O cuidador de cães

 As feridas podem criar monstros

::::Cena do Filme Ilha do Medo::::

 

 

Há feridas que o melhor é não tentar cura-las como muitos desejam, pois o corpo não suportaria a operação, sejam no sentimento, seja na carne viva, uma vez ou outra é melhor viver com um só olho que tentar ter os dois e ver o que não se deveria jamais enxergar.

E é bom entender isso. Pode acreditar. Haja vista ser melhor se contentar com o que se tem que viver sempre desejando sem nada conseguir, já falava um rei antigo.

Foi assim que aconteceu, quando elogiei aquele senhor, o homem acreditou demais em minhas palavras e um defunto ressuscitou, com sonhos e ideias que destoavam de sua realidade limitada.

Quando trabalhava em um bar famoso que  convidava cantores de música brega eu via. Estava como garçom aprendiz, e o cara chorava igual criança na mesa do bar, tinha o coração domesticado para ser cachorro, e não homem.

Fui crescendo, estudei Direito e Psicanálise optei pela segunda profissão, no inicio da carreira, até que deixei quando tornei-me redator na TV de um tio meu.

Ser psicanalistas era na verdade uma ocupação escolhida  por causa da busca social por qualidade de vida presente em nossa sociedade, e por que no Direito tinha que mentir demais, e como todos sabem, não levo muito jeito para isso, então fui trabalhar numa clínica.

Recém-formado, recebi a presença de um sujeito no consultório, era ele, o cara que chorava na mesa do bar.

Induzi a tornar-se torcedor de certo time que tem o prodigioso poder de hipnotizar sua torcida de loucos, –há sim,  nunca gostei do mito da neutralidade do analista — mas não quis, lembro-me de um amigo que resolveu uma paixão arrochada assim.

Agora, eu vi, ele vai se candidatar a vereador, e vai virar cachorro doído sem dono com essa carga de afetos confusos canalizada para a política.

Seus olhos brilhavam profusamente. Às vezes ficava instantes sem piscar.Apresentava uma espiral nas pupilas com o rosto oleosamente petrificado em uma posição onde a cabeça ficava ligeiramente levantada em ar de silêncio e estranha imponência.

Saiu da sessão e disse que ia registrar candidatura.

E foi.

Apresentou projetos, discutiu com colegas, deu até entrevista numa rádio.

No último dia, o prefeito da pequena cidade, meu amigo de infância, sabendo de tudo que lhe contei, – sim, eu contava -, cortou seu nome do corpo de candidatos alegando problemas com a legenda, para a confusão ficar menor, e a tragédia final ser adiada.

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