilhosas, por sinal. Ela desceu e, ao se aproximar, esticou um sorriso mais poderoso que toda iluminação pública;

Paulão, meu amigo! Como cê tá, negão? Que saudades… – Ela já chegou abraçando. A voz refletiu de forma quente e abafada contra o casaco dele.

Suellen! Ual! Nem me fale, chuchu. Cê tá bem? Pelo visto sim, porque tá linda! O que você anda fazendo da vida? – Respondeu.

Suellen cursou o ensino médio com Paulo. Era aquela espécie de amiga/parceira de sexo que todo canalha não confesso possui. Ela usava um casaco escuro de tecido fino. Desses de manga longa, colado ao corpo, além de botas e um jeans bem apertado. Seu perfume era doce, sua pele muito clara e o cabelo loiro estava molhado. Ao abraça-la, Paulo sentiu seus seios. Ela estava quente… não parecia estar usando sutiã. Ele inevitavelmente ficou excitado, não sabia se doía mais entre as pernas ou no estômago. Nesse eterno impasse de segundos, ela tomou dianteira e prosseguiu com o diálogo;

– E ai! Tá voltando do trabalho?

Sim! E você?

– ­Não, larguei aquele trampo. Estava na casa de uma amiga. Sei lá, vim dá uma volta. Precisava disso… – Disse cabisbaixa, usava um tanto de sinceridade, outro tanto de drama intencional.

Bom, mas por quê? O que está acontecendo? ­– Paulo cruzou os braços.

Ah, Paulão… Eu briguei com o desgraçado do meu marido, há tempos não estamos bem. Sai da casa da Júlia agora para tomar algumas… Vou sozinha porque ela não bebe, quer dizer: não mais! Ela entrou pra igreja, sabe? E… Bom, a verdade é que simplesmente não aguento mais viver com ele, amigo. O filho da puta não aparece em casa há três dias. Mente o tempo inteiro… Agora diz que está com a mãe. Isto é, quando atende as ligações. Já fiz de tudo, de tudo! Desconfio que ele tenha outra – Desabafou.

Você sabe que nunca fui muito com a cara dele, né? Desde quando me apresentou – Respondeu Paulo esticando um sorriso simulado.

No tempo em que conversavam, o tão esperado ônibus resolveu aparecer ao fundo. Sua partida dali estava se aproximando, infelizmente. “Droga! Justamente agora…“, sussurrou Paulo. Sentiu a indecisão subir pela espinha, porém não balbuciou por muito tempo; deixou o ônibus seguir adiante e optou por continuar a conversa com Suellen. A noite vinha tomando forma, estava esfriando ainda mais. O barulho de ódio nas vozes ao fundo significava que o time da noite estava perdendo o jogo. Depois de soltar alguns conselhos baratos pra garota, decidiu sair dali. Ele não assumiu a intenção de se aproveitar da deixa e ir beber com ela, entretanto Suellen não perdeu tempo e fez o convite, “Serão só algumas cervejas, é tudo que preciso, nego. Vem comigo!”, dizia. Paulão aceitou de imediato! Ele conhecia Suellen, sabia o quanto ela era manipulável quando estava sentimentalmente abalada, ainda mais quando bebia além do limite. Ele topou, mas já tinha em mente que a velha amiga não beberia só alguns copos – ela precisava encher a cara! Ou fazia isso, ou as dores não se apagariam. Paulo não era burro; uma parte de si imaginava meios de tirar proveito daquela situação, quem sabe saciar mais do que só a fome. A balança pesava para tal, é claro, já que ele e Maura não faziam amor há muitas semanas. Suellen, por outro lado, deixava transparecer suas pretensões aos poucos: ela realmente queria foder com ele, já calculava as possibilidades estando ainda sóbria, bêbada então… Não por amor aos velhos tempos, não, não. Ela foderia com o primeiro que surgisse agindo com o mínimo de gentileza durante a noite. Precisava afagar o acúmulo de desdém dado pelo marido nos últimos anos mais do que nunca. Já estava decidida antes de encontrar Paulo, não se importava mais com as prováveis consequências disso.

