Dilema Leviano

Ah, por favor! Pelo amor de Deus! Deixe de brincadeira! É sério que você só vai me oferecer uma toalha? Já passou das três e eu fiz questão de caminhar por horas no temporal até alcançar sua porta, mulher! Ignorei o vento frio, os carros na contramão e os bandidos da região, chutei cachorros, errei a rua, fiz da camiseta minha capa de chuva. É sério que depois de toda essa cena você não vai me ouvir? Vai reclamar do cheiro de cigarro? Da minha cara de resfriado?  Pela quantidade de lama nos meus sapatos? Da água escorrendo no seu tapete?

Não! Eu não me despenquei até aqui pela toalha. Não me desviei do caminho; sei muito bem onde devo estar e o que ando sentindo. Sei de cor as palavras que devo dizer, tá na agenda o que preciso fazer. Não precisa me recepcionar, não quero remédios, seu chá, ou seu telefone. Tudo que eu quero é um pedacinho da sua atenção, dela tenho doutorado, dela entendo muito bem, dela eu dou conta. Não quero seu colo, seu feijão, sua indecência. Se corri quilômetros até aqui, não foi só pelo calor do seu corpo, por um cafuné ou pelo cheiro da sua comida. Não vim pra falar de documentos, dinheiro, quadros, livros, peixes, fotos ou dos discos que se foram contigo.

O que eu quero de você é mais importante que todos os demais detalhes que compõem a nossa vida, quero aquilo que saiu ao seu lado quando abandonou a nossa casa, aquilo que você não faz questão de devolver, apenas pelo prazer de me ver correndo atrás. O divórcio não levou só o meu gato e metade dos móveis, uma parte de mim também se foi contigo. A parte que só dei valor depois de perder.

Se cheguei até aqui na fé e fogo, foi para suplicar e implorar. Foi para exigir que renuncie este desdém. Por favor, não pare no tempo, não pause nossa história, pois preciso andar com a vida. Volte pra mim ou desapareça de vez! Não mande notícias, altere o status, viaje com outra pessoa… faça tudo aquilo que bem entender, eu não vou perturbar você, até que restituas meu outro lado. Rompa este maldito silêncio da distância! Seja para recomeçar, seja para enterrar de vez a nossa história. Não consigo dar um passo estando incompleto.

E então? Sentarei na sua varanda pra fumar, chamará a polícia ou me deixará entrar? O temporal não vai passar até estarmos resolvidos! E quando digo “temporal”, tu sabes qual é o sentido…

8 comentários em “Dilema Leviano

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    1. Oi Vivian! Ah, obrigado por comentar, seus comentários animam o dia.

      Não é exatamente pessoal, algumas histórias surgem de resquícios de memórias, mas são moldadas em cima delas e não exatamente a descrição delas.

      Eu gosto de deixar algumas questões no ar… deixar o povo matutando. Obrigado por compartilhar sua opinião sobre, acho que se fosse você na porta, a situação seria resolvida rapidamente 😉

      Curtido por 1 pessoa

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