Rebeldes sem Causa

Existe um traço em comum entre os ateus, monges e mestres de diversas religiões ao redor do mundo. O mesmo ponto de consciência abordado por perspectivas diferentes que possuem em si a mesma essência. Falo da noção de efemeridade da vida; tudo é pó, tudo é vão, tudo é vaidade. Crendo em Deus, esse fato é enxergado pelo prisma da graça, donde o maior dever de todos nós, seres humanos, é evoluir a própria compreensão do que é a gratidão – se somos um átomo perdido numa vastidão infinita, então no mínimo deveríamos agradecer pela dádiva de existirmos, ainda mais se somos tão pequenos e rúpteis. Essa é a melhor das interpretações teológicas, torna as pessoas mais sensíveis e cientes de que, se a vida não possui sentido, então nosso dever primário é construir um sentido para ela.

Esquecendo os sábios e intelectuais, temos de sobra o povo. Bilhões de pessoas que não possuem muito tempo para refletir sobre esses assuntos, mas que também são seres humanos, logo, também estão condenados navegar pelo mesmo deserto existencial debatido pelos mestres, sofrendo as consequências disso. Ainda que enganem a si próprios com miragens durante o decorrer do deserto. Dentre as camadas do povo, temos uma juventude inerte que sempre anda surfando nas ideias insignificantes apresentadas pela mídia geral. Uma juventude que quando começa a sentir o gosto das perversidades no mundo, das influências gerais que penetram o cérebro como katanas japonesas. Do desamor global, dos excessos de expectativas num futuro completamente incerto, das infidelidades e dos mais variados problemas sociais e familiares precoces, eles se rebelam! E assumem a indisciplina como identidade, mas ironicamente (ou inocentemente), praticam o ódio fazendo exatamente tudo aquilo que a vida vã espera deles, ou seja: dando fim a própria existência. O suicídio sela essa incoerência com louvor.

Mesmo que a vontade de explodir aflore e não tenha mais volta, antes da tomada de qualquer atitude radical, os jovens precisam aprender o básico sobre a rebeldia e o básico se resume exatamente o contrário das atitudes deprimentes que identificamos neles. Vou exemplificar melhor: se a vida não possui sentido, se as coisas podem dar errado mesmo quando lutamos para dar certo, se todas as vitórias conquistadas com dificuldades podem simplesmente nos deixar com facilidade, se as chances de não vencer são maiores do que tudo e se o mundo é um verdadeiro pandemônio estruturado, então o suicídio seria o maior ato de covardia que alguém pode tomar! Sim, é isso mesmo. Por quê? Oras, porque o maior símbolo de rebeldia contra a vida é justamente vive-la! É fazer exatamente o que ela não quer que façamos. É ir contra a vontade de tudo aquilo que existe para nos diminuir. É lutar para ser feliz, quando só há motivos para infelicidade, é compartilhar amor quando tudo no nosso interior e exterior geme pelas marcas da depressão. É fazer questão de aproveitar cada segundo dessa jornada passageira dando e recebendo todo prazer possível e disponível ao alcance. É ser grato e paciente. É apanhar e perdoar. O perdão em si é a maior das rebeliões contra um mundo depravado. Como já dizia Gandhi: “O fraco jamais perdoa, perdoar é característica dos fortes”. Ser uma pessoa forte, relevante é dar uma porrada e tanto na melancolia.

A morte é apenas um detalhe, um apagar de luzes. Criar o próprio sentido de viver, uma ordem na desordem, é deixar um legado na história. É o maior ato de coragem que o ser humano pode assumir – a luta contra sua própria condição natural de desistir de tudo. Quem não acredita em Deus, ao menos terá suas obras na memória de seus contemporâneos e no coração dos seguintes após a morte. Quem acredita, terá o mesmo resultado, além de correr o risco de ser julgado por qualquer coisa diante do Eterno, menos por covardia. A vida não é para os covardes, na vida só os mais fortes sobrevivem, como ensina o darwinismo. E “sobreviver” não é um indicativo de que tudo dará certo no fim, as coisas podem funcionar, como também não podem. A diferença é que, aqueles que possuem o espírito de sobrevivência, alcançando ou não o sucesso, jamais terão medo! Morrerão sem arrependimentos, gritando ao universo que tudo valeu a pena.

Essa é a face da perseverança que a mídia não dá aos jovens. Isso é o que eles não sabem. Não porque são jovens, mas porque são tolos! Que fique aqui eternizado como conselho a máxima de nosso saudoso Nelson Rodrigues: “Jovens: envelheçam rapidamente! ”. E aqui, não se trata especificamente de envelhecimento do corpo, mas de maturidade e erudição. Apenas dessa forma, isto é, “envelhecendo” e se tornando “forte“, alcança-se o patamar de percepção dos mestres. Viver passa a ser uma constante construção de fortalezas no deserto, aceitando e desfrutando da realidade como ela é. Bem melhor do que viver de miragens e utopias…

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