Juntos chegaram num barzinho bacana da região, ele era famoso pelos quitutes típicos. Pegaram uma mesa, pediram a primeira, segunda, oitava garrafa… Depois de muito gargalhar, Paulo finalmente se lembrou que havia uma mulher esperando em casa, e um pato também. Já havia passado das dez quando ele puxou o celular e finalmente escreveu uma mensagem de texto para Maura. “Meu bem, acabei encontrando um amigo do futebol na saída da estação, paramos num bar pra tomar um gelo e assistir o jogo. Já belisquei alguma coisa por aqui, não vou jantar e não precisa me esperar acordada. Beijos!“, era mais uma de suas mentiras. Normalmente Maura fazia o inferno em situações do tipo, quer dizer, nas vezes em que o enredo era realmente verdadeiro. Dessa vez, a história possuía um cheiro de falsidade quilométrico. Ela por outro lado, respondeu de forma rápida e simples, sem ligações, escândalos ou ameaças. Aquilo estava bom até demais pra acreditar. “Ok! Bom jogo pra você e seus amigos“, foi a resposta. Paulo estranhou, mas continuou a conversa. Uma hora depois, Suellen já estava mais do que tonta. A boca já não prendia mais as palavras que o bom senso costuma amarrar.

Posso te perguntar uma coisa? – Disse Suellen entornando mais um copo garganta abaixo.

Claro que pode, nossa amizade continua a mesma.

Huuuum… – Ela subiu uma sobrancelha.

Pergunte! – Dessa vez, ele é quem dava um gole na cerveja.

Então, você sente falta dos velhos tempos?

Quais “velhos tempos”?

Os nossos… Sabe, o colégio, sem muitas preocupações, tocando aquela vida louca. Aquelas sacanagens escondidas na varanda da minha avó… Hahaha!

Paulo pegou alguns amendoins e tacou na boca, precisava de munições de distração para continuar;

Pra ser sincero, sim! Nada mais é como antes. Estou casado há cinco anos. Sessenta meses com nada além do mais do mesmo. Há momentos em que sinto que vou explodir. Maura não evolui, é rude, extremamente ciumenta e me ignora na cama. Estou cansado.

Sei bem como você se sente. E o meu, agora, resolveu desaparecer! Ah, caralho… – Ela deitou a cabeça sobre a mesa, seus olhos lacrimejaram – Acho que exagerei nas doses Paulão, não devíamos ter pego aquela rodada de vodca – completou sorrindo, enquanto seus dedos subiam na coxa do velho amigo/amante.

Não se culpe. Há quanto tempo você não ria assim, hein? Quer dizer.. uma gata como você precisa sair e se divertir vez ou outra, certo? Não dá pra ficar o tempo inteiro amargando em casa, jogando os bons anos fora. Se ele não te dá o devido valor, a rua vai dar. Essa é uma lição ensinada por bem, ou por mal – Finalizou.

Ele ainda estava bem lúcido, tentava fita-la nos olhos, contudo o olhar da amiga já estava errante. Ao invés de repreender os assédios que ela praticara com a mão, ele fez exatamente o contrário: colaborou! Abrindo ainda mais as pernas para que a brincadeira debaixo da mesa se aprofundasse.

O que acha de irmos lá pra casa terminar esse papo? Estou sozinha mesmo… Tenho quase certeza de que há alguma garrafa de vinho escondida no quarto. Talvez em baixo da cama… Você poderia me ajudar a procurar? O que cê acha?

Sim, vamos até lá procurar – Consentiu velozmente. – Amanhã estou de folga mesmo. Deixe-me apenas pagar a conta.

Nada disso – Interrompeu Suellen. – O Convite foi meu! Nós vamos rachar!

Ah, para com isso garota…

Não Paulão, é sério! E não tente mandar em mim! Pelo menos não aqui e agora, daqui a pouco, quem sabe.

Huummm… Tá ok!

