Tomou-me vossa vista soberana

O que é a vida senão uma sublime Odisseia, na qual nós temos a conjunção de sermos o literato desse inconstante raconto cheio de vicissitude. Uma dádiva maravilhosa concedida aos viventes pelo próprio Criador. A vida é singular, e quem a aproveitou encontrará satisfação e riso nos dias de sabedoria por experiência. Com a passagem do tempo podemos inovar, aproveitar, reinventar e transformar nossas vidas. Muitas das mudanças são boas, já outras nem tanto porquê fazem-nos em vão sofrer e não nos leva a lugar nenhum, mas faz parte da trajetória e são retalhos de nosso desenvolvimento e esforço. Que possamos ser nossa melhor versão. O cair é axioma imutável da falibilidade da natureza humana; já o simples fato de se levantar, reerguer e seguir para frente, em contrapartida faz parte da nossa grandeza. Em meio a ventos impetuosos somos nós os implacáveis! Permanecer guerreiros, corajosos, sábios e tenaz. Que possamos em meio as batalhas termos resiliência e foco.

 

Coimbra, ano de 1972. Me descrever em meio a tudo isso? É impossível. Mas o que os meus castanhos olhos veem agora é incrível.  Aqui tudo é calmo, sereno e belo. Ouvir o canto orquestrado dos pássaros logo ao amanhecer me extasia de uma forma diferente a cada dia. Sentir esse vento que provavelmente vem do mediterrâneo transborda minha pele. Eu, hipnotizado, olhava para o céu e proclamava meu estranho amor por Portugal como se fosse a única razão de viver de minha efêmera existência, algo abertamente platônico. Aqui é peculiar, nunca acreditei em singularidades, mas há algo de especial e inexplicável que podemos sentir todos os dias, a paz que sinto jamais sentirei em outro lugar, há uma atmosfera diferente que nos cerca quando olhamos para o horizonte, possivelmente foi esse retrato que camões tinha na mente ao escrever que o amor é fogo que arde sem se ver. Portugal, o melhor reduto de classicismo em toda Europa Ocidental; características que me enche os olhos em qualquer nação, talvez pela minha notável aversão ao pós-modernismo, e meu apego exagerado ao legado construído pelo meu povo. Viver em Coimbra beira a perfeição, a cidade tem um clima nostálgico que nos faz sentir indiscutivelmente a antologia do lugar. As construções, as pessoas, as paisagens…tudo é tão único. Estando aqui, tu sentirias o que digo. As memórias que aqui passei, eternamente guardarei, em uma sonata perfeita…

 

Perambulando pelas ruas de Coimbra vejo os casarões antigos e monumentos, lembro-me dos guerreiros navegantes que em uma insana aventura descobrira e colonizara lugares além-mar em todos os continentes habitados; lembro-me também dos ilustres trovadores românticos e suas epopeias do amor; lembro-me das belas moças camponesas que uma vez por ano vem para a Feira das Colheitas em Coimbra, sendo inspirações para os sensatos compositores. A beleza e simplicidade delas é de tirar o ar de qualquer um que diz se garantir como tal.

Hoje é frio, o Outono está em vigor e as folhas das oliveiras caem em um soneto sobre o mosaico antigo da rua Braga, os crisântemos ainda estão tímidos no botão, o velho cipreste da Rua Dias Lopes continua de pé em imponente formosura. Já ao entardecer o crepúsculo se aproxima e longe o sol começa a se deitar dando um contraste luminoso para as cerejeiras e pessegueiros; como sou apaixonado por todas frutas, espero que esse ano as colheitas sejam boas, para poder deleitar-me nas delicias da terra maravilhosa, como pode alguém não gostar de frutas?

Caminhando mais um pouco vejo crianças brincando com terra molhada em uma pracinha próxima de minha casa, o riso delas motiva qualquer um, sem razão ou causa desfrutam a plenitude da Felicidade, talvez a inocência cause essa transborda. Adianto meu passo pela rua almejando o meu destino diário, vou muito lá estudar; já se tornou uma de minhas moradias preferidas. Uma rotina que me acrescenta de diferentes formas.

