Dom Casmurro, o vírus do futuro

Entre as paredes das muitas vielas existentes no bairro da Lapa, há um mural em grafite antigo contando muitas histórias interessantes. Dentre tantas, uma rasa descrição sobre um tal de “Dom Casmurro”, desconhecido de qualquer morador local. O texto segue mais ou menos assim:

“Ninguém ama sem sentir esperança! A esperança é um dos tantos atributos necessários para inflamar o amor. A confiança, a coragem, a paixão e algumas outras propriedades importantes seguem a fila, mas todas são posteriores a tão poderosa esperança, sim! Aquela esperança classificada como um sentimento completamente capaz de superar todos os fatores negativos criados pelo tempo ao depositar fé no coração de outrem.

Talvez seja este o motivo pelo qual pessimistas não amam. Pessoas niilistas, entregues à monotonia e a descrença são incapazes de amar verdadeiramente. É por isso que Casmurro é solitário, por isso não consegue se entregar a vida a dois, não é por falta de afinco ou excitação; tudo isso tem de sobra. As adversidades que cooperam para que nada dê certo partem de uma fatalidade: sua desistência da esperança. Seja para correr atrás do carrinho de sorvete ou para defender a posse de seu candidato a presidência. Seja para acreditar na melhora de sua mãe ou na volta de Jesus Cristo. Seja para apostar no próprio crescimento profissional ou em suas realizações amorosas… Ele não cria em mais nada! Havia desistido de tudo. Entendia que a vida era um punhado de situações aleatórias e sem sentido, interpretadas ao bel-prazer de qualquer tolo capaz de matutar.

Mas Casmurro não nasceu assim, ele se fez assim. Já culpou terceiros e quartos em outras épocas, como se o seu mergulho no ceticismo fosse resultado dos problemas que enfrentara outrora. Todavia já interpreta, nos dias atuais, sua condição como o ápice de uma evolução espiritual, um estado de “super-humano”. Conversar com este senhor é como conversar com o próprio Nietzsche, em uma de suas piores crises de sanidade. Socialmente falando seu modo de vida é deveras irônico. Numa análise palpava, quem o observa do campo da higidez não consegue entender (como nunca se conseguiu, em toda história da humanidade) como pessoas com problemas crônicos e tangíveis são capazes de superar suas dolorosas dificuldades e sorrir para o próximo, enquanto outras que – como ele – possuem motivos matematicamente inferiores e supérfluos, sofrem tanto ao ponto de abandonar a alma ao esmo.

Esse é o inexplicável quadro de Casmurro; afligir-se pelo simples fato de respirar. E por desconhecer a natureza de sua depressão, deduziu-a como uma evolução mental e resolveu conviver com seu espinho na carne. Assim como alguém obrigado a comer insetos que, depois de alguns anos, não só se adaptou ao processo, como também se classifica superior aos demais por se alimentar de modo tão torvo. Ele não tem grandes sonhos para o futuro, não costuma falar do passado. Abandonou seus ídolos, ouve poucas músicas e quase não ler nenhum livro. Todas as chances de se relacionar com alguém do sexo oposto foram de ralo, até mesmo pagando reconhece certa desconexão. Por vezes não cobra o troco das prostitutas, só para que saiam mais rápido e o deixem só novamente na cama, no silencioso sabor do próprio vazio.

Aqueles que ainda guardam compaixão, dizem que o sujeito tentou um pouco de tudo antes de ir morar com o acaso. Drogas, bíblia, filosofia e psicanálise são alguns dos deuses do panteão que foram vencidos. Ele faz o tipo que não dá esmolas na rua porque enxerga o pior futuro possível aos marginalizados. O telejornal é sua comédia! Ele dá gargalhadas com as notícias de Brasília, se diverte com os piores feitos das anarquias africanas. Defende um ponto de vista surreal no qual todas as coisas que fazem parte do universo de um ser humano comum, isto é, nossos costumes, tradições, valores e emoções são, segundo ele, maldições materiais e desprovidas de significados. Ele acha que alcançou o maior patamar da consciência racional rejeitando justamente a essência de tudo que nos tornam racionais.

Perguntaram-me certa feita o local onde vive tal personalidade. Nunca soube informar. Uns dizem ser no Engenho Novo, assim como o outro “Casmurro” de Machado de Assis. Outros dizem que ele está para lá da Baixada e que seu modo delicado de ser atraiu um jovem roteirista, o que deu popularidade aos seus dilemas. A verdade é que esse Casmurro nada tem a ver com o de Assis e sequer pisara na Baixada. Casmurro pode ser carioca ou paulista, homem ou mulher, brasileiro ou americano. Casmurro não é necessariamente alguém, ele é um arquétipo! É o modo de agir de quem já desistiu, de quem dormiu no ponto e já não aposta mais na realização dos próprios sonhos. Não acreditar mais no amor é só mais uma das tantas consequências de quem perdeu a esperança, de quem leva esse nome, de quem se enxerga nas palavras dessa breve descrição.

Trata-se de um diagnóstico ambulante duma doença que ainda não se sabe o nome, da caracterização perniciosa de todas as dores publicamente ignoradas. Se o “nada” é apenas uma palavra esperando tradução, Casmurro então espera por interessados motivados o bastante para aprender o idioma dos seus males, livrando-o das garras do vazio.

Oras bolas, perdão! Eu disse que ele espera? Não, não… Ele é a imagem da ausência de confiança. Não sabe mais o que é ter esperança. No seu universo não existe solução apenas aceitação”.

 

Lapa, Fevereiro de 2027

4 comentários em “Dom Casmurro, o vírus do futuro

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  1. Leo, já sou suspeito de falar, mas não posso omitir o sentimento. Você arrebentou de novo, esse conto/artigo/”sei lá o quê” é uma viagem autêntica para o mundo desse arquétipo que você descreveu…eu espero um dia desenvolver minha prosa para contar causos assim igual você. Abraço!

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