Inadaptado

Eu até pensei em te avisar que já não andava mais tão feliz, que o desgaste corroeu tudo que sinto por você, só que você sorria demais… um brilho no olhar de causar gosto e contentação ao público, ignorando qualquer problema que latejasse ao redor. Tentei te mostrar que o céu não estava mais tão azul quanto antes, que as coisas a volta andavam meio cinzas, ah, quantas vezes demonstrei! Mas você parecia não se importar com a tempestade que nascia no Sul, mesmo sabendo que o nosso lar não tinha firmamento suficiente para outro vendaval. O medo da solidão te lançou na ilusão de que a vida é perfeita e se ajeita sozinha quando se está com alguém. Sentei e expliquei, em diversas circunstâncias, que não é assim que a banda toca, que não podemos parar e ficar observando o caminhar das estações, que o amor não é um ponto de chegada, é uma eterna caminhada de encaixes e lapidações, havendo sempre a necessidade de ir avançando, aprendendo com os erros e se atualizando.

E as coisas ficaram piores nos últimos dias, anda faltando vontade, tesão, coragem, carinho e determinação. O perfume ainda enjoa o mesmo cheiro, o rádio ainda entedia as mesmas músicas. A tempestade que já arrancou nosso cercado, agora, ameaça alcançar a porta. Desesperado tranco todas as janelas, faço remendas, bloqueio os furos. Por vezes faço barulho, e clamo pela sua ajuda. Insisto na sua comparência antes que tudo seja levado pela intempérie, todavia você não deixa a cama, reiterando a visão de que não está acontecendo nada quando, minuto a minuto, acontece de um tudo.

Confesso que hoje, pela primeira vez em muitos anos, desisti de tentar, minha persistência me condena. Não consigo vencer uma batalha conjunta lutando sozinho. Vou sentar na sala e me embriagar enquanto as memórias dão lenha as últimas chamas da lareira. A qualquer momento os ventos levarão toda história que construímos. Você não parece se importar pois, propositalmente, deixou-se levar pela crença na estagnação, de que relações são o que são pela aparência, pela voz e pelo momento, não levando em conta as variações do coração.

Você me perdeu quando desistiu de investir em mim. Eu te perdi quando decidi acreditar em você. A paciência se esgotou, as paredes não resistiram, os móveis já dançam nos ares. Conceda-me um último abraço ao menos amor, porque dentro de alguns minutos o destino tragará o que há muito se perdeu…

 

5 comentários em “Inadaptado

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