[+18] Há tempos

Havia acabado de sair do banho quando notei que o celular estava largado no chão da cozinha. Sou desses que preferem andar com o aparelho no modo vibratório, ou seja, se ele despencou por mais de um metro da bancada ao piso, significa que alguém me ligou de forma incansável. Peguei o aparelho e caminhei pelo corredor no caminho ao quarto. Quando desbloqueei a tela, vi que a quantidade de ligações pertenciam a Clarisse, minha melhor amiga. Desesperada (como aparentava estar), fez questão de chover meu WhatsApp de mensagens, antes mesmo de tentar partir para o contato direto.

Quando procurei saber o porquê de tanto alarde, assustei-me com a última mensagem enviada por ela;

Allan… Está decidido! Vou me matar! Adeus meu amigo, dessa noite eu não passo.

Quando li aquilo, o smartphone encontrou o chão novamente. Não me recordo de ter colocado uma sunga, esqueci-me completamente de onde guardava minhas blusas. Apenas vesti a primeira calça que encontrei jogada na casa e corri em direção ao ponto de ônibus.

Estava chovendo muito aquela noite. Depois dos minutos fracassados tentando retornar as ligações que recebi, joguei-me em frente ao primeiro ônibus que passou pelo ponto. O motorista quase vomitou a própria alma. Não é toda noite que um branquelo seminu, sujo de lama, se lança em frente ao seu carro.

Abra a porta! Por favor! É uma emergência! – Gritei para o bairro inteiro ouvir.

Quem estava “pilotando” era um senhor de cabelos grisalhos, bem coroa; desses que ainda utilizam óculos com cordinhas. Ele escutou os meus apelos e abriu a porta dianteira. Subi e sentei-me na escadaria a sua frente.

Ah! Muito obrigado, moço. Graças a Deus, peguei um ônibus que passa por “lá”. – Desabafei.

O motorista me encarou com um semblante um tanto frio e disparou;

Bom, eu não faço o caminho do posto médico, meu filho. Você precisa pegar o 530, passa daqui a dez minutos! Fique esperto, pois é o último da noite e….

Não! Não! Não é isso, senhor. – Gaguejei interrompendo as instruções;

Ué? Então… do que você precisa? Você usou drogas? Fez algo de ruim? Quer uma oração? Há uma evangelista no banco logo atrás, ela pode te ajudar, se quiser.

O velhinho ameaçou desligar o ônibus para me dá atenção e talvez, algumas lições morais. Neste momento meu coração subiu na garganta. Fui obrigado a levantar e definir o quão vermelha era a situação;

Não! Também não é isso, quer dizer, talvez seja – talvez precise. Não pra mim, mas… Ah! Por favor! Eu só peço que dirija! Dirija muito! Minha amiga está tentando se matar nesse exato momento!

O quê?!

Os olhos do volante  estatelaram em reação as minhas palavras.

É isso mesmo! – Gritei dando um tapa na caixa de motor, gesticulando feito um louco.

Estávamos alcançando a madrugada. E naquela hora da noite, haviam poucos passageiros no ônibus, três ao máximo. A única que notei, graças a fala anterior do motorista, foi a senhora que estava no primeiro banco, logo após a roleta. Ela estava bem arrumada, com uma bíblia no colo e me olhava como ninguém.

E onde ela mora? – Perguntou o condutor.

Umas seis quadras daqui, ao lado de uma padaria azul. Esse é o ônibus 520, certo? Sua linha passa bem em frente. Apenas dirija, por favor, me ajude! ­– Supliquei feito uma criança que perdera os pais.

Imediatamente o velhinho seguiu. Ele pisou tão forte no acelerador, que cai sentado nas escadas. E por lá fiquei, enquanto ele cortava as poças d’agua e os quebra-molas típicos da Baixada Fluminense. Procurei não me distrair com as ruas, aproveitei a corrida para pegar o celular no bolso e voltar a conversar com a Clarisse;

Clarinha. Amiga! Me Responde?! O que você está tentando fazer? Tá em casa?

Ela visualizou e respondeu em seguida;

Sim. Pensei em me jogar no poço, mas a água estava muito limpa. Limpa demais para alguém tão suja quanto eu.

