Cartas para Benjamim

Um corredor estreito levava para sala, foi ali que ela se apresentou e serviu aqueles deliciosos biscoitinhos de canela. Ela mesma serviu e preparou o chá para a sua própria visita. Foi ela quem podou as plantas, quem também percebeu o cheiro forte que vinha da Serpentina. Sua avó era parteira, pelo seu umbigo calculou que ela seria a última filha de sua mãe. Margaritta Antônia conhecia  as plantas, e uma flor de Serpentina, ela bem sabia, coisa boa não vinha.

Seus olhos arregalados voltaram para flor, inocentemente colorida de vinho, as mãos de Margaritta estavam cobertas de terra . A muito tempo ela vinha observando aquela coisa inicialmente esverdeada, como uma espiga de milho fechada, que nascera em meio as folhas grandes da planta maldita. Como Margaritta, a planta não sabia dos males que causava, estava aparentemente feliz, coberta do orvalho de setembro.

Entrou para casa assustada, lavou as mãos observando a água colorida pela terra vermelha “sangue” -pensou-  “coisa boa não deveria ser”. Pensou tanto nisso que resolveu deixar para lá. Foi até a caixinha de correios, abriu e pegou aquela estranha correspondência, junto com um ímã de geladeira, e a conta de água.

O remetente: “Benjamim” –  para “Margaritta Antônia”- assim dizia o envelope. Abriu, e vejam só, um convite de casamento, deixado na caixinha de correspondência, que por sinal ficava perto da Serpentina. Benjamim irá se casar, a pouco tempo ela foi  a madrinha do casamento de uma amiga, prima dele. Usou um longo vestido cor de folhas secas, como aquelas que caem da árvore de Paina no outono.

“10 de fevereiro”, talvez nunca a possibilidade da chegada de uma data tenha perturbado tanto alguém. Na mente dela estava feito: Ela iria com o seu vestido de madrinha, e chegaria bem cedo, para se sentar no centro da primeira fileira da igreja. Mas aquilo era ridículo e todo mundo sabia. Sem saída, Margaritta decidiu recuar, a bandeira da paz estava estendida. Elas choravam, ela e a Serpentina, que todas as manhãs se cobria de orvalho, que se assemelhava a  lágrimas. Aquela pobre “Serpente vulgar”, o “Pequeno dragão”, a “planta com ventre de serpente”, que o seu florescer é o seu maior terror, que dona Manuela, achou rente a estrada, plantou e deu a Margaritta, para que essa pudesse ser avisada de possíveis males, agora parecia se compadecer, chorando todas as manhãs pela tristeza que inocentemente previu.

Foi a irmã de Margaritta quem cortou a flor da serpentina  e copiou o endereço do remetente da correspondência. Escreveu e enviou a primeira carta para Benjamim:

*Quando pela última vez olhou o papel e percebeu que não haveria mais esperança, uma dor persistente e aguda subia do ventre ao peito de Antônia. Haviam lembranças do dia anterior, quando por um mísero instante pensou estar feliz… que seria feliz.    

Seria como um socorro imediato e duradouro para suas dores presentes, seria como flores fora de época no quintal daquela casa vazia e em estado de inércia, mas em vez disso ele a havia  embebecido e a jogado como uma segunda peça a ser arrematada. Ele, ao invés de graça a entorpeceu e a tratou como areia no tapete felpudo da sala, remarcou sua existência à um singelo pó. Ele a havia renunciado por algum motivo, que sua intuição e razão não conseguiam compreender nem com os mais metódicos raciocínios. Por algum motivo ela foi jogada na lareira da sala e esquecida nas cinzas.    

A revelaste tão pouco de si, e o tão pouco a fez sonhar tão alto. Tão pouco a fez despencar em chamas de uma altura absurda. Sonhar já não bastava mais, era preciso esquecê-lo e joga-lo do penhasco mais alto do seu coração. Quando pela última vez olhou e percebeu o descaso, ela fechou os olhos e  as realezas palavras a mostraram estar vivendo uma quimera… mais uma vez. Pelas ruas escuras, mal iluminadas pelas lâmpadas de luzes amareladas, pedaços do seu coração eram deixados para trás, como sinalizadores para uma possível volta.   

Mesmo que houvesse uma suposta ressurreição daquilo que havia sido morto horas atrás, ela não confiaria e nem poderia. Tamanha foi a dor causada que seu coração ainda sangrava pelos buraquinhos estreitos deixados pelos alfinetes. Não haveria mais lembranças do seu rosto, do seu sorriso adocicado de flores de amora, não haveria mais possibilidades de olhar as suas mãos e pensar como elas se encaixariam perfeitamente nas suas, não olharia mais os seus olhos que sequer sabia a cor.    

Tamanha era a ansiedade que se encontrava quando os via que não tivera coragem de encará-los, tamanha foi a dor causada que não era comparada a dor da semana passada, causas naturais eram mais fáceis de serem obstruídas. A água gelada refrigerava o seu estômago e apenas isso a fazia sentir-se melhor, e com os olhos ainda abertos a frase novamente viajou para sua mente: tão pouco esperaste de mim, tão pouco me revelaste…”

*“A dor de Antônia”, escrito por Andreza Gonçalves (minha irmã)…

 

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