Leila

Eu sempre ouvi falar que o que é bom é pra ser visto. Então não perdi meu tempo e olhei pra valer! Como se fosse a última garota do mundo. Sentado no balcão, assistia de tudo um pouco desde a chegada dela; sua risada tímida, seus disfarces e a linda mania de arrumar as mechas constantemente. “Mas o que será que ela deve estar pensando?”, questionei a mim mesmo. “Quer uma dica? Melhor se preocupar com aquilo que ela ainda não pensou. Motive-a! Faça com que ela imagine além do óbvio!“, respondeu Leila, a demoníaca voz da minha consciência. E ela não parou por ai;

– Ah, mais uma dica: continue olhando, baby. Insista… encare mesmo! Espere o sinal de retribuição e torça pra que ele seja positivo. Ela é bonita demais, são poucos os que possuem coragem de segurar esse foco, a maioria dos homens hoje em dia se desviam das trocas de olhares e saem correndo. – Sussurrou Leila.

– Ok! – Consenti comigo mesmo, de uma forma um tanto anormal, claro – Você está certa! Afinal de contas, eu não tenho nada a perder!

E Leila parecia mesmo certíssima, como sempre. Precisei apenas de dois minutos, entre o fim da música do Lulu Santos e o começo da canção de Djavan. Assim que o cantor do bar concluiu mais uma bela canção, ele acenou para o garçom, parecia querer um copo d’agua. Em meio ao silêncio, as vozes e risadas ocuparam o ambiente. A casa estava lotada, era sábado à noite, a cidade é boemia e os bares atraem os fãs de músicas ao vivo. Entre a cerveja e o fim das palmas ao cantor, voltei a olhar para a mesa 08, onde a ruiva estava sentada com mais duas amigas. Para minha tão esperada surpresa, ela também estava de lá, retribuindo meus sinais evidentes. Mirava minhas cenas de falso distraído, comentava alguma coisa para as amigas que também me devoravam com os olhos. Fosse este, talvez, o sinal da qual Leila falara.

–  Hey, Leila! Ouça… – Refleti com intensidade.

Sim! Pode falar. – Ela sempre foi imediata.

Sabia que sua voz fica cada vez mais doce a cada copo que bebo? Sinto como se sua boca estivesse na ponta do meu ouvido…

Hahaha! Cala boca. Assuma logo que eu estava certa. E trate de melhorar essas cantadas, pelo amor de Deus. Eu só tolero porque não tenho escolha.

Ou, pega leve! Aff! Ok! Ok! Confesso… você estava certa. A ruivinha realmente está retribuindo minhas secadas. Mas… E agora?

Agora o quê?

Como assim “o quê?”, qual será o próximo passo, oras?

– Carlos… Por favor! Você tem 35 anos. Quando vai aprender a conversar com uma mulher? Nem eu consigo tolerar sua insegurança. E olha que eu faço parte de você, cara!

– É irônico você dizer isso, dado que puxas assuntos desde os meus 8 anos de idade.

– Huumm. A diferença é que eu sou imaginária, baby. E você é real.

É ela (ou eu) estava realmente certa. Era a hora de pensar em alguma coisa e tomar uma atitude. Na próxima semana completará seis anos que estou solteiro, não dá pra vacilar ainda mais se está claro que ela também está querendo.

Perdi um bom tempo calado, bolando a melhor abordagem, num jeito de não fazer feio. “E se eu mandasse um bilhete pelo garçom? O que será que ela iria pensar? Será que ela entenderia? será que interpretaria como covardia um bilhete mandado pelos outros? Ah! Não sei.” Logo a música voltou a tocar, aproveitei o embalo e pedi mais uma cerveja. Assim que a balconista saiu, aproveitei a deixa e clamei novamente por Leila;

–  Ah, vai! Acho que esqueci como fazer… Me ajuda logo! Só dessa vez, Leila. – O nervosismo cavalgava nas minhas palpitações.

–  Tá! Cala a boca. Ou melhor, o cérebro! Eu sei como te ajudar, mas você precisará comprar um pouquinho de ousadia, valeu. Peça um copo de vodca, talvez, se for necessário.

Não será necessário! Não quero chegar lá fedendo a pinga. Quero encara-la como homem que sou!

Piada… Hahaha!

Como é? Você está muito abusada hoje, hen! – Um homem precisa estar muito desesperado ao ponto de ser zoado pela própria mente.

Ok, me desculpa, tá bom! Não queria te ofender, Carlinhos. Você vai querer minha ajuda ou não?