Porra! Não fale besteiras!

Eu não aguento mais Allan, não suporto mais… Minha vida é um desperdício.

– Cala a boca! Diga-me o que houve dessa vez! Foi o seu padrasto de novo?

Não aguento mais o que ele faz com a minha mãe, amigo. Nem o que faz comigo. Já perdi minhas virtudes, minha alegria. Estou rouca pelo choro, mas com uma vontade enorme de gritar! Se minha voz tivesse metade da força dessa dor que carrego no peito, a vizinhança inteira já estaria acordada com meus gritos.

– Hey, mantenha a calma. Se esconda dele! Eu já estou chegando ai! Por favor, não faça nada até eu chegar. Nós só temos uma vida, não a destrua por causa de um idiota.

Não… Obrigado por se preocupar comigo. Não estou muito a fim de falar muito, Allan. Bancar o filósofo na morte é coisa de filme. Só fiz questão de te avisar porque você foi o único que sempre me apoiou desde quando cheguei na cidade. Porém, Eu desisto.

Não?  Como assim, não? “Não” digo eu. E todos os sonhos que você tem, garota? Nossa vida, nosso mundo e todo resto são imperfeitos, mas os sonhos não são.

Era incalculável a agonia que senti naquele momento. Nenhum conselho “máster” surgia na minha cabeça. As curvas feitas pelo velhinho na estrada, os giros a toda velocidade pelas esquinas. Os palavrões ao fundo dos passageiros que faziam sinal, mas eram ignorados. Os trovões no horizonte e a ideia de que, talvez, aquela fosse a última noite da qual manteria contato com a Clarisse… Por fim; era demais para consentir.

Quantos temores nascem do cansaço e da solidão. Como os jovens andam doentes hoje em dia! Vejam só, tentativa de suicídio? Isso é mesmo falta de Deus! Ah, essa geração de sorrisos enferrujados… Como chegamos a tanto? – Disse a senhora sentada no primeiro banco.

Minha senhora, não fale assim. Ficou louca? A senhora não sabe o que ela passa. Não é fácil conviver com um bêbado dentro de casa. Muito menos com um bêbado que espanca sua mãe na sua frente e na frente dos seus irmãos menores. – Retruquei.

Não me chame de louca rapaz. Eu sou cristã. O que digo tem fundamento, mostre mais respeito!

E daí? A senhora pode ser cristã, mas não é santa. E mesmo que fosse, hoje em dia, nem mesmo os santos reconhecem a própria medida da maldade. O padrasto de minha amiga já foi pastor, nem por isso deixa de ser um desgraçado!

Vendo a situação esquentar, o motorista interrompeu o diálogo:

Calma rapaz! Diga-me, qual é mesmo o seu nome? 

Allan.

Então Allan, você já pensou em chamar a polícia? – Questionou, sem tirar os olhos da pista.

Ele é policial – Respondi – o padrasto dela é sargento da delegacia aqui do bairro. Ou seja: temos um armado bêbado e espancador de esposas.

Então! Eu acho perigoso você entrar lá assim moleque, não sabemos o que aconteceu. Acima de tudo, mantenha a calma e tente acalma-la também. Nós já estamos chegando. – Apesar da velocidade, o velho foi sereno e tentou me acalmar a viajem inteira.

Os segundos pareciam eternos! Foram quinze minutos num verdadeiro inferno psicológico. Quando já havíamos alcançado metade do caminho, dediquei minhas atenções novamente ao WhatsApp. Clarisse havia visualizado, mas não respondera. Então insisti mais um pouco.

Clarinha? Lembre-se do último fim de semana que dividimos. Já estávamos acostumados a não ter dias tão bonitos assim, mesmo assim, aconteceu. Lembre-se de tudo que conversamos, das coisas que me disse. Dos seus planos para daqui há dois anos -, completar a maior idade, pegar a grana da poupança que seu pai deixou de herança, tirar sua mãe daí… Não acabe com tudo dessa forma, a sua superação garantirá a felicidade de muitas pessoas, inclusive a minha.