Universidade de Coimbra, que belíssimo castelo, uma joia europeia. A Meca dos apaixonados por literatura ibérica. Observo os detalhes da construção e adentro logo, me apresso para ir para Biblioteca Joanina, minha mente está atordoada cheia de pensamentos que me assolam, talvez ficar muito tempo refletindo cause essa terrível sensação nos sábios. Hoje é um dos poucos dias que não estou vivendo o agora, múltiplos pensamentos paralelos me tira o sossego. Ainda sem soluções evidentes para minhas indagações maquiavélicas. A passos estranhos finalmente contemplo a formosa biblioteca joanina, o estilo barroco me encanta e me deixa por alguns segundos boquiaberto e com os olhos fixos nos mínimos detalhes, nunca vou me esquecer desse lugar; por uns instantes desfaço os maus pensamentos e desnecessárias indagações.  Lembro-me tristemente que lugares como esse, já estão sendo demolidos lá na França (Dói-me a alma) para dar lugar aos arranha-céus.

Vejo uma conhecida senhora velhinha de cabelos brancos que administra uma exposição de livros do Fernando Pessoa. Era minha madrinha, cresci na velha fazenda de meu pai aprontando com os filhos dela no meio dos bosques caçando e andando a cavalo. Eu amava os conselhos dela e sua atenção para comigo, isso desde minha infância. Por um tempo tive lapsos de memória dos tempos em que eu não levava nada a sério e só queria me divertir no meio do mato.

 

Que belo dia madrinha Olga, a benção, como a senhora está? Fiquei informado por Paulo Mouro que dois de seus filhos se aventuraram viajando para o Brasil junto com uns compadres a procura de ficarem ricos abrindo um comércio de instrumentos em uma tal de Baía, é Bahia ou baía? Infelizmente estava visível que esses meninos seus iriam sair daqui; eles viviam falando desse tal de Brasil… até que gosto de lá, dos lugares e da música, mas estou completamente enraizado nessa região como sabes. Os filhos de Rodrigues Velho falam que querem ir também, viver entre os açorianos de Santa Catarina, segundo eles o povo brasileiro é meio desligado para criatividade no comércio, com esforço nossa gente abre comércio com tamanha facilidade, uma pena que nos dias de hoje está cheio de ítalos que não gostam dos lusitanos. Os filhos de Isaac judeu também querem ir para o Brasil, abrir uma venda de automóveis com aval do pai… todo mundo querendo ir embora perambular atrás de trabalho ou ir para as colônias lutar contra os revolucionários que querem independência. As coisas por aqui já foram melhores. Uns vai e outros ficam, e outros vem…A vida que é assim. – Eu disse em um desabafo melancólico em frente a senhora, o efeito da saudade de meus amigos e camaradas também mexia comigo. Disse lembrando do que Salomão dizia: “Não há nada novo debaixo do sol’’.

 

–  Deus te abençoe meu filho. Nada estou bem Graciliano, essa saudade que sinto dos filhos meus ainda vai me tirar a vida, estou com 72 anos, estou nos meus últimos tempos, viver é bom, mas não é para sempre. Tu estás aí novo, tem muita vivência pela frente, mas um dia vais entender o que estou lhe dizendo e talvez vai lembrar dessa conversa. Tens que fazer o que queres em teu coração e mente, pois amanhã pode ser tarde… A indecisão meu filho, já é o não por definição… tu sabes que Cecília é a única que não me deixa, desde pequena junto comigo aqui nos livros e lá na feira nos finais de semana. Os filhos homens que ficaram, Maximiliano e Matias disseram que vão se alistar no Exército Português para impedir a perca das colônias em África para os comunistas, aí que tamanha será minha dor; não sei se ainda vejo em vida os dois que foram embora para o Brasil, mas sei que estão bem… imagina se esses daqui saem e vão se entrar no meio de uma guerra e morrem por lá… eu me lembro da época em que aqui tudo era pacato, infeliz de mim que estou vendo isso tudo se acabar.  E tu? Que rumos vai tomar de tua vida? Bem sei que és um homem já feito e tens firmeza no que pensas. Você se parece muito com meus filhos em personalidade e gostos, todos fanáticos por questões nacionalistas. Falava a senhora de seus filhos com os olhos cheio de lagrimas.

