Inerente

Estávamos aproveitando a noite quente de verão para conversar sobre o passado e vislumbrar o futuro, brincadeira de toda gente sã e tranquila. Num dado momento o céu iluminado foi invadido por uma nuvem trovejante que nascia no Norte e aos poucos, foi devorando as estrelas. Subimos novamente a rua de casa e sentamos num dos bancos de concreto de um bar que estava fechado. No caminho, ela comprara um saco de jujubas e dividimos os doces, sem, é claro, perder o foco da situação.

Aryani estava obcecada em defender a tese original da conversa, a questão que motivou o encontro. O teor dos argumentos não deixava dúvidas de que ela estava disposta a morrer cultuando as mesmas ideias;

Todo homem é um babaca! – Ela exclamava. E não parava só por aí. A Ary era dessas que falavam bem, mas não sabiam ouvir.

Você, meu grande amigo, não é nem uma exceção. É um esforçado! Pois faz questão de ir contra a própria natureza – a natureza da canalhice! – Completou.

As ofensas da minha amiga (e falo de ofensas a espécie, pois não levei para o lado pessoal) eram errôneas, claro. Ela estava equivocada. Por um lado, não existem provas biológicas, cientificas, históricas, ou até mesmo teológicas de que todo homem na fase adulta, sem exceção, é um completo babaca. E entenda-se “babaquice”, ao menos, na forma como ela aborda, como uma graduação com ênfase em machucar corações femininos. Existem caras diplomados nisso, outros além de diplomados, são experts, pois dão aulas do assunto. Todavia não são todos os homens que se enquadram ao caso e eu sei que no fundo ela possui consciência disso. Porém a nervosinha não perdoava a razão, pelo contrário: fuzilava a mesma constantemente, com balas e mais balas de generalizações diversas.

Só que por outro lado, suas queixas possuíam um fundamento filosófico. Como já dizia nosso querido Nelson Rodrigues: no Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. Essa máxima rodriguiana com a saborosa cobertura cultural tupiniquim subiu à minha cabeça no momento em que mastigava aquelas palavras pesadas junto as jujubas. “Porra! Será que até mesmo eu, o esforçado como ela diz, sou um mero peixe nadando contra a maré? Será que irei ceder a real natureza da raça masculina um dia? “. Meditei sobre a maldita possibilidade enquanto ouvia.

Quando a chuva começou a cair, ficamos observando o desviar dos carros pelas poças formadas no asfalto. Dividíamos um silêncio por alguns minutos, ouvíamos apenas os pneus e as notificações de mensagens dos aplicativos nos celulares. Num dado momento, ela rompeu esse padrão, parecia inconformada… no mínimo arrependida por todas as coisas que falara enquanto nervosa;

Hey! “Cê”, me desculpa, em! Quis ofender não. Mas tu me conheces, depois que terminei com ele, jurei a mim mesma que não ficaria mais com outro cara. Acho que vou partir para as mulheres, pelo menos elas sabem o que fazem com as línguas. Quem sabe dá certo. – Aryani tinha terminado o namoro com Alex, colega de trabalho, há um mês.

Você não me ofendeu, Ary. Relaxa. Na verdade, só estava pensando um pouco no que você disse. – Posicionei-me. Em seguida, complementei com a conclusão que havia tirado sobre o caso;

Eu discordo de você!

Em quê? – Ela perguntou de boca cheia. Deduzi que não estava lá recebendo a melhor atenção do mundo.

Na parte em que todos os homens são babacas.

É, talvez eu tenha exagera…

Não! Não foi exagero. Quer dizer, não totalmente – Interrompi sua fala mastigada e continuei – O que você disse sobre os homens é evidente, diria até mesmo que é uma imagem que muitos de nós não fazemos questão de mudar, sabe? Há quem até mesmo tenha o costume de exibir isso aos outros, de vez em quando.

Ah… Tá vendo só! Então é algo natural, todo cara é assim: um retrogrado idiota – bastou acariciar o ego, que a atenção dela estava de volta.

Mas é aí que está, minha amiga. Existem níveis e níveis de babaquice.  O primeiro deles é tolerável, mas o pior beira a canalhice. Há um universo distanciando o marmanjo que chega em casa do futebol de domingo podre de lama, sujando o piso da cozinha que a esposa acabou de limpar, do babaca que mente sobre o mesmo futebol de domingo e ao invés de se encontrar com os amigos, vai ao motel com a amante.

Hum…

Esse nem é a maior evidência do seu mal-entendido, baby.

O que!? Como assim?

A babaquice não é um mal exclusivo aos homens, mas a espécie humana inteira, isso obviamente, inclui as mulheres. Até você nada contra a maré, contra a natureza de ser canalha. Aliás, quando quer, né? Quando está a fim de ser boazinha. Há momentos em que você se entrega, na maioria das vezes, comete deslizes bestas de um jeito ou de outro.

Ok, ok… sei que falei muita coisa que não deveria ainda a pouco, mas entenda, eu estou puta! O que ele fez, não se faz a nenhuma mulher. Só que mesmo assim, isso não quer dizer que estou sendo babaca.

Isso é o de menos… – Eu não levava a tristeza e a raiva dela em conta, Aryani foi traída pelo ex-namorado. Eu entendo o quanto é complicado, contudo aquela visão derrotista do universo masculino enraizado no coração dela, tinha que desaparecer.

Aff! Aonde você quer chegar? – Ela respondeu logo, parecia curiosa.

Somos amigos não somos?

Claro. Sempre!

Como nós paramos aqui? Essa noite? Você ainda lembra de tudo que aconteceu contigo, mas lembra do que rolou comigo?

