Sobre a sensibilidade

Relicário, 10 de novembro de 2016

 

Querida Abigail,
Escrevo estas poucas linhas para lhe falar um pouco de minhas inquietações. Sabe, a cada dia me convenço mais de que estamos afundando dia a dia em um buraco de egoísmo, orgulho e desumanidade. Lembrei-me esses dias de sua convicção: só a arte pode nos salvar. Bem, não sei se só a arte é o bastante, mas creio que seja um caminho, pois certas coisas que vejo me parecem contraditórias – explicarei porque.

Estou cada vez mais assustada com os acontecimentos que vêm acometendo nossa sociedade – não são novos, mas a frequência tem aumentado. Coisas pequenas que acontecem no dia a dia e me desanimam enquanto ser humano. A dor do outro não nos comove mais, não nos faz pensar ou refletir, só nos afasta (cada vez mais) dos outros e de nós mesmos. Vivemos correndo para alcançar nossos objetivos e atropelando quem estiver na nossa frente sem a mínima consideração – seja porque não pensam igual a nós ou porque podem ser “melhores” do que nós – não aceitamos perder, queremos ser vistos a qualquer custo e por isso tudo se torna competição.

Creio que você deva estar assustada com a minha nova forma de pensar (risos). Lembra que você me chamava de egoísta e me falava para ser um pouco mais sensível às coisas e pessoas que nos cercam? – nunca entendia muito bem o que você queria dizer com isso. Bem, você me disse que o poeta é um ser humano que observa as coisas ao seu redor e costuma ver o que outros não veem e isso porque é da natureza do poeta trabalhar com a sensibilidade, a poesia só faz sentido se emocionar o leitor ou algo assim.

Eu não segui o seu conselho de começar a ler poesia ou coisa e tal nem tampouco estou escrevendo, mas passei a observar o lugar que habito – passei a ver poesia nas coisas, falando poeticamente. Não ando mais pela rua correndo para chegar ao trabalho, não desvio o olhar quando vejo o mendigo à minha frente, não acelero os passos quando vejo a senhora com as mãos cheias de sacolas prestes a me pedir ajuda… acho que estou mudando – não sei se assim posso dizer. Acredita que um dia desses alguém me disse que admirava minha sensibidade para com as pessoas (risos)?!

Eu comecei a pensar um pouco e fui ao dicionário ver o significado dessa palavra – não que eu não soubesse, mas quis ir mais fundo – “sensibilidade”: Qualidade de sensível. 2. Faculdade ou capacidade de sentir; sentimento. 3. Delicadeza de sentimentos”. Depois procurei por “sensível”: Que sente, que tem sensibilidade.3. Que pode ser percebido pelos sentidos. 4. Emotivo. 5. Suscetível (2). 6. Passível de receber modificações ou de sofrer determinadas ações”. Parei aí. Penso que todos nós somos sensíveis, só precisamos de um toque para despertar nossa sensibilidade.

Pensei na arte, a arte nos sensibiliza, humaniza e faz pensar (risos) – fazer pensar quando na verdade a arte é para o sentimento, fiquei confusa. Falo da arte de maneira geral. A literatura, a música, o cinema, o teatro, a pintura… e todas essas coisas. Se todos nós tivéssemos acesso à arte de qualidade, será que não seríamos mais sensíveis ao sofrimento ou à necessidade do outro? E aquelas pessoas que mesmo tendo acesso à arte de qualidade e fazendo uso desta – teatros, cinemas, galerias, bons livros – por que insistem em querer ser melhores em tudo e desprezar os seus iguais?

Penso que falta à elas a arte da rua, a arte de observar o mundo que habitam e as pessoas que deste também fazem parte… mas é só o que penso, talvez não seja isso, enfim. Aguardo suas considerações.

 

Com o carinho de sua amiga,
E(x)goísta ou não

3 comentários em “Sobre a sensibilidade

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