É. Vou. Estou ouvindo…

Ok, Escuta! Falar com uma mulher não é nada complicado. Na verdade, ela ficaria envergonhada se você bancasse o sabichão e chegasse lá dizendo coisas difíceis, deixando-a sem palavras. É só um diálogo, entendeu? Ela só precisa sentir à vontade e as coisas vão acontecendo. Portanto… por que você não arrisca de uma vez? De qualquer forma, o “não” você já tem como resposta. Que tal… Que tal piscar um olho da próxima vez que ela te encarar? Hein?! Se ela esticar um sorriso, por mais sem graça que seja, aproveite a chance e faça um gesto com os dedos, como se estivesse a chamando para sentar ao seu lado… Vai funcionar! Acredite.

– Será? – Não queria fazer papel de bobo.

Deixa de ser mulherzinha cara, de mulher aqui já basto. Anda, faça!

Tudo bem…. Isso deve ser fácil! – disse baixinho, enquanto respirava fundo. Em seguida, iniciei a tramoia;

Deixei o copo sobre o balcão e me concentrei na ruiva. Meus pensamentos estavam ligados em 220v. “Vamos lá tchutchuca. Olha pro pai!”, tentava buscar confiança.

Quando a pretendida disfarçou e olhou, não perdi meu tempo e lancei uma piscadinha fatal. Segundos depois, Leila me “cutucou”;

É isso ai! Boa piscada. Ela captou garanhão. – disse-me cochichando.

– Obrigado, flor. Você é 10! Sempre será a minha favorita…

– Hanham… Sei. Hey! Não perca o foco!

– Ok!

Todos começaram a aplaudir novamente, aquela magia se dissipou por alguns instantes. O cantor, não perdeu o pique e anunciou uma maravilhosa noticia ao público;

Galera, a próxima agora se chama: “Tanto”, do Skank;

Começando a canção, encarei novamente minha pretendida. Percebi que de lá, há poucos metros da minha boca. Ela finalmente retribuíra a piscada;

Hey, Leila. Você viu isso? Ela piscou de volta! Que delícia!

Então…? O que você está esperando para chama-la? Seu lerdo! – Replicou.

Gesticulei e falei baixinho: “Vem pra cá!”, até o mais desatento conseguiria fazer a leitura labial. Assim que a chamei, não obtive resposta, nem um mísero sinal. Reparei o momento em que ela engoliu a seco, fingiu não ser com ela. Meu coração travou por alguns segundos, todavia o alivio logo chegou – a linda comentou alguma coisa com as amigas e, como numa forma de despedida, levantou-se e seguiu em minha direção.

É agora! – Pensei. Havia uma festa dentro da minha cabeça. E mesmo estando ansioso, já não esperava mais pelo pior.

O tempo parou nesse momento. Ao fundo era possível ver as outras meninas levando o copo de chope a boca, enquanto observavam a parceira laçada. E por falar em cânticos, era nítido a malícia no olhar do músico enquanto ela desfilava pelo bar até o balcão. Seus acordes se adaptaram aos passos da musa. Assim que chegou, ela apenas me encarou, esticou os lábios, mas não sorriu. Sentou-se girando na banqueta e se apresentou;

– Oi! Boa noite! Prazer… Patrícia. – Só então pude ver seu sorriso. Lindo, por sinal. E ele veio acompanhado do cumprimento das mãos; um toque leve, unhas maravilhosas. E o perfume? Ah, jamais esquecerei aquele perfume! Foi o gás necessário para formular minha resposta;

Boa noite! Sou eu, quer dizer: me chamo… Opa, haha. Carlos! Meu nome é Carlos. E o prazer é todo meu.

– Hum! Legal. Esse é o nome do meu avô! – Ela disparou.

Espero que isso não seja nenhum problema, hahaha! – Continuei.

Que isso, imagina. Eu amava meu avô. Na verdade, esse é até mesmo um ponto positivo. – Respondeu.

Bem, obrigado. Deixe-me lhe pagar uma bebida. Ok?