 

– Não sei madrinha, meu destino ainda não está claro, as coisas vão desenrolando do jeito que é para acontecer. Gosto muito de estudar essas questões de Filosofia e Humanidades, mas também gosto de atirar com meu velho Rifle m1 que herdei do meu avô, e amo Portugal como sabes tu; um nacionalista fervoroso como teus dois meninos. Penso em ir para Angola lutar contra os rebeldes cumprindo meu dever de bom lusitano. Eles não são capazes de nos deter em batalha, mas é provável que as Nações Unidas façam imposição para aqueles cantos ficarem independentes por medo dos soviéticos declararem a terceira guerra, eu nada tenho a perder, não temo a morte mesmo, ela deve ser uma morena dos cabelos ondulados. Mas posso prever que se eles ficarem independentes não serão bons países, tudo vai piorar, pois brigam entre eles mesmos e depois vem culpar a nós portugueses, sendo que fizemos grandes obras por eles lá, e estamos modernizando aos poucos aqueles lugares. Portugal foi um dos primeiros países a colonizarem graças a coragem navegante e provavelmente será o último a tirar os pés de seus domínios. O que me dói é que essa juventude pouco se importa com essas questões, só pensam em comprar e se divertir com coisas supérfluas. Estudar? Nem querem saber. São Sebastião se estivesse vivo prantearia gritando pelos cantos deste castelo. – Falava eu com uma retórica irônica enquanto olhava o teto do ambiente lembrando das glórias do passado.

 

 Tu não irás não, tu tens vocação de bom estudante em Coimbra – dizia ela com cara de decepcionada. Provavelmente serás um bom escritor e talvez um bom professor, pena que és impaciente demais e um tanto nervoso. Quer as coisas para agora e acabou…  Sei que você é de boa família, brevemente irás casar com uma boa moça e sossegar por aqui mesmo. Pensas que não vi aquele dia tu olhando para minha sobrinha Ana? Tu não tens medo mesmo, ela já é noiva do bravo castelhano Jorge. Eu estou lhe importunando demais contando as coisas de minha vida, deixa eu cuidar de meus afazeres aqui na organização, vais logo estudar. Uma pena que meus meninos de jeito nenhum gostam de ficar horas e horas aprendendo nesse lugar tão rico, preferem ficar jogando futebol lá perto da casa de Joaquim Davi ou então na Feira da rua Pedro IV, mas sobre esse segundo ponto não posso reclamar, eles são bons trabalhadores. Eu não vou lhe atormentar mais com minhas conversas, vais lá fazer o que programou. – Dizia a senhora cheio de orgulho dos filhos trabalhadores que nunca desonraram a mãe.

 

