Soçobrado Algoz

Olá querida.

Acabei de ler sua última carta, peço perdão pela demora em responde-la.

Eu havia lhe dito que precisava de um tempo para pensar, repensar e… sei lá! Viver um pouco. Acho que consegui. Do meu jeito, mas consegui. E o ato de te escrever causa-me um baita sentimento invulgar. A ideia de tê-la na cabeça, ter de me concentrar na sua imagem para me expressar, faz parecer com que todo esforço que fiz para esquecê-la tenha sido em vão.

É, pois é. Estou confessando de que toda essa distância pouco adiantou. Não tenho medo de imaginar sua reação quanto a isto, já não alimento mais o próprio orgulho com o mesmo frenesi de outrora. Todo esse tempo longe só me fez perceber o quão babaca fui, por nunca ter feito questão de ficar por perto.

Entretanto valeu o aprendizado. As coisas foram ruins apenas no começo, logo após o momento em que decidi partir. Depois a vida foi moldando seu próprio nivelamento e.., Sabe querida, acho que me perdi na ideia de me perder em mim mesmo. Tu compreendes como nós, os sistemáticos, somos – tentamos controlar todas as coisas que estão ao redor, até mesmo os fatos que obviamente cavalgam além do nosso próprio controle. Às vezes, nos embolamos no processo. Quando me vi, já estava embaralhado pela maré. Da bebida, dos amigos, dos lugares e ocasiões. Havia decidido entrar no mundo para recuperar meu coração, mas perdi apenas idade, dinheiro, palavras e esperanças.

Admito que não decidi escrever apenas para compartilhar todos os dias tristes. Nem tudo foi ruim, tive momentos bons. Todavia o que são os momentos bons quando se está padecendo? Eles são como bolhas de ar num oceano escuro e frio. Bolhas que aparecerem de forma aleatória, tão somente para me manter vivo e renovar a confiança. Alegrias passageiras que escondem uma realidade cada vez mais submersa e profunda.

Por enquanto não penso em voltar atrás, seria incapaz de rabiscar minhas promessas. Vou seguir sozinho, diferente, mas ainda sozinho. Doravante estabeleço um novo período distante; longe de incomoda-la. Confesso que quando terminei de ler a sua carta, meditei sobre o fato de não haver nenhuma jura de amor no decorrer das letras, como era de costume nas anteriores. Foi a primeira carta que recebi de ti, cujo o conteúdo não estava cingido de amor.

Teria sido eu um babaca por não ter feito nenhuma questão de tê-la por perto? Ou será que a babaquice sempre esteve na insistência de querer ficar ao seu lado? Os anos se passaram, não consigo encontrar a resposta.

Enquanto aguardo o desenrolar das questões que o vento não trás ou não leva, continuo aqui, afundando e respirando de pouco em pouco. Aguardando que me abandone de vez, ou que, talvez, lances uma âncora…

4 comentários em “Soçobrado Algoz

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