Blackout

Soube que faltou luz assim que cheguei porque as lojas das esquinas funcionavam apenas com as lâmpadas de emergência. O ônibus fatiava a escuridão das ruas desviando de bolas, pipas, crianças, bêbados, animais, caixas de som e todos os outros tipos possíveis de obstáculos clássicos duma noite de feriado. Quando desci da condução e sentei no tão breu banco da praça, comecei a apostar comigo mesmo que ela não iria vir me encontrar. Com a vastidão daquele blackout, o destino concedeu àquela infeliz uma desculpa ideal, bastava ela pegar nas mãos e resumir numa mensagem de texto. Tudo indicava que ela não deixaria o calor do edredom e que eu ficaria largado na praça.

Vagalumes me visitaram após 60 minutos de espera. Além deles, restavam outras duas fontes de brilho; a barraquinha de um rapaz pipoqueiro que, solitário, insistia em trabalhar mesmo sob a iluminação das velas e os rápidos lampejos dos carros que ora ou outra cortavam a pista principal para além do bairro. Sozinho ali, no aniversário do que poderia ser, provavelmente, o décimo furo em pouco mais de um mês de relação, percebi o óbvio – tudo aquilo que minha paixão tentou maquiar por muito tempo: ela não merecia ter um cara como eu, não adiantaria insistir, pois as coisas não iriam mudar.

Passados 120 minutos, desisti de discutir pelo celular. O pipoqueiro, muito bem-educado por sinal, mostrou-me o caminho das pedras para encontrar a condução de saída dali. A luz que se foi quando cheguei, retornou quando deixei o local. Minha companheira, que não apareceu quando estava por lá, surgiu na praça perguntando por mim logo após minha ausência.

Existem relacionamentos tão ruins que sequer são dignos de um término formal, digo, uma conversa guiada com palavras por palavras e olhos nos olhos. “Desça do ônibus agora! Desci para a praça, comprei uma pipoca e estou aqui te esperando“, foi a última mensagem que recebi no celular.

É claro que jamais voltaria até lá, mas durante a viagem fiquei pensando… ao que parece, no fim das contas, a solidão trocou de par: eu me livrei de um atraso de vida e terminei sozinho e o pipoqueiro que estava sozinho, ganhou um cliente.

Depois de alguns anos percebi que, levando em conta o nível daquela relação, acho que sempre fui o verdadeiro solitário da história, mesmo acompanhado. A paixão me deixou no escuro e dominou minhas convicções, precisei de duas horas a sós com as trevas para então conseguir percebe-la…

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