Tudo bem, Carlos…

Nesses momento, Leila desapareceu do meu imaginário. Deverás… nenhum homem consegue manter a cabeça em duas mulheres ao mesmo tempo. A noite seguiu, a conversa fluiu e quando percebemos a música já havia acabado. Patrícia (agora, graças as bebidas, é só “Pati”), gargalhava das minhas idiotices. “Você é engraçado… Gosto de caras engraçados”, ela reforçava. Num dado momento, olhamos novamente para a mesa das amigas dela e percebemos que as garotas já tinham ido. Talvez acompanhadas, talvez não. Pati pareceu não se importar, olhou no celular e não encontrou nenhuma mensagem. Também não fez questão de mandar nada. “Aquelas safadas… Nem pra avisar!”, bravejou. Quando a conversa começou a esquentar e já estava rolando algumas carícias, soltei uma pergunta que já estava engasgada a noite inteira;

Ai, me diz! Por que tanta demora para aceitar meu convite? Foram suas amigas que insistiram pra você vir falar comigo?

Ela sorriu e virou o copo. Em seguida, respondeu;

Na verdade não, foi o contrário. Elas queriam que eu ficasse por lá. Mas… Bem, resolvi apostar na voz da minha consciência. E até agora não me arrependi da decisão. Muito pelo contrário.

Aquilo foi tudo que precisava ouvir, minutos depois, já embalados pela interação (e pela sequência de músicas do Kid Abelha). Rolou o tão esperado primeiro beijo.

No fim da noite, resolvi leva-la para casa. Quando deixamos o bar, ainda na calçada, sentimos que uma leve ventania estava se aproximando. “Vamos até a esquina, não sei se sabes, mas há um ponto de taxi bem ali”. Afirmei. Porém a resposta de Pati foi melhor do que o esperado. “Que tal irmos para sua casa? Podemos? Se não houver nenhum problema, é claro. Eu não sou dessa cidade, estou no hotel lá no centro, só que divido o quarto com as outras garotas. Então… O que você acha? Podemos ficar na sua?”.

Aquela pergunta era, em essência, uma ordem. Havia uma certa malícia naquele olhar, lábios que clamavam para serem sugados. Dependia de mim a resposta para findar tudo aquilo que já estava, há horas, na minha lista de desejos. “Claro”, respondi. “Não há problema algum, vamos lá”. Disse enquanto entrava no carro.

Enquanto o taxista partia rumo ao meu velho apartamento, Pati encostou no meu ombro e cochilou. Abri a janela e olhei para o céu; a lua estava linda. Aproveitei o instante para refletir sobre a noite, no quanto estava agradecido por tudo. Nesse momento, pensei em Leila, mas ela ainda estava ausente, pra ser sincero, depois daquela noite eu nunca mais consegui ouvi-la. Fato que me preocupou durante boa parte da vida, admito. Enquanto o motorista aguardava o semáforo, ouvi Patrícia cochichar alguma coisa, mas não entendi.

 

Nós chegamos, entramos, dormimos, ficamos. A vida seguiu…

 

Anos mais tarde, depois de dez anos juntos. Estávamos dividindo uma rede em frente à praia, eram minhas férias do trabalho que decidi passar no Caribe. Pati, agora minha esposa, estava enrolando os dedos nos pelos do meu peito e conversávamos sobre coisas banais. Quando menos esperava qualquer menção no assunto, ela confessou:

Eu te amo amor. Mas pra ser sincera, acho que eu jamais te conheceria se não fosse pelo Ivo.

Quem é Ivo? – indaguei.

Ah, era a voz da minha consciência. Haha! Eu sei… parece coisa de maluco, mas eu tinha 22 anos, li aquela palhaçada em algum livro antigo, resolvi colocar o exercício em pratica e até que achava legal. Pensando bem, nunca mais pude ouvi-lo desde aquela noite em que nos conhecemos. Eu cheguei até mesmo a agradece-lo quando estávamos no carro indo lá pra casa. Mas estava muito bêbada! Fiquei com medo de você ter ouvido.

Ual, que nada… Não parece coisa de maluco, amor… Tudo bem. Eu entendo, entendo, querida.

Naquele momento deixei de me preocupar. Seja lá quem fosse Leila, ou o que ela significasse para mim, acredito que ela tenha escolhido Ivo na hora em que escolhi Patrícia. Mesmo que ninguém dê valor a amizade imaginária, a ideia de que nossas mentes já estavam de namoro antes de nos conhecermos fortaleceu ainda mais o meu amor. Perdi uma amiga fictícia, num sacrífico que me concedeu uma vida de verdade…

 

Fim.

 

 

 

Eu voltei pra minha sina, contei pra uma menina;
Meu medo só termina estando ali.
Ela é suave assim, sabe quase tudo de mim,
Ela sabe onde eu queria estar enfim…

– “Tanto” – Skank

 

 

 

 

 

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