Paciente 76

“Não! Não, não e não! As grades na janela não podem me enganar, não mais! Por isso te escrevo… com cautela escrevo. Eles esqueceram a lata de picles aqui, será nela que minha carta viajará! Tenho um novo plano para vê-la amor, leia-me, por favor! Logo lançarei essa carta ao mar. Não me preocupo mais com o que eles resmungam… As coisas que os guardas falam não valem a paciência dos ouvidos. Você está ai em cima cintilante e solitária, eu sei disso, mas não nessa parte do céu, pois não consigo te ver. Além de me enclausurarem aqui, eles me esconderam de você.

Se eu já tentei pular? Claro que sim! Mas a cama é muito baixa, as pedras na parede me machucam, não consigo alcançar a janela. Quem sabe no quarto ao lado? Hum… Será que dá? Será que conseguirei te ver pela janela de lá? Ou seria melhor esperar o amanhecer? Sim! Quiçá se eu arrancar a orelha do doutor… será que eles me carregariam para um lugar com alcance do seu brilho? As vozes falam nos meus ouvidos, contam-me sobre uma cela mais alta no último andar, donde posso vê-la de perto, inclusive, toca-la. Mais do que nunca, preciso alcança-la querida, sinto muito a sua falta. Sem você é tudo tão triste e escuro. As noites pesam como os séculos dos ossos nas catacumbas, perco meus anos num emaranhado total de escuridão e sofrimento.

Eles costumam me dar algumas pílulas pela manhã, todas as manhãs. Tolos! Cuspo cada uma delas, amor. As brancas, as laranjas e principalmente as azuis! Mas acho que sinto o gosto amargo da azul diluído no meu suco de laranja… Não há lâmpadas aqui, por três vezes ao dia, vejo apenas as luzes do corredor. Quando o guarda coloca o café, o almoço e o jantar. Não conheço ele, deve ser novo. Parece-me frio. Sinto o cheiro do corpo dele no meu prato, as vozes gargalham, não me falam a verdade sobre o que ele faz com a comida. Quando o doutor aparece, ele ignora minhas perguntas, não quer me falar de você, não quer entender que preciso busca-la. Que desde aquele fadado dia, estás presas ai em cima.

Ah, minha amada eu suplico seu perdão, espero que me absolva. Não havia nada que eu pudesse fazer. Os sinos me avisaram quando as bombas estavam caindo, saltei o muro do quintal e quebrei a casinha do Marley. Entrei pela janela e te abracei com todo amor que há nessa vida. O ar que invadiu a sala levando o vidro da TV, arrastou também todo o nosso segundo andar. Marcos ainda estava lá, eu sei, estava jogando videogame. Mas não se preocupe querida, o doutor me disse que ele está bem, num lugar melhor, num jardim com os amiguinhos lá da rua.

Eu acordei na grama do Barney. Eu sei que ele nunca foi nosso vizinho favorito, mas ele estava de férias, não me viu deitado lá. Acho que ele também não soube que sua casa pegou fogo. Estava muito frio, amor. Estava escuro; eu não conseguia me levantar. O bombeiro me encontrou, ele foi gentil. Perguntei por você, só que ele ignorava. Várias vezes perguntei, mas ele disfarçava. Até que, de relance, afastou-se da ambulância, tirou o chapéu e encarou o céu. Eu também olhei e a vi a lua, sem dúvidas a vi. Vi o seu sorriso. Não haveria lugar melhor para proteger seu brilho. Sei que se escondes entre as crateras dela, mas preciso busca-la de volta.

Mas eles não me entenderam! Não entendem, amor, eles não entendem. Eles não me deixam subir, não me deixam falar com você. Eles me colocaram aqui, com os banhos congelantes, os sucos, as pílulas… Estou tão só, sem a sua luz, sem o seu carinho. As vozes me disseram que isso é um pecado mortal, que eu deveria morder o doutor e ser levado para o quarto mais alto. Lá, poderemos conversar, poderei saltar e fugir daqui.

Fique tranquila, não se preocupe querida. Irei bolar uma nova estratégia. As vozes me disseram que outras bombas estão a caminho dos EUA, mas eu não quero morrer sozinho, por isso tenho planejado um esquema de contingência: vou bater no doutor, vou fugir pela janela do último quarto e atravessar o mar. Pegarei o Marcos no jardim das crianças e juntos subiremos até ai pra te resgatar.”

–  Jack T. Julho de 2042

 

Fim

Nota:

Após a explosão da bomba de pulso eletromagnético de 2039 em Nova Jersey, Jack acordou e viu os restos mortais de sua esposa arremessados nos galhos das arvores da casa vizinha. O cérebro não processou o trauma corretamente e criou na mente de Jack, a ilusão de que sua esposa estava presa na lua. Jack perdeu a guarda do filho em 2040 e em 2042, cinco dias após escrever a carta, suicidou-se no último quarto do asilo.

Seis meses depois, após uma série de investigações, polícia americana fechou o local sob suspeita de abusos contra os pacientes.

Curiosamente, no fim do mesmo ano, outra bomba explodiu em Nova Iorque.

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