Ela já estava demorando para responder. Meu nervosismo andava a flor da pele. Até que, finalmente, o celular vibrou;

Obrigado Allan. Só que não sei se consigo aturar mais. Sinto que estou largada aos braços do acaso.

–  Consegue sim! E você não está! Toda essa dor se resume a um lado da moeda. Você está cercada de pessoas que te amam e eu irei provar. Só me dê mais cinco minutos, já estou muito perto.

Faltavam apenas duas esquinas para chegarmos a padaria. Muitas coisas dançavam nos meus pensamentos. Para pegar um atalho, o ônibus passou pela rua do colégio no qual eu e Clarisse completamos o ensino médio. No muro próximo ao portão, ainda estão os dizeres que grafitamos em tinta barata, para reflexão das gerações seguintes. Dentre outras coisas, havia a frase: “Disciplina é liberdade!”. Uma ironia ao chato e sistemático do diretor; um ex-militar que costumava barrar nossas zoeiras e batidas de rock pelo pátio, com o argumento de que aquilo tudo era um desacato a sua autoridade.

Enfim… Eu precisava recuperar o fôlego. Restavam poucos minutos.

Posso ver a foto da menina? Por favor! – Pediu a senhora.

Sim, tudo bem… – Entreguei meu celular mostrando a foto de perfil da Clarisse, no WhatsApp.

Ela fechou os olhos e sussurrou algumas palavras, pareceu-me uma breve oração. Quando terminou, ajustou os óculos ao brilho da tela e opinou;

Nossa! Deus do céu! Como ela é parecida com a minha sobrinha!

Estiquei um breve sorriso; visivelmente inquieto.

E esse status? “Ter bondade é ter coragem”? De onde ela tirou isso? – perguntou.

Bem, ela já não andava na melhor fase… Há tempos!

Então mantenha a calma, meu filho. Ela precisará da sua amizade como base. Relaxa, confie em Cristo. E lhe digo mais: eu concordo com o status dela. Mas sei que você irá ajudá-la a recuperar essa coragem.

Ela me olhou de um modo que aparentava arrependimento e confiança ao mesmo tempo, eu gostei.

Obrigado! – Agradeci e caminhei em direção a roleta para buscar o celular.

No instante em que pegava o aparelho das mãos da senhora, o motorista freou de tal maneira, que minhas costelas foram beijadas pela roleta.

CHEGAMOS! – Ele gritou – Essa é a tal da padaria azul? Onde fica a casa dela?

Logo ao lado! – Respondi quase cuspindo os dentes, o impacto foi doloroso. Posteriormente, agachei-me, não pela dor, mas para buscar meu surrado smartphone, cuja a tela trincou ao encarar o chão mais… uma… vez…

Desci do ônibus às pressas e arrombei o portão no primeiro chute.

Traga a menina para cá, vamos leva-la ao hospital. Estou ligando para a polícia! – Gritou o motorista.

Ao caminhar pelo quintal, passei pelo poço de Clarisse, que por sinal estava aberto. Corri até ele para me certificar de que não estava tarde demais. Meu reflexo não deixava dúvidas: ele estava vazio. Virei-me e andei em direção a porta da sala. Ao me aproximar, pude ouvir alguns berros vindos do interior da casa. Tentei forçar a entrada, mas notei que era desnecessário, pois a porta só estava encostada.

Quem está ai?! – Ecoou uma voz grave e Claramente alterada. Não sabia ao certo de que canto surgia, do banheiro talvez.

Como já conhecia a casa de Clarinha, fui tropeçando até o quarto. A casa estava escura e completamente bagunçada. Cacos de vidro e restos de objetos fincavam no meu tênis.

Quando finalmente cheguei ao quarto de minha amiga, adentrei pela porta entreaberta e vi que ela estava lá, jogada de bruços no chão. A única luz do cômodo era da insistência do meu chat, em aberto no celular dela.

Clarinha! Clarinha! – Um chamado para cada passo em direção a ela. Agachei-me e cutuquei suas costas. Pude ouvir seu choro abafado.

Eu cheguei, querida!

