Desproporcionalmente idênticos

Afinal… Quem é ela? Há tempos a venero.

Ela que sempre deixou claro sua preferência pela paz, mesmo com tanto talento para guiar as guerras. Ela que encanta quando age naturalmente e conquista quando conquistar for seu intento. Mulher de beijos doces e lábios amargos. Palavras lindas e coração pesado.

Ela é fechada, por ser muito aberta. É falsa, por ser sincera. É fria, por brincar de ser quente. Ela desfila, publica, compartilha e viaja… Do futuro namorado ao novo vestido – Todos conhecem sua popularidade.

Pobres tietes, mal sabem… É tudo uma grande ilusão! Tudo miragem!

Ela geralmente não está só, mas se sente só. Todavia já aprendeu a utilizar os fatos da vida como escudo e distração. E ainda há quem questione e sinta inveja, sem perceber seu tamanho afinco ao atuar.

Sua cabeça é tão confusa quanto a galeria de imagens do seu celular. Uma foto marcante daqui, uma citação importante dali. Registros da infância, mensagens picantes, comédias e sorrisos. Tudo embaralhado, desarrumado e confuso, sem nenhuma ordem além da linha do tempo. Deletar registros com tanta facilidade seria então, a única grande distinção entre o aparelho insignificante e cérebro desalinhado.

A malfadada realidade é que ela vive bem, mediante a desistência de viver. Assim seguia em frente, assim permitia ser.

Nas noites de lua cheia, ela caminha sozinha até a praia e se esconde nos rochedos. Há quem diga que ela gosta de assistir o céu. Com a minha habitual timidez, observo da areia. Temo pelo cântico das ondas e do cansaço da alma, ousados, impulsiona-la a se jogar na sintonia salgada.

Há sempre a possibilidade de tudo se acabar numa noite, e justo hoje! Sinto as vibrações do inusual. Sento-me e o corpo coça. Escondo a tosse, mas escorre na fronte suor… Tento (e por ora consigo) imobilizar a aflição; ensaio momentos, mordo as unhas…

Quero conhecê-la e, talvez, convencê-la. De que não eis a única na Terra com o dom de barganhar com a depressão fazendo bom uso da hipocrisia. Ela não faz a mínima ideia do tempo que a observo, do fruto nascido duma ligeira percepção contida na essência de nossa primeira troca de olhares.

Quem sabe ela sabe, quem sabe olvidou.

E nessa luta contra mim mesmo, fui vencido pela tensão. De todas as batalhas noturnas, foi o nascer do sol que abortou o grito incessante das ondas. Ela optou, mais uma vez, por dar ouvidos a luz. Levantou-se, deixou o lugar. Passou por mim, sorriu – levou uma garrafa d’água. Cheguei a gaguejar, não fui capaz de concluir. Sou determinado a vê-la atravessar a avenida e voltar a se proteger no apartamento.

Vivo daqui, ela de lá. Como se fôssemos únicos, dividimos a angústia de tudo. A dama fingida e o vendedor de rua. Em comum apenas a velha maldição, de carregar o peso do Mundo.

– Quem é ela? Oras, sempre soube! Ela é a metade que nunca terei.

4 comentários em “Desproporcionalmente idênticos

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  1. “Ela que sempre deixou claro sua preferência pela paz, mesmo com tanto talento para guiar as guerras. Ela que encanta quando age naturalmente e conquista quando conquistar for seu intento. Mulher de beijos doces e lábios amargos. Palavras lindas e coração pesado.

    Ela é fechada, por ser muito aberta. É falsa, por ser sincera. É fria, por brincar de ser quente. Ela desfila, publica, compartilha e viaja… Do futuro namorado ao novo vestido – Todos conhecem sua popularidade.”

    Não pude deixar de salientar estas suas palavras, de todas elas, foram as que mais me tocaram, quiçá por me identificar com elas…
    Um texto muito bom, que diz muito, para lá do que não está escrito

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