Sri Lanka

E sucedeu que, uma vez ali, sentada e sozinha no quarto, ela topou abandonar o vício pela monotonia eletrônica e caiu em si. Antes mesmo do caçoar inquietante do temporal entre o basculante da janela. Antes do acaso atiçar os átomos e derrubar da mesa, a preferida e milenar xícara de chá. Antes dos “antes”, já havia uma decisão estabelecida: nada era capaz de lhe molhar na inquietação. As coisas que surgiam e partiam naquela noite eram meras obras tolas do universo que, inutilmente, tentavam distrai-la, mergulhando-a no lago do ócio. Mas a gata era esforçada, não se deixará levar, seu esforço demonstrava que naquele corpo não havia espaço aos frutos carnais disponíveis no mundo.

A posição de lótus tratou de calar a boca do plano físico. A energia girava por todo corpo – das gotas de suor presentes a cada transpiração, ao “novo” olho que brilhava no franzido da testa. Pura concentração! A imagem do fundo branco em sua mente depositava todas as canções e memórias que rodopiavam o inconsciente. “Quem é o ruivo nu?”, “O que há de novo nesse livro de química?”, as perguntas nasciam das imagens, memórias que tomavam formas e formas que criavam movimentos próprios e impróprios. Com os movimentos surgiam as incógnitas, com as incógnitas, os devaneios. Quando chegava ao vazio, sua cabeça voltava a ficar cheia. E quando finalmente abandonava a maré alta, não captava o ligeiro prazer existente no vazio.

Se falhar na missão ela questionará o tempo que ali perdeu; a necessidade de meditar. Se vencer, a reflexão a fará lamentar pelos anos de vida perdidos. Perdidos nos atos que praticou sem parar pra pensar. A madrugada começa propondo desafios do silêncio que não a deixa dormir.

A espera pelo fim da chuva está em não reclamar da presença dela. Saborear um novo chá dependerá do ato de superar o recipiente antigo. O sol virá na manhã seguinte, expectativas não diminuirão a espera por ele.

Que na dormência do corpo a alma possa reinar em paz. E que a busca pela paz possa se tornar o único e indivisível vício.

Namastê!

 

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