Os leitores nem sequer piscavam os olhos, olhavam fixo para as folhas do livro. Uns preguiçosos dormiam e babavam em cima das obras. Ei, aquele falastrão eu conheço… um safado conversador que implicou comigo outro dia na festa de Ano Novo… Só porque tem algumas posses se acha melhor que todo mundo; se o papai cortar a mesada ele fica sem nada, pois não trabalha e é mais burro que uma porta. Lembro-me da briga que tive com ele, as escoriações do rosto dele ainda são visíveis e meu braço ainda dói… meus passos são mais largos para evitar outra confusão ou contato com aquele patife. Não quero trazer constrangimentos para os presentes. Escolho entre as opções um livro que sempre tive curiosidade de ler, mas que sempre adiava por uma intuição estranha, A metafísica do amor. O amor é um assunto muito complexo para resumir em um livro, creio eu. Nem sei se já amei alguma mulher, provavelmente não. Sempre cogitei em minha mente que as pessoas mutualmente se atraiam pela beleza, completude ou similaridade de gostos. Cria veementemente que o amor não era um sentimento, mas um comportamento, uma atitude que escolhemos ter. As variantes que seriam os diversos amores era apenas o velho e eterno amor moldado com adornos em situações diferentes. Apesar de minha pouca beleza que não é problema para mim, consigo me envolver facilmente com mulheres, ter uma personalidade agradável ajuda-me muito. Mas nenhuma mulher me desconcertou nessa vida, a que conseguir esse feito, me terá. Termino minha leitura diária e faço alguns resumos destacando com uma caneta verde as palavras chaves. Um pouco cansado saio da universidade, de manhã trabalhei em uma reforma lá em casa.

 

As passadas são bem mais largas, quase um pique, pois o tempo está se fechando como um pergaminho babilônico nos céus. A tempestade é estarrecedora e causa um alvoroço nos trabalhadores que deixam neste horário o expediente, todos correm com o pedaço de papelão sobre a cabeça, estavam desprevenidos, ninguém sabia que ia chover essa semana, foram pegos de surpresa… os mais engraçadinhos gritavam que iam tomar banho por ali mesmo para tirar o suor do corpo e torciam feito a torcida do Benfica para que caísse granizo, os frescos sussurravam murmurando entre os seus… é difícil entender gente, agem como sábios do clima o tempo todo e reclamam de qualquer tempo vigente. As mães arrastam as crianças que esperneiam querendo ficar no meio da chuva brincando.

Estava no meio do caminho para minha morada, apressadamente procurando o primeiro refúgio interessante onde entrar, não me arriscaria a ficar debaixo de um cipreste velho enquanto os raios rasgavam o céu e a grossa chuva caia em um contrastava sobre os históricos mosaicos. A poucos metros vejo a adega e petiscaria do senhor Mário Alvarez. Era simples, mas as bebidas tinham qualidade excelente e preço em conta para meus poucos trocados. Se não estivesse de bota nessa enxurrada, provavelmente o calçado ficaria entupido de água.

Piso fortemente três vezes no tapete azul de entrada para evitar qualquer resquício da lama que pudesse sujar o pomposo ambiente. Sento em uma cadeira próximo a parede e descanso respirando fundo olhando para a vidraça, e desabotoando os três primeiros botões da minha camisa social, esperando a atendente chegar para anotar o que quero hoje. Lá vem a Márcia, uma antiga colega de classe que trabalhava lá a poucos meses.

– Boa tarde Graciliano, quanto tempo? O que vais querer dessa vez? Já sei, chá mate e uma porção de biscoitos de aveia! Quase sempre você pede isso, todos aqui já decoraram seu gosto. Sinto lhe informar, mas o mate que o patrão encomendou ainda não chegou do Brasil e os biscoitos ainda não vieram da padaria por causa da chuva. Talvez queira chá preto ou chá verde ou beber algo mais forte, um licor de jaca talvez – dizia ela enquanto olhava para os lados com uma cansada expressão facial, como se estivesse exausta do expediente, como se não gostasse de trabalhar ali.

 

Marcia, traga-me uma taça daquele vinho tinto, faz muito tempo que degustei um bom vinho… E uns dois pastéis de bacalhau por favor… se lembra da época em que estudávamos juntos? Aquela época foi marcante, tivemos bons colegas, a turma era bem unida, tem visto eles? Alguns eu encontro na rua de vez em quando, estão do mesmo jeito … aproveitamos muito aquela época, até fazemos viagens com a turma para Espanha e Itália… já faz uns sete anos que terminamos o colegial, como o tempo passa rápido hein… e como estão seus filhos? Mande um abraço para o Pedro meu primo, se estão juntos hoje é graças aos encontros que marquei… Pedro era tímido demais, mas hoje até que melhorou. Soube que vocês compraram um sítio. – Eu dizia com um sorriso no rosto, porém também cansado.

