Saturno

É espantoso o jeito estranho que eu tenho de lidar com as tragédias, no final, toda desilusão se torna apenas uma lembrança que por alguma razão, me apego e nego a renunciar. No início sofro, mas depois tudo se torna uma tristeza sonolenta que me faz querer dormir ou simplesmente ficar olhando para o nada.

Ontem eu sofria, doía-me o coração. Quando entrei no carro coloquei minha cabeça sobre o volante e em silêncio permiti que algumas lágrimas escorressem de forma lenta pelo meu rosto. Era manhã e havia chovido durante toda a noite, ainda serenava, mas pude perceber que o sereno se derretia e escorria pelo vidro como lágrimas, como as minhas lágrimas. Às vezes penso que o meu mundo é a parte, eu gosto de acreditar que a natureza tem um carinho especial por mim, e que esse seja o motivo pelo qual eu a sinta tão intensamente.

Liguei o carro e parti. Depois de algumas horas eu estava mais uma vez junto à estrada de terra e pedrinhas brancas. Eu não a conheço muito bem, faz alguns anos que não a vejo e sinto esse ar doce que vem do alto das serras e das árvores verdinhas. É inverno e faz frio aqui mais do que em qualquer outro lugar. Há uma neblina densa cobrindo tudo, o que me faz imaginar, que se talvez eu abrisse o vidro pudesse pega-la com as mãos. Avisto ao longe a já envelhecida placa de madeira, pendurada acima da porteira por uma corrente que com o tempo se enferrujou: “Morro dos ventos Uivantes”.  Sim, o nome do meu livro preferido, é o nome que dei a esse lugar, com letras pequenas está escrito abaixo “Wuthering Heights”.

As poucas pessoas que vivem por aqui estão espalhadas em casinhas afastadas umas das outras, divididas entre as que moram no alto da serra, as que moram no meio dela e as da base.  O Morro dos ventos Uivantes, não coincidentemente está no topo, aqui sempre está ventando um vento escandaloso, que por alguma razão, sempre parece tristonho, e se assemelha as ondas sonoras dos anéis de Saturno. A casa mais próxima está localizada não muito perto e era de uma família composta de um casal e duas filhas. Mudaram-se depois que uma das meninas morreu por falar ao celular durante uma tempestade.

Começava a chover quando eu desci para abrir a porteira pesada e com a madeira acinzentada pelo tempo. Ao abrir a porta da casa, fui recebida pelo cheiro forte de poeira. Dentro havia tanta teia de aranha que mais parecia um projeto científico. Os estofados e as camas estavam cobertos por plásticos. A casa é amarela, as janelas de madeira escura, há uma varanda alta e uma escada de pedras que vem desde a entrada até ela, do seu lado há um quarto e abaixo dele a garagem. As plantinhas da varanda são de um verde escuro, na sua maioria são variações de Comigo-Ninguém-Pode, e pelo que pude perceber alguém tem as regado regularmente.

Aqui dentro ainda há alguns vestígios de papai. Tem algumas plantas medicinais colhidas e secas guardadas dentro de alguns potinhos. Pude identificar gengibre, raízes de erva cidreira e erva doce, além de muito alho seco, de resto não sei do que se trata. Vovó pegou suas roupas e doou, mas ainda restou atrás da porta de seu quarto a velha parka verde que ele gostava de usar para sair a noite. Deixei-a onde estava e tranquei a porta do quarto, não sou supersticiosa, considero-me intuitiva.

Tirei a poeira e limpei um pouco a casa, peguei na minha bolsa meu pacote de biscoitos, uvas passas e algumas castanhas. Entrei no meu quarto, estava aparentemente limpo e com pouca poeira.  Meu cacto não morreu, “Jorginho” permanece silencioso sobre a escrivaninha.

Minha escrivaninha fica em frente à janela, meu pai pediu que um amigo dele fizesse para mim, é de algum tipo de madeira que não conheço. É rústica, mas não ficou como eu queria, trata-se de uma pequena mesa e uma cadeira. Sentei-me para comer minhas castanhas e olhar o tempo lá fora.

Sinto-me protegida por estar distante de tudo e de todos. Lá fora, tudo está tão melancólico quanto eu, aqui ninguém bebe da taça de liquido anil da felicidade. Aqui não há nenhum êxtase beatífico, ao contrário, há uma neblina acinzentada, um vento frio, e uma serra ainda maior do que essa, sobressaindo no horizonte coberto de sereno e nuvens carregadas. E eu, me sinto bem. Aprendi que devemos sobreviver a todas as tragédias. Sinto-me como se estivesse em meu planeta, Saturno talvez, pelos ventos, pela distancia e melancolia. Quem sabe eu seja Saturno: tons mortos, estranha. E você seja o sol, radiante. Você, sempre muito feliz, muito animado, enquanto eu sou um planeta solitário girando freneticamente no espaço, sempre apática e distante, sempre o sexto planeta a partir do sol.

Estou protegida pelos meus anéis de gelo, daí da Terra às vezes pareço ser uma estrela, com o brilho comparado ao das estrelas mais brilhantes da esfera celeste, mas isso depende da posição. De perto não sou assim, sinto dizer que meu interior é triste, acinzentado e nevoento. Sou sonolenta e depressiva, presa em meus ideais e nos anéis de Saturno. E eu gosto de estar aqui, foi eu quem criei os meus próprios anéis e escolhi sempre estar em orbita influenciada pela força de minhas opiniões, em outro planeta, em outra dimensão. Não se entristeça mais, pois eu não estou em perigo, não estou em casa, estou dentro de mim.

Eu sendo eu, assim orgulhosa e excêntrica, fechei-me aos astronautas faz alguns anos, você lunático aproximou-se e me perguntou quem eu era, descobriu, sorriu. Machucou-me com as suas visitas desnecessárias. Você cheio de vida, ao perceber que eu era um planeta sem vida e inabitável tentou decorar-me ao seu modo. Entretanto, eu te mostrei que nada que não é meu nasce aqui. Às vezes me olha como se realmente observasse uma estrela por um telescópio. Isso prova que estou longe, distante…

Entretanto, não me lembro de ter me afastado de você, sinto que ao perceber que os planetas também se apaixonam, você…

Afastou-se.

 

 

 

A minha mocidade escapa à face
encapa a flacidez, me ganha
Eu perco ignorância, troco por dúvidas, rugas
e ideias estranhas
Minhas expectativas partidas por uma ambição tamanha
E agora o dia é ruga e a frustração
caminha por minhas entranhas.

 – Marcelo Perdido

2 comentários em “Saturno

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