Diário de bordo #2

 

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A série: “Diário de bordo”, será uma coleção de rascunhos pessoais que trabalham a angústia.

 

Algumas noites a viagem vai além de sentar e observar as placas e luzes ao redor volante. Há madrugadas em que todo processo de condução mergulha na vibe das rodovias, amarrado em suas poderosas teias. Os efeitos são mais fortes nas mentes daqueles que partilham do velho defeito de pensar demais. A nostalgia viva e palpável sobe à cabeça tão rapidamente quanto a pujança da heroína chegando ao cérebro. Quando percebo, já estou mergulhado nas dolorosas lembranças de tudo aquilo que nunca aconteceu. Dos medos e temor no qual nenhum velocímetro é capaz de afastar.

As ideias flutuam no ar na consonância das gotas de chuva, nas cores dos faróis, nos cheiros das rodovias, no volume do rádio… No fim, também sou estrada – toda uma vida resumida em tomadas e caminhos próprios dos quais, nem sempre, possuem um meio de passagem confiável, ou um final feliz.

Partilhar dessa entorpecente forma de melancolia é tão belo quanto angustiante. As memórias que aparecem espelhadas nos vidros das janelas são como canivetes em forma de imagens, que servem para coçar feridas outrora cicatrizadas. Tais marcas são, precisamente, relacionamentos naufragados e enterrados. As lembranças mais fortes são os canivetes mais afiados e de poderio labutado no decorrer dos anos. Prontos para expor as cesuras saradas no primeiro sinal de fraqueza e entrega da alma, deixando labirintos de lágrimas, sangue e carne viva, a cada velha-nova recordação.

Quando a própria mente é a principal vilã e assumidamente inimiga, provém dela a prática de exibir todas as nossas feridas pessoais ao público. Um ato incônscio e tímido que serve de ressalto ao fato de que nem tudo ainda foi devidamente esquecido. Todo trágico é um bêbado que bebe para ficar sóbrio. A tentativa de manter as aparências costuma vencer a análise da maioria. Entretanto os olhares mais atentos são capazes de perceber os devaneios nas entrelinhas; as loucuras escoadas pelas mãos e as psicoses que com o tempo, se tornam piadas.

Num certo ponto, tudo se resume as perguntas:

Ceder ou não ceder? Sangrar ou não sangrar…?

Bem, quem se importa?!

A 120km/h, não existe a necessidade de desabafar. Sou só mais um farol… um espirito em forma de tiro! Imperceptível para os corações e atento aos radares. Esmo que transcende do desconhecido para o desconhecido. Uma das centenas de entidades no transito da vida que, sozinho, esconde a saudade de tudo, com um rádio que arrebata do mundo, sem fazer questão de nada…

 

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