Sombra mate

Ela escreveu inúmeras cartas, mas fez de todas  bolinhas de papel. A última, em fim, aparentava ter saído razoavelmente bem. Enquanto a lia, distraíu-se um pouco e olhando para o lado, viu que o gatinho brincava alegremente com os papéis amassados. Constatou e disse tristemente em sua mente: “Até os gatos brincam com os meus sentimentos”. Amarfanhou a então última carta e com sinceridade redigiu o texto a seguir, que sem  detalhes, ou formalidades apropriadas, foi entregue á destinatária três dias depois.

“Sei que faz algum tempo que não lhe escrevo e hoje não lhe trago agradáveis notícias. Tentei por esse tempo poupá-la da dor que me atormenta e entristecer-lhe mais uma vez por minha causa. Porém, a minha última gota de serotonina se esgotou, e não há chá verde que possa mudar isso. Já não posso mais adiar a minha decisão, estarei novamente em casa na semana que vem. Estive conversando com um antigo pintor e ele me ofereceu trabalho em seu ateliê. O dinheiro  não é muito, e para compensar isso, ele irá me ensinar alguma coisa no tempo livre.   

Para senhora essa não é a melhor decisão, pois insiste em ver em mim uma inteligência que eu não tenho. Não sou um prodígio mamãe, não tenho nas mãos a chave para mudar o mundo. Estive sempre ocupando o último lugar e aplaudindo alegremente os meus vencedores. E por impulsos fracos, imaginando que um dia, pudesse alcançar o pódio.

Mas sou um projeto falido, aliás, um projeto no papel, pois não há capacidades em mim para coloca-lo em prática. Vivo com a “cabeça nas nuvens”, tenho a loucura de  John  Nash, porém não possuo o mínimo de inteligência exigido. Sou totalmente desajeitada e caricata. As pessoas preferiam não apostarem, a terem que apostar em mim.

Esperei pacientemente  a minha vez de “brilhar”, lendo e estudando com o que tinha, porém,  os que nem se esforçaram, mostraram talentos superiores aos meus. Estou cansada de desapontar-me com a minha incapacidade. E ontem, foi a cartada final do meu córtex contra mim: o último lugar mais uma vez: um 10/100!

Não me espantaria se dessem essa nota, apenas pela presença. Para mim, o meu notável fracasso não seria uma surpresa, mas dessa vez senti-me estranhamente esperançosa quando ouvi de você: “vais conseguir”. Ao entrar no ônibus, sorri alegremente para o motorista, expressando com o olhar a certeza de uma boa resposta. Mas como dizem, “sou louca”…

Insisto veemente em algumas coisas, quando sei que o resultado será o oposto. A derrota é certa, mas eu sempre estou lá para pegar o meu troféu de vencedor.

Sou “burra” para as mínimas coisas, e a minha fala é um tanto quanto engraçada, me impedindo de discursar. Ouvi que há gênios que se revelam tardiamente, mas estou velha demais para ainda não ter percebido ao menos um vestígio de inteligência em mim.

Meu talento é 10/100, embora juntamente com a vergonha tenham me dado 100/100 no desempenho total. Talvez esse 100  seja porque se apegaram ao meu isolado 91 em “Leitura e Escrita”. O tempo de estudo é sempre lançado ao chão pela minha mente fraca que não consegue se lembrar de nada.

Então, mais uma vez estarei  levando comigo a  minha ruína. Tomarei chá no sofá vermelho, viverei o marasmo e a melancolia que me definem, sem esperança de que um dia a genialidade possa bater em minha porta. Não posso sonhar em ser uma “Cleópatra”, tendo a mente de um  Oblomov.

Continuamente chorei por isso, mas não consigo sofrer como uma mulher comum. Algo me doía em especial. Um espécie de “monstrinho” interno devorava o meu coração ferozmente. Por isso dormir, notabilizando o meu posto de preguiçosa. Perdoe-me seriamente pela senhora ter que ler tudo isso. Agradeço por essas dores não sereis visíveis a olhos comuns, certamente, se vissem tantos tormentos, tantos fantasmas, não conseguiriam dormir a noite…”

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