Sim, lembro.

Eu briguei com a minha ex-namorada ontem. Hoje, iria até a casa dela para tentar resolver as coisas, mas você ligou e disse que precisava me ver, disse que precisava desabafar e que a nossa amizade era mais importante do que meu fragilizado namoro. Ontem, quando precisei de você para a mesma coisa, você ignorou. É claro que você não é uma canalha. Não ao ponto de dar em cima de mim, ou de tentar afogar todas as mágoas do seu ex, sentando no meu colo. Mas acho que, inegavelmente, você foi um pouquinho babaca sim, primeiro por me obrigar a colocar a nossa amizade em xeque, me forçando a optar por vê-la, sendo você uma pessoa incapaz de fazer o mesmo por mim.

Ual. Eu… Bem, amigo…

Calma, ainda não acabei. Esse foi apenas o primeiro motivo, o segundo é a ironia existente entre você e sua própria  fala; você critica todos os homens apenas pelo que o Alex lhe fez. Só que ao mesmo tempo, buscas consolo nos exatos braços de um homem, um fruto das suas críticas. Seu melhor amigo, que nunca errou com você. Não dá pra entender esse negócio, é como ser xingado por oferecer bom tratamento.

Por fim, falei tudo aquilo que senti que deveria dizer. Ela que tanto adora falar, acabou muda. E a nossa troca de olhares perdurou alguns segundos, até ela voltar novamente as atenções para o celular, que vibrou incessantemente; era uma chamada. Querendo quebrar o gelo, ela atendeu e o “climão” foi pro espaço.

O que você quer?! – Indagou logo de primeira. Seja lá quem fosse, não merecia um “boa noite”.

Era o Alex do outro lado, tentando dar algum novo golpe, trabalhar em cima da carência dela. Não soube ao certo o que ele falava, não dava para ouvir devido ao som das gotas de chuva, porém Aryane foi escorregando o celular da orelha a bochecha a medida em que ensaiava suas caras de deboche e logo em seguida, desligou o telefone. Ao que parecia, na cara do sujeito.

Entendi que ela finalmente se cansou daquilo.

Eu pensei melhor. Você está certo, eu fui uma tremenda babaca. Não farei novamente. Não vale a pena ficar chorando por esse idiota – concluiu.

Eu concordo com você – disse brincando e desacreditado, claro. O pessimismo é um dom para poucos.

Levante-se! Precisamos comprar mais doces… talvez uma garrafa de vodca. Aliás, se você quiser, claro. Se quiser encontrar a sua ex-namorada, vou entender. Afinal, já vai dar meia noite. Seu aniversário de namoro seria amanhã, né? – Ela estava reanimada.

É! – Disse levantando – você está certa.

E então, o que você vai escolher?

Eu não sei. Se as alternativas se resumem a sua companhia e a dela, certamente uma das duas me chamará de canalha até as 00hrs.

Ela gargalhou.

Ary foi na frente e abriu o guarda-chuva. No momento em que ela se direcionava a calçada, eu recebi uma nova mensagem no celular.

E tenho mais uma coisa pra lhe dizer! – Ela gritou.

Então diga! – Meu olhar estava dividido entre a ruiva presente naquela tempestade e o brilho do led no meu rosto.

Você tá certo, “migo”! Nem todos os homens são babacas.

Enquanto esticava um sorriso idiota, chequei as mensagens e vi que a nova era da Carol, minha ex, convidando-me a casa dela.

E então, você irá beber comigo? – Ary insistira.

Eu não soube o que escolher e desconhecia o fim dessa história, entretanto aqueles que não são canalhas, provavelmente já sabem exatamente como tudo acabou.

6 comentários em “Inerente

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    1. Vixi! me desculpe! Acabei de ver que esse blog não é da moça que me perguntou sobre um assunto na minha página. Ela linkou seu blog lá e achei que fosse dela, depois que fui ver os demais posts, que entendi que n era dela. Desculpe! =(

      P.S: ótimos textos! ótimo blog!

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  1. Disse que escolheu antes de receber a mensagem é porque escolheu no telefonema quando aceitou o argumento que a ” amizade” era maior que o amor fragilizado… E agora sendo canalha… A ex continuaria sendo ex no dia seguinte e poderia dizer que estava com a amiga e os dois chorando os amores desfeitos… Mas entendo o argumento do texto… Sempre vamos desagradar alguém e parecer babaca para ele por maior que for nossos esforços… O ser humano é egoísta quando acha que seu problema é o maior do mundo e o outro não está disposto a ajudar…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Hahaha. Obrigado pelo comentário!

      Nesse caso, a decisão veio no final mesmo.
      A resposta dele antes de receber a mensagem aconteceu somente para destacar que, independentemente do que escolhesse, acabaria sendo visto como um vacilão de uma forma ou de outra.

      Existe um episódio da série “Todo Mundo Odeia o Chris”, na qual o personagem principal é obrigado a escolher entre aconselhar o melhor amigo que fugiu de casa ou ficar no baile da escola e dançar com a nova namorada. Inevitavelmente ele ficaria mal na fita com um ou outro, por melhor que justificasse sua decisão. E foi o que aconteceu.
      Esse é o melhor exemplo vivo que encontro para realizar um paralelo ao caso acima.

      Ah, outro detalhe. O “Eu”, nessa história, o personagem masculino, foi deixado sem nome de propósito para que todos os homens se identificassem com a situação. Esse conto é de fato fictício.

      Bem… Se restou alguma dúvida sobre o que ele decidiu, basta olhar para a imagem de capa do conto 😉

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