Coração Templário

 

Abril – 1310

Reims, França

Olá, minha querida.

Escrevo-te esta carta com o propósito de deixar manifesto tudo aquilo que suas suspeitas já sussurravam; sinto lhe dizer, mas estou indo embora.

A mudança de vida também deixa sequelas. Sei que percebestes isso. Acredito que tenha ficado evidente no vazio do meu olhar, no universo entre nossos assuntos. Quem se acostuma a uma vida corrida e dificultosa, demora um pouco a relaxar. Os primeiros dias são de desencaixes notáveis, como um peixe veloz batendo a cabeça no vidro de um jarro, ou como alguém que acabou de ficar rico, mas sofre de insônia a noite com as memórias da labuta.

A ociosidade é um espírito gordo, que se alimenta dos fatos da pesada rotina. Nos dias de descanso, ele se deita sobre nossos corpos e hiberna. Os mais sensíveis sentem o peso espiritual estalando os ossos. A vontade de encarar o bosque e o sol ou de caminhar sobre a luz da lua, fica sempre em segundo plano. O brilho do olhar que levo no rosto se assemelha ao do soldado que voltou da guerra para os braços da amada. Nada se compara ao calor da esposa, do elo atemporal entre seu corpo nu e os lençóis. Nada se compara a vê-la desfilar pela casa usando apenas o casaco da farda, ou de receber suas doces carícias sobre cada cicatriz de peleja. Todavia lhe digo, querida, que como todo bom soldado, carrego meus traumas de guerra. Todas as noites, eles assaltam meu espírito e o deixam novamente nos campos de batalhas, em todos os sonhos, em tudo aquilo que faço.

Não posso e não vou lhe enganar: é bom estar com você. É maravilhoso passar os dias ao seu lado, mas sinto falta do homem que fui. E mais do que isso – cada centímetro do meu ser demonstra, dia a dia, o quanto está atrofiado, nessa falsa adaptação do inadaptável. Vivo afirmando contradições, uma paralaxe simétrica, um cachorro brincando de ser gato. A covardia me devora, sinto os ventos zombando de mim tanto quanto os fantasmas dos meus amigos e irmãos já levados pelo destino.

Peço que me perdoe por tudo. Não hoje, não amanhã, mas no dia em que seu coração analisar e aceitar minhas angústias com um pouco mais de carinho. Não nasci para ser agricultor, não corresponderei as expectativas do seu pai, não conseguirei lhe dar um filho. Sou uma alma preparada, amolada e alocada no mundo dos mortais para seguir um único propósito: servir a Santa Igreja. E se ela deduziu que meus atos por amor a Ordem foram pecaminosos, então devo pagar por isso. Meus demônios devem ser encarados com honra! Do contrário, de nada valerá minha vida.

Obrigado pelo tempo que passou ao meu lado. Como padre, nunca desfrutara antes o sabor de uma mulher. Não há prazer igual no mundo e, ao mesmo tempo, sinto que todos os prazeres estão combinados em cada um de teus gestos e toques. Você adiantou meu paraíso, lembrarei do seu sorriso quando estiver sendo humilhado e queimado nas chamas da praça de Paris.

Te espero na próxima vida, querida Elisabete. Vou na frente para garantir que no céu, haja um lugar aconchegado pra ti, com todos os damascos que não se podem contar.

Sempre estarei ao seu lado. Eu te amo.

– T. C

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