 

– Você se lembra de tudo, não é? Sua memória é assustadoramente boa – Ela gargalhava lembrando das palhaçadas que aprontamos juntos na época de escola; pediu licença, pois o filho do dono, que era gerente, estava a olhando atravessado com a cara amarrada. Provavelmente brigou discutiu com o pai sobre algum motivo fútil ou porquê tem um ar de superioridade aos demais. Eu mantinha o sorriso sarcástico no rosto para provocar. É prazeroso tirar idiotas do sério, ele tinha medo de vir perguntar o porquê do meu riso de canto, de longe apenas vazia biquinhos e carões e cochichava com o amigo ao lado. Como já dizia o grande pensador popular: Cara amarrada é fome!

 

Ouve-se um terrível estrondo, da vidraça só se ver o clarão no final da rua… sim, um raio caiu ali perto. Não tenho medos de raios mesmo, mas no momento me assustei… A luz do ambiente começa a piscar, a energia cai. Houve se gritos desesperados das mulheres amedrontadas pelo escuro do lugar, o barulho dos trovões da harmonia para a situação. Os cavalheiros pedem calma de todos do ambiente e prometem que a chuva logo passará; uma parcela dos espertos sai correndo da loja para evitar pagar a conta, ouve-se barulhos de copos caindo no chão, tão burros que esqueceram as jaquetas molhadas no canto da parede, eram todos do clube de motoqueiros do bairro Norton de Matos, seria fácil identifica-los para cobrar o gasto … Os jovens engraçadinhos começam a uivar e gritar ‘’We Will Rock You’’ enquanto marcavam o compasso batendo nas mesinhas de madeira, era a geração Queen… revoltosos sem causa, o maior dilema era brigar com os pais. Os funcionários traziam com raiva nos ombros pedaços de lenha e as colocam em uma lareira que ficava ao fundo… logo via-se uma luz baixa tomar o ambiente. Ninguém quer ir embora por agora, todos esperam o mal tempo passar pois poderia cair granizo. Começo a observar o ambiente, as garotas já se acalmaram…continuo a beber taça de vinho tinto e direciono meus olhos para a pequena lareira.

Lá está uma mulher totalmente focada na leitura de um livro, sentada em uma cadeirinha de madeira enquanto tomava uma xicara de chá e comia alguns biscoitos. A miopia faz-me ver embaçado o rosto dela. Curiosamente, como quem não quer nada me aproximo para criar assunto em meio aquele temporal, não queria perder minha noite sem conversar com alguém; era uma belíssima moça, olhos cor de âmbar que hipnotizam qualquer um… não me detive em olhar discretamente para o corpo perfeitamente desenhado da dama. A cintura era fina, os quadris largos, o tipo físico que os homens geralmente ficam atraídos… ela usava um vestido amarelo bordado, tradicional das moças que labutam no campo. Temo levar uma resposta rude ao iniciar a conversa.

 

– Olá moça, tudo bem? Poderia mostrar-me o livro? ­­– dizia eu, sem folego, enquanto me via totalmente encantado pela bela jovem. Misteriosamente não consegui manter a calma e racionalidade que sempre tive, comecei a suar frio e tremer, senti meu coração batendo mais forte, minha face se avermelhar com o pulsar dos segundos. Digo de forma imponente meu nome para a conversa não se findar em poucos segundos.

 

– Olá Graciliano, meu nome é Raquel Isabela… não venho sempre aqui, eu sou do interior dessa região não muito longe, moro em uma fazenda a uns cinquenta quilômetros daqui… Érico Veríssimo, conhece? Autor brasileiro – Dizia ela enquanto olhava diretamente nos meus olhos com um leve sorriso no rosto e contava-me de seus gostos. Naquele instante paramos no tempo, a misteriosa sensação mexia com nossas emoções e nos abalara mutualmente. Ela age de forma convidativa a uma conversa.

