Carta a quem era calmaria

 

Meu caro Júlio,
Já se passaram alguns longos vinte anos desde a última vez que nos vimos. Há alguns dias recebi sua carta e fiquei muito comovida. Não sei qual motivo o levou – depois e tanto tempo – a despir sua alma naquela carta, mas confesso que fiquei feliz, e talvez triste ao mesmo tempo. Foi, talvez, um dos mais belos presentes que recebi nesses últimos anos.

Lembro-me das suas tentativas de escrever versos. Vejo que evoluiu, pois sua carta passa emoção, está poético.
Nossas vidas, infelizmente, se desencontraram. Éramos muito jovens, tínhamos ambições diferentes: eu queria andar o mundo e você queria apenas viver. Você estava certo. Como você mesmo disse eu era mar agitado e você lago calmo – se tivesse despido sua alma naquela época, talvez sua calmaria tivesse me atingido ou talvez não, não sei.

Obrigada por sua carta, mas hoje aos quarenta, pouco sobrou daquela jovem dos vinte. Em vinte anos não vivi metade do que planejei viver. Meu casamento fracassado. Minha única filha é o que salvou minha vida. Eu jamais quis viver o comum, veja só onde eu estou.

Ao contrário de mim, vejo que você está muito bem. Outro dia li sua matéria no jornal, seu artigo na revista e ouvi falar da sua ONG. Engraçado que só agora percebo o quanto éramos diferentes e o quanto nos completávamos – pena ser um pouco tarde. Você conquistou tantas coisas… mas e no amor? Você também fracassou… você é feliz? Creio que seja. A felicidade nem sempre chega quando temos alguém do nosso lado, às vezes nos completamos de outras formas e creio que isso aconteceu com você. Você disse que faltou a mim, mas não creio que seja o caso. Quem garante que teríamos sido felizes juntos?!

Não sabe o quanto fico feliz ao ler ou ver algo sobre você. Meu caro Júlio , sinto uma imensa alegria por saber que não esqueceu-se de mim. Lendo sua carta lembro da pessoa que eu era, revivi todos aqueles momentos… eu tinha sonhos tão bobos.

Quanto ao seu convite, não sei se devo aceitar. Agradeço, mas talvez não seja o momento. Reencontrar você seria reencontrar-me com o meu passado, a jovem de vinte anos atrás teria vergonha da pessoa que se tornou. Minha gratidão e minhas sinceras desculpas.

Cordialmente,

Sua Ane

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