Tudo passara despercebido: a lama, a chuva, o suor, as lagrimas… os detalhes presentes no meu corpo, foram acolhidos pelo calor daquele abraço. Levantei minha amiga e a coloquei sentada na cama. Ao ligar a luz, vi as marcas e as escoriações espalhadas pelo seu corpo. Seu olho esquerdo estava roxo, lagrimas num tom vermelho transcorriam metade de sua face.

O que esse desgraçado fez com você!? – O ódio tomou conta de cada ponto do meu corpo, meus punhos se fecharam, minha vontade era de destruí-lo.

Antes que ela respondesse, olhei ao redor do quarto e vi o quanto ele estava revirado. Pontos brilhantes espalhados pelo chão atiçaram minha curiosidade.

O que é isso? – Perguntei apontando para baixo.

Restos de cocaína. – Ela respondeu em seguida.

É sua?

Não, é dele. Estão espalhadas pelo seu corpo. Minha mãe o flagrou usando no banheiro, deve ter ficado no meu corpo enquanto brigávamos. De mim, só há fracasso e tristeza. Normal desde que me mudei pra essa cidade.

Seja forte, vou te tirar daqui. Você nunca mais voltará para a casa dele novamente. Te prometo!

Allan, vá embora… Não podemos fazer nada.

Nós podemos sim! E vamos!

Enquanto conversávamos, o som de da buzina do ônibus acordou metade da rua. Olhei pela janela e vi que as sirenes se aproximavam ao fundo. Roberto, padrasto de Clarisse caminhava furioso e embriagado até o portão. Ele estava armado.

Isso tudo acaba hoje, minha amiga. A polícia está chegando. Arranjaremos testemunhas, dessa vez ele não escapa! – Procurei tranquiliza-la.

A discussão entre Roberto, o motorista e os passageiros durou muito pouco. Assim que a polícia chegou o maldito foi rendido, preso e colocado na parte de trás da viatura. Naquela altura da madrugada a chuva já havia cessado. Uma ambulância chegou para prestar os primeiros socorros a mãe de Clarinha e suas irmãs. Chegando ao final da noite, pedi aos policiais alguns minutos com Clarisse. Ficamos sentados no quintal, ao redor do poço. Tentei distrai-la jogando conversa fora, obtive leves resultados;

As coisas que você me disse pelo Whats… Obrigado, meu amigo! Há tempos não me lembrava desse sonho. Sabe? De deixar isso aqui, de dar uma vida melhor a minha mãe. Enfim, Espero que ele seja levado a justiça!

Não tenha pena e nem compaixão desse crápula! A compaixão é uma das nossas maiores fortalezas, guarde-a pra quem merecer.

Awn. Obrigada, obrigada por existir…

Clarisse me abraçou e juntos ficamos observando nossos reflexos na água.

Você tem razão! – Sussurrei.

No quê?

Essa água é muito limpa. Estou pensando em aproveitar e saltar ai dentro. Preciso tirar esse lamaçal do meu corpo. Haha!

Quando terminei de falar, pude vê-la sorrir pela primeira vez. Depois de tempos e tempos…

 

Para entender a poesia por trás do conto, assista:

 – Música: Há tempos, Legião Urbana

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4 comentários em “[+18] Há tempos

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  1. Não vou clicar em curtir porque me frustrei…. Pra mim deveria acabar com a frase:
    Clarisse só tem 14 anos…

    E ao chegar no banheiro a cena teria que ser:

    Clarisse
    faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
    Deitada no canto, seus tornozelos sangram
    E a dor é menor do que parece
    Quando ela se corta ela se esquece
    Que é impossível ter da vida calma e força

    Mas foi bom…

    Curtido por 1 pessoa

    1. É outra das lindas composições. O nome da personagem realmente nasceu pensando nela. Mas se for para posiciona-la ao contexto do conto, podemos dizer que a história da música, “Clarisse”, acontecera anos antes de todo este episódio. Assim podemos ter esperança de que tudo acabou bem…

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      1. Você é um otimista… Kkkk… Não imaginei Clarisse tendo chances quando escutei o cd pela primeira vez… Corri pegar o encarte para ler a letra e ver se não tinha me enganado… A doença do Renato já estava avançada e ele não estava otimista nas músicas, que continuavam belas… A tristeza é bela vendo de fora…

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