 

–  O Tempo e o Vento? Um dos meus romances prediletos, ler romance é bom e viver um é melhor ainda… ainda mais se esse romance for com alguém que gosta de romances… uma moça do campo é tudo que sempre almejei – Falara eu corajosamente enquanto a olhava diretamente nos olhos. O nervosismo colocava palavras em minha boca. Perdi completamente a linha. Comecei a falar o que gosto de fazer na vida continuando o papo.

 

– Um novo romântico? … é bom saber que alguém dotado de saber goste também de fazer loucuras em vez enquanto… gostas de viajar e fazer coisas radicais e também da vida no campo, amante da liberdade… fiquei surpresa que desejas um amor romântico, pois também o procuro… você parece ser diferente, geralmente quem se dedica ao conhecimento é meio isolado da vida social e sem assunto com as mulheres, o contrário também é valido, quem se aventura não é inteligente – falava ela de forma extrovertida.

 

– Acredito que nada é acaso, estamos aqui juntos hoje esperando a chuva passar em meio ao temporal que rasga o céu agora…bom que não perdi meu dia, conheci uma bela moça de gostos nobres, não acredito de jeito nenhum em coincidências, principalmente essa. Você acharia ruim se eu falasse que desperta meu interesse? … poderíamos nos encontrar mais vezes para conversamos mais, sair um pouco. – Dizia eu, em uma retórica corajosa enquanto entrelaçava minha mão ousadamente sobre a dela.

 

Ficamos conversando amistosamente por horas, tudo dando certo… por fim ela se levantou e me abraçou e me deu a mão. Até o entardecer ficamos ali, até o ambiente se esvaziar por completo, paramos no tempo como uma sonata perfeita. Nossos assuntos se complementaram nos mínimos detalhes, sua voz era suave e encantadora. Sua beleza era interior e exterior. A chuva havia passado, e caminhávamos pela rua.

 

– Mas tem um problema… estou indo para o Canadá daqui a dois dias, irei ajudar meu irmão que está montando um negócio por lá com meu pai. Mas voltarei, se você ao menos esperasse, mas é pedir demais… me procure daqui a dois anos, no começo de novembro aqui mesmo nesse café, o lugar que nos conhecemos. Se for para acontecer, nossos destinos se coincidirão novamente… – Ela me abraçou em um tom de despedida, senti o seu doce e suave perfume de laranjeira, peguei-a com firmeza na cintura e passei a mão em seus cabelos longos e pretos como a noite e a beijei no canto da boca. Ela entrou em um ônibus com destino à capital. Tive a sensação que seria a última vez que veria aqueles olhos.

 

Se vi ela novamente?

No seguinte mês fui recrutado e enviado para a Cabinda para lutar na colônia. Felizmente sobrevivi, e meus irmãos de criação os filhos da Olga também. Chegamos em Coimbra em 1976 com várias medalhas de honra, a cidade nos esperava no centro, fomos ovacionados pela população local. Não conseguimos o que queríamos, eles ficaram independentes, mas vencemos o conflito. Nunca a esqueci, todos os dias sempre esteve em minha memória.

Em 1978 passeando pelas ruas de Coimbra sentei na praça para conversar com alguns conhecidos. Resolvi ir lá no Mário tomar meu vinho de sempre. A vi sentada no mesmo lugar que outrora a conheci… dessa vez ela não roubou meu ar, ela era meu próprio ar. A abracei sem dizer nada e chorando a beijei. Casamos três meses em Coimbra… não é tudo perfeito, em alguns momentos discutimos, mas faz parte. Hoje ela está deitada aqui no sofá entrelaçada em meus braços… ela espera nossos bebês, irá ter gêmeos.

 Caso a chuva caia forte por aí, caminhe e entre um refúgio, espere o mal tempo passar e encontre sua paz…

 

 

 

 

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