Suellen morava há três esquinas dali e pouco se importava com o que a vizinhança iria falar. Possíveis mexericos não abalariam sua ânsia de matar todo aquele tesão menosprezado e deixado de lado. Paulo teve um pouco de receio, entrou na casa da “amiga” meio atilado, Suellen foi diretamente para quarto sem falar uma palavra. Paulo hesitou, pensou em sentar no sofá para tirar o tênis sujo que amarrara bem anteriormente e aproveitar a enrolação para concentrar suas energias no que estava por vir -, Não teve tempo! Mal tocou no pisante e Suellen reapareceu no cômodo completamente nua, com a garrafa do tal vinho em uma das mãos. Colocou a bebida numa mesinha de vidro no centro da sala e montou no colo de Paulo, ainda sem soltar nenhuma palavra, nenhuma respiração mais alta que o normal. Seu olhar – antes azoado – dera lugar para outro par de pupilas que conheciam muito bem sua missão. A foto do marido ausente assistiu cada detalhe do que aconteceu ali. Se Paulo esperava chegar em casa à meia noite (horário de término do jogo) teria que se explicar um pouco mais, pois a brincadeira que começou na sala, acabou na mesa da cozinha e se estendeu por mais de duas horas.

Sua chave girou o portão de casa na calada madrugada. De relance percebeu que as luzes já estavam apagadas, caminhou pelo quintal e ouviu um leve estalo; um objeto caindo no quarto talvez, não sabia, o ventilador abrandou o ruído. “Será que Maura ainda está acordada?“, temia mais do que tudo. Entrou bem lentamente, parecia um bandido à espreita. Olhou seu reflexo no espelho, procurou alguma marca proibida no pescoço. Por sorte, estava como deveria estar. A segunda coisa que pensou foi no banho. “Merda! Preciso tirar esse maldito perfume do meu corpo“, pensava alto. O cheiro de Suellen ficou registrado por todos os cantos, até em baixo de suas unhas haviam gotículas do seu prazer. Caminhou pelo corredor que ajudou a construir com o próprio suor. Acendeu a luz, encontrou sua toalha sobre uma cadeira, catou de imediato. Olhou ao redor, haviam dois pratos e dois copos sujos na pia da cozinha. Imaginou que Maura gostou tanto do pato que jantou duas vezes. Quando chegou no banheiro, malocou suas roupas no cesto, tomou seu banho e saiu enrolado na toalha. O vento parecia ter reaberto a porta de entrada, ele voltou até lá, deu uma rápida olhada no quintal e trancou. Chegou até o quarto e a esposa já estava dormindo. “Ufa!”, disse baixinho. A culpa não o deixou acorda-la. Apenas vestiu uma sunga velha e deitou.

Paulão não percebeu e sequer desconfiou, mas Maura ainda estava acordada. Fingia dormir, pois estava com tanto medo quanto ele. Seu nervosismo só passou quando o amante que estava escondido atrás do fogão, conseguiu fugir durante o banho do corno. Assim que Paulo pegou no sono, o marido de Suellen saltou o muro do quintal e foi embora correndo, sem camisa. Esqueceu sua blusa do Flamengo no chão do quarto, devido a súbita chegada do dono original da casa. “Ufa, tudo deu certo“, Maura relaxou e finalmente dormiu. Nessa noite de infidelidades um fato raro aconteceu na história da civilização; todos os envolvidos que sofreram algum tipo de traição se deram bem e saíram felizes, de uma forma ou outra. Todos! Exceto o pato Mickey, é claro…

10 comentários em “Infidelidades

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  1. Não sei lidar com a sua criatividade e minuciosidade. Me agrada demais a forma como monta seus personagens e coloca os leitores nas situações mais inusitadas e gostosas! Não só nesse texto, mas em todos os outros, você sabe caracterizar todas as coisas de acordo com o cenário, há tempos tem me surpreendido! Parabéns! Beijos.

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    1. Obrigado pelo carinho Vivian. Seu blog é um dos poucos que acompanho de perto. Sou um grande fã dos seus pensamentos. Vê-la corresponder é de uma